segunda-feira, janeiro 5, 2026

Crítica | Família de Aluguel: Brendan Fraser encena a solidão como mercado

CríticasCrítica | Família de Aluguel: Brendan Fraser encena a solidão como mercado

Depois de vencer o Oscar por A Baleia (2022) e de aparecer brevemente em Assassinos da Lua das Flores (2023), Brendan Fraser retorna ao protagonismo em Família de Aluguel (Rental Family), de Hikari (nome artístico de Mitsuyo Miyazaki). Longe do estrelato, Fraser interpreta um homem solitário, deslocado, carregando no rosto a melancolia de quem passou tempo demais à margem, seja da indústria cinematográfica, seja das relações pessoais.

Ambientado em Tóquio, o longa acompanha Phillip Vanderploeg (Fraser), um ator que se mudou para o Japão anos antes para estrelar um comercial de pasta de dente e que, desde então, nunca conseguiu ir além de papéis menores. Fluente em japonês e, aparentemente, adaptado à rotina local, Phillip permanece um estrangeiro — não apenas cultural, mas emocional. A sua permanência é menos por pertencimento e mais pela ausência de vínculos que o chamam de volta aos Estados Unidos.



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A narrativa ganha corpo quando Phillip passa a trabalhar para uma empresa especializada em “alugar” pessoas, inspirada em negócios reais no Japão. Não se alugam apenas famílias, mas experiências afetivas completas: convidados de casamento, amigos de infância, parceiros românticos, figurantes em funerais falsos. Tudo é encenação, uma mise-en-scène cuidadosamente organizada para atender desejos que não puderam ser supridos pelas circunstâncias da vida. 

Com essa premissa, a obra tinha tudo para ser piegas ou excessivamente açucarada, mas Hikari conduz a história com elegância e contenção, apoiada em um roteiro melancólico e preciso escrito em parceria com Stephen Blahut. Nas primeiras tarefas, o tom é quase leve: Phillip interpreta um noivo canadense para que a noiva preserve as aparências diante da família; faz o “americano triste” em um funeral encenado; torna-se amigo de um homem solitário. 

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A empresa é comandada por Shinji (Takehiro Hira), um gerente eficiente e aparentemente frio, cuja rigidez vai revelando camadas inesperadas. Ao seu lado estão Kota (Kimura Bun) e Aiko (Mari Yamamoto), colega de trabalho frequentemente encarregada das tarefas mais emocionalmente desgastantes, como interpretar amantes de homens casados e lidar com a fúria das esposas traídas. Para quem estranha esse tipo de arranjo sob um olhar ocidental, vale lembrar que dinâmicas semelhantes aparecem no documentário Dispersora de Amantes (2024), de Elizabeth Lo, que observa como o adultério é culturalmente negociado entre casais chineses.

Voltando ao filme, a solidão de Phillip é visualmente sublinhada em cenas silenciosas nas quais ele observa, da janela de seu apartamento, a vida plena dos vizinhos do prédio em frente. É uma espécie de Janela Indiscreta (1954) invertida: não há crime a ser descoberto, apenas a espera de que algo aconteça, de que a vida — qualquer vida — finalmente o inclua.

A narrativa aprofunda seu dilema moral quando Phillip aceita dois trabalhos mais delicados. Em um deles, finge ser jornalista para entrevistar Kikuo (Akira Emoto), um ator lendário e esquecido que começa a perder a memória. No outro, mais perturbador, é contratado por uma mãe solo (Shino Shinozaki) para interpretar o pai de Mia (Shannon Gorman), uma menina de 11 anos que nunca conheceu o verdadeiro pai. A intenção é aumentar as chances da garota ingressar em uma escola prestigiada, algo decisivo para seu futuro.

A relação entre Phillip e Mia é o coração emocional do filme. Quando a resistência inicial da menina dá lugar a uma convivência afetuosa, o espectador sabe que aquela encenação está fadada ao colapso. Phillip incentiva, aconselha, troca mensagens e pendura na janela do apartamento um desenho feito por Mia — substituindo o olhar curioso sobre os outros por um vínculo que ele próprio ajudou a construir. O afeto é real, mas o papel é falso. E o filme não foge dessa contradição.

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Hikari tem o mérito de reconhecer o peso ético dessa situação. Família de Aluguel não romantiza a relação nem oferece uma saída “americanizada”, baseada em redenção ou na transformação mágica da família falsa em verdadeira. Ao contrário, entende que certos vazios podem ser temporariamente preenchidos, mas nunca sem consequências. Ao sugerir paralelos entre atuação, trabalho emocional e até prostituição, o filme provoca sem cinismo: se atuar é vender emoções, até que ponto nossas relações cotidianas também não são performances?

Reconfortante e melancólico ao mesmo tempo, Família de Aluguel surpreende ao transformar uma premissa simples em uma reflexão complexa sobre solidão, consumo e pertencimento. É um filme que observa seus personagens com empatia, mas sem ilusões. Resta uma pergunta incômoda: no lugar daquele homem, tentando preencher um vazio afetivo, agiríamos de forma diferente? Ou repetiríamos o mesmo gesto?

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Distribuído pelos Estúdios Disney, Família de Aluguel estreou mundialmente no Festival de Filme Internacional de Toronto, em setembro de 2025. O título chega aos cinemas brasileiro no dia 8 de janeiro de 2026. 

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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