O grande problema de boa parte das comédias românticas atuais é a falta de ambição. Em outras palavras, a popularização do gênero a partir dos anos 1990 transformou narrativas cinematográficas em arcos engessados e imutáveis que apenas regurgitavam histórias consagradas – e que não trouxeram nada de novo a histórias desse estilo ou não apresentaram perspectivas novas a arquétipos familiares demais para nos convencerem. Com algumas exceções, como é o caso do ótimo filme ‘Podres de Ricos’ ou da memorável ‘A Mentira’, é difícil encontrarmos, ao menos hoje, títulos que fujam do padrão. Felizmente, ‘Amores à Parte’ veio para mostrar que, quando um talentoso time se reúne, mágica acontece.
A trama acompanha Carey (Kyle Marvin), que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando a esposa, Ashley (Adria Arjona), revela que quer o divórcio por não estar mais feliz – e isso não é culpa de seu marido, e sim de suas impulsões para explorar o que ela negou a si própria por muito tempo, principalmente no tocante a assuntos carnais. Levado a uma espiral de culpa, ele recorre à ajuda do melhor amigo, Paul (Michael Angelo Corvino), que já está casado há alguns anos com a bela Julie (Dakota Johnson). Tentando entender o que aconteceu, ele se vê em território inédito quando eles revelam que têm um relacionamento aberto e não-monogâmico, mostrando a Carey um lado diferente do amor e do sexo, eventualmente culminando em uma breve noite com Julie.

O problema é que as coisas não são tão simples quanto imaginava: decidindo não acatar o divórcio e sim abrir o relacionamento, Carey se mostra compreensível aos desejos de Ashley, tornando-se inclusive amigo de seus amantes e cultivando nela um crescente ciúme que nos engaja em uma divertida e despretensiosa jornada; em outro espectro, Paul percebe que não é evoluído o suficiente para acatar um casamento não-monogâmico, resolvendo trabalhar em uma constância doentia até entrar em um negócio falido e perder todo o dinheiro – o que alimenta a decisão de Julie em deixá-lo. E, a partir daí, nossos protagonistas se veem em um inesperado arco coming-of-age que funciona como uma sagaz e hilária análise da complexidade humana como um todo.
Marvin e Corvino unem forças para um exímio roteiro que, ao longo de quase duas horas, não perde o ritmo em momento algum. A dupla, que já trabalhou junta na dramédia ‘A Subida’, afasta-se das construções palpáveis da alegre melancolia da vida para apostar fichas em uma narrativa que beira o non-sense de maneira aprazível e competente – ora, a primeira cena do filme já mostra Carey e Ashley tentando apimentar a relação em uma viagem de carro, que logo se transforma em um choque de realidade quando presenciam um trágico acidente. A partir daí, somos engolfados em peripécias que singram entre uma vergonha alheia proposital e a importância da honestidade, por mais brutal que seja, que é respaldada com tiradas inteligentes e um ácido humor que nos conquista logo de cara.

Corvino não apenas empresta suas habilidades ao roteiro e ao elenco principal, como dirige o projeto – e, de maneira exemplar, rearranja os tropos das rom-coms para um escopo adulto e que converge uma crise de meia-idade a um microcosmo povoado por ótimas atuações e uma invejável excelência estética. Investindo em incursões ousadas que incluem planos-sequência intrincados e bem coreografados, o diretor foge do exagero imagético e deixa que a fotografia de Adam Newport-Berra se desenrole de maneira sóbria e bem calculada, enquanto a montagem de Sara Shaw abre espaço para momentos mais íntimos que refletem a multiplicidade de personalidades que compõe o projeto.
De certa maneira, as pulsões cômicas e românticas funcionam como sutilezas que mascaram uma profundidade às escondidas e que traz à tona tipos de relacionamento que, mesmo em pleno século XXI, são condenados por não se restringirem à norma. Mais do que isso, essa comédia de erros bem apessoada e estruturada sobre uma sólida base técnica e artística esquadrinha obras como ‘Sonho de Uma Noite de Verão’ e ‘Nosso Tipo de Mulher’ em uma releitura contemporânea e que usa e abusa do talento inato de seus atores. Corvino e Marvin reiteram sua afeição pelo gênero de maneira esplêndida, enquanto Johnson e Arjona roubam os holofotes ao se jogarem de cabeça em papéis edificados – cada qual navegando pelas atribulações e pela efemeridade da vida em uma irônica exploração existencialista.

Garantindo um aproveitamento máximo de um potencial quase infinito, ‘Amores à Parte’ se sagra um dos melhores longas-metragens do ano e uma das melhores rom-coms da década, emergindo como um clássico instantâneo para o gênero e reiterando o poder de tais histórias dentro do circuito cinematográfico.
Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 21 de agosto.
