Existe algo fascinante na existência masculina que é a sensação constante de sempre estar abaixo das expectativas. Independentemente da idade, a sociedade foi construída sob essa ótica arcaica de que você deve ser responsável e carregar o mundo nas costas. É algo que acompanha o homem da infância ao fim da vida, uma sensação incômoda de frustração, como se tudo que a pessoa fizesse não fosse o suficiente. Começa na infância, mas se manifesta de forma mais agressiva na reta final da vida.
Essa pressão por ser mais, a voz interna de “você podia ter feito mais” pode ser encarada como uma competitividade pelo sucesso e tudo mais, mas geralmente costuma render mesmo é a frustração. Desse sentimento frustrante surgem coisas como depressão ou a famosa ‘crise da meia-idade’, que leva homens entre 40 e 60 anos a olharem para trás na própria vida e sentirem que o tempo passou e aquilo que eles sonhavam, que a pressão social prometeu a eles, nunca chegou realmente. Como o acompanhamento psicológico não é muito difundido, essa ‘crise’ rende momentos de impulsividade que costumam acabar em situações que trazem alguma realização pessoal, ao mesmo tempo que rendem julgamento da sociedade novamente.
E é engraçado reparar como os devaneios infantis e os sonhos da crise da meia-idade são similares. Ambos querem uma vida de adrenalina e aventuras, pilotas carros incríveis, fazer manobras, sair com belas mulheres, surpreender o mundo… Buscar por protagonismo. Independentemente da idade, essa vontade de estar no controle da própria história, mesmo que por alguns poucos momentos, é tão importante – e ao mesmo tempo, tão pouco falada ou levada a sério. Ao menos… Até agora. Desde 2010, o diretor Joseph Kosinski surgiu nos cinemas com uma visão nostálgica de resgate do passado. Seu primeiro trabalho foi Tron – O Legado (2010), mas foi apenas em 2022, com Top Gun: Maverick, que ele se firmou na cena como um nome forte e que merece atenção.

Kosinski está nos seus 50 anos, então começou seu ‘auge’ aos 40. Justamente quando passou a retratar em cena personagens que parecem estar na ‘crise da meia-idade’. Porém, diferentemente desse caminhão de comédias românticas existentes por aí, os filmes de Joseph não tratam o tema com deboche ou como motivo de piada. O diretor e roteirista promove um debate de forma orgânica, trazendo para a conversa outro tópico que está cada vez mais em pauta: o etarismo.
Nesta quinta-feira (26), chega aos cinemas F1, um filme produzido por Lewis Hamilton, cuja trama acompanha Sonny Hayes (Brad Pitt), um piloto americano que surgiu como promessa na década de 1990, que nunca se firmou na categoria, após sofrer um acidente traumático. Apaixonado pela velocidade, porém ele se recusou a aposentar o volante, rodando o mundo atrás de categorias que o aceitassem. O que o manteve vivo por todo esse tempo foi a corrida e sua paixão por estar ali. Até que, no alto de seus 56 anos, ele recebe um convite para lá de inesperado para retornar à Fórmula 1, em uma equipe à beira do caos, com um carro considerado uma porcaria, para tentar conseguir apenas uma vitória. Ao seu lado, está um dos pilotos mais promissores da nova geração, com quem terá de trabalhar e inspirar para evitar que ele também se perca pelo caminho.

Falando dessa forma, quem gosta do mundo do automobilismo certamente vai lembrar de Carros 3 (2017), que também fala sobre o amor pelas pistas e a recusa do piloto em aceitar que seu tempo acabou. Só que, diferente da subestimada aventura da Pixar, F1 é construído de forma a levar o protagonista a acreditar que ainda há espaço para ele. É como se a trama fosse a mesma, mas com o final da animação sendo o início dessa aventura. F1 é como um Carros 3.5. E isso é espetacular! O grande motivador do filme é justamente a pressão popular ao redor de Sonny, que é considerado velho demais para estar ali por todos. A imprensa não suporta sua presença, seu companheiro de time se sente ultrajado por estar ao lado de um velho fracassado, até a equipe técnica põe suas indicações em xeque por achá-lo ultrapassado. O que eles não esperavam era a indiferença do protagonista. Sonny está na pista há muito tempo. Sua existência se deu nesse ambiente e em suas mais diferentes categorias. Para lidar com isso tudo, ele tem apenas um objetivo: correr. E ver a forma como essa indiferença do protagonista é usada como escudo para ele, que se importa, sim, com tudo que está acontecendo ao redor, é delicioso.
Brad Pitt faz um trabalho sensacional ao adotar o estereótipo do ‘velho cowboy’ nas pistas, enquanto traz um tom professoral arrogante de quem já passou por muita coisa na vida e agora, mesmo que sem muito jeito, tenta transmitir essa sabedoria aos outros, ainda que de forma pouco ortodoxa. É um personagem que seria facilmente tratado como vilão ou como alívio cômico em outros tipos de filme, mas aqui existe um trabalho para que o público o leve a sério. Por mais que falte tato, seus pontos são relevantes, suas experiências são válidas. Ele não é só mais um velho maluco tentando se matar, é um apaixonado que busca, nas pistas, se reconectar consigo mesmo e com a promessa de grandeza que um dia fizeram a ele – e ele chegou a sentir um breve, mas saborosíssimo gosto.

A trama é conduzida de forma tortuosa, mas é justamente nesses conflitos que Sonny se torna inesquecível. Cada ação é justificada pelo resultado, mostrando que esse tom professoral não era puramente arrogância, que existia, sim, coisa válida em seus atos. E ver o time perceber isso aos poucos, em vez de julgá-lo e forçar sua saída, é realmente cativante. Conforme cada membro começa a entender o que está acontecendo – mesmo que isso signifique dar uma forçada em algumas regras da Fórmula 1, por meio de liberdades poéticas muito bem-vindas, diga-se de passagem – ali, as loucuras de Sonny se tornam mais compreensíveis. Para o público, principalmente as pessoas na mesma faixa etária do protagonista, é uma experiência de “alma lavada”. Em um mundo no qual o debate sobre a ‘utilidade’ de um ser humano ser diretamente ligada a sua idade, F1 vem para um combate franco contra o etarismo. E essa guerra solitária de Joseph Kosinski vem em um momento ideal, porque suas produções estão dando voz a uma geração que está envelhecendo e se sentindo sufocada, esquecida. Seus filmes são como gritos de “Ainda estou aqui! Ainda tenho valor!”. E isso é lindo. Diria até que é necessário.
Para a geração mais jovem, o longa se torna marcante não apenas pelo storytelling envolvente de Kosinski, que promove uma verdadeira jornada pela história da Fórmula 1, mas também pelo primor técnico. A direção põe o público para entrar em um carro de F1 e sofrer os impactos de GPs como Silverstone, Monza e Abu Dhabi. E a produção ter gravado cenas em Grand Prix reais, trazendo esse atual elenco da F1 e utilizando seus nomes, escuderias e rostos fez toda a diferença. Esse realismo dos atletas da vida real estarem no meio da dupla fictícia deixou tudo mais crível, a ponto do público ficar tão elétrico com a adrenalina e os conflitos que se esquece que está assistindo uma ficção. Esse compromisso com o realismo é uma estratégia que Kosinski trouxe de Top Gun: Maverick, em que colocou os atores para pilotares caças de verdade para conseguir cenas de suas reações autênticas em situações complexas. Misturando essas sequências com as de estúdio, ele consegue fazer o público acreditar que é tudo real. Assim, as mais de 2h30 de filme passam num piscar de olhos.

E para quem é apaixonado por Fórmula 1, essa aventura será mais do que especial. Além de criar um imaginário para o que acontece nos boxes ou nos centros de treinamento, sempre brincando com a superexposição midiática as quais os pilotos são submetidos, o filme mexe com ícones que vão acertar direitinho no coração dos fãs, principalmente dos brasileiros. Sim, no filme, Sonny surgiu no esporte justamente na era de ouro de Ayrton Senna, e a família do piloto foi bastante generosa ao permitir um caminhão de referências ao ídolo brasileiro na trama, com direito a menções, presença de carros históricos e até mesmo a um trechinho que é repetido algumas vezes, mas que arrepia a cada segundo em tela.
Enfim, unindo a direção de Top Gun: Maverick a essa trama meio Carros 3.5, Joseph Kosinski proporciona uma das mais emocionantes, divertidas e necessárias experiências cinematográficas do ano. Se tiver a oportunidade, assista em uma sala Imax, porque a qualidade do som e a tela gigantesca agregam muito a imergir nesse filme, já que trazem mais detalhes para a construção desse mundo, principalmente durantes os GP’s. Nessa luta contra o etarismo, Kosinski e Pitt materializam o sonho de todo menino que cresceu apaixonado por carros e o de todo homem na meia-idade que sonha com uma aventura final para reviver os dias de glória que talvez nunca tenham chegado. E isso rende uma aventura extremamente satisfatória, que se aproxima – e muito – de transformar uma sala de cinema em uma arquibancada. É maravilhoso!

