O Festival Eurovision é uma das competições mais famosas dos últimos sessenta anos e, realizado na Europa, reúne diversos talentos em território ocidental e oriental que lutam para conquistar o primeiro lugar do pódio. Ao longo de sua história, diversas lendas da música já passaram pelo evento, incluindo Conchita Wurst, Salvador Sobral e Netta Barzilai – explorando as culturas nacionais e entregando construções sonoras que destilam inúmeros estilos conhecidos, convergindo-os para uma explosão dançante e regada a sintetizadores que nos convida para uma experiência única. Agora, em 2020, Will Ferrell e a Netflix uniram forças para dar vida a Festival Eurivision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars, uma comédia musical com o coração no lugar certo, mas que se vale de muitas fórmulas para dar vida à sua narrativa principal.

Na trama, Ferrell e Rachel McAdams dão vida ao casal principal titular, amigos que, desde criança, são apaixonados pelo festival em questão, quando assistiram o icônico grupo ABBA se apresentando (e levando para casa o grande prêmio). Os dois passaram a vida compondo as músicas mais insanas e bizarras possíveis para fazer parte da concorrência, mas sempre foram diminuídos pelos habitantes da pequena Húsavík, na Islândia, e principalmente por seus respectivos pais. Como obra do destino – que é explicada num adorável meneio para a cultura celta que se apoderou do país na Idade Média -, eles são escalados para participar da competição local como “tapa-buracos”, tornando-se os mais fracos entre os competidores. Entretanto, depois que uma explosão infeliz mata a melhor das artistas (Demi Lovato em uma brevíssima aparição como Katiana), cabe a eles restaurar a glória de sua terra natal.

Conhecendo a extensa carreira de Ferrell, que aqui entra como roteirista e produtor executivo também, era de se esperar que a comédia pastelão fosse o principal mote. Porém, no geral, ele parece sem inspiração para alçar voo para além das grades que o prendem, e resolve se escorar com força em convencionalismos baratos que só são salvos pelos números musicais, pelo incrível design de produção e por sua química com McAdams. Afinal, cada ato da trama, que estende-se desnecessariamente por duas horas, é previsível, seja o arco romântico fustigado por partes terceiras que não têm nada a ver com qualquer coisa, seja a autolibertação e o amadurecimento promovido pelas mensagens clichês. Mesmo assim, é impossível não ficar preso no enredo e querer saber o final dessa conturbada jornada.

É interessante ver David Dobkin voltando para a direção de comédias, visto que encontrou uma sólida recepção da crítica e do público com Penetras Bons de Bico. Visto que não repetiu o mesmo sucesso com o drama criminal ‘O Juiz’, era apenas questão de tempo para retornasse às raízes – mas, assim como seus outros colegas, não parece aproveitar o colorido e transbordante potencial do material com o qual trabalho. Na atmosfera arquitetada, o conhecido jogo do campo-contracampo é o suficiente para diminuir a grandiosidade do cenário – seja na Islândia, seja na Escócia – e transformá-lo em uma danceteria qualquer que, por alguma razão, se mescla com as alternativas metalinguísticas dos videoclipes (o que não funciona, por mais que suas intenções sejam as melhores).

O desenrolar da história é premeditado, ainda que tente fazer inflexões generosas e ousadas para seus personagens – com alguns foreshadowings óbvios demais para serem críveis ou surpreendentes. Felizmente, as homenagens que Dobkin e seu time artístico imprimem no longa-metragem são palpáveis o bastante para não transformá-lo em uma ridicularização dessa competição tão importante para a esfera fonográfica, deixando claro que as construções irreverentes dos personagens (quando existem) se restringem apenas a eles mesmos, e não ao festival. No final das contas, o roteiro mergulha de cabeça num final feliz “às avessas”, que não entrega o primeiro lugar à dupla protagonista, mas os transforma em heróis.

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O grande sucesso de ‘Festival Eurovision da Canção’ é, sem dúvida, sua impecável trilha sonora. Trazendo DJ Tiësto para fazer um tributo ao exorbitante synth-house noventista com “Double Trouble” – cujas ambas versões são de tirar o fôlego – e a incrível My Mariannen para comandar grande parte das tracks, misturando seus vocais com os de McAdams, cada peça instrumental é um presente para os fãs do festival e para quem é apaixonado pela subversiva arte europeia. Em meio a uma bagunçada narrativa, até mesmo o song-a-long que traz Cher, Madonna e David Guetta e a rendição emocionante de “Húsavík” (a balada que todos precisávamos) servem como motivo para assistirmos ao filme até os momentos finais.

No geral, a nova comédia musical da Netflix cumpre em partes o que veio nos prometendo desde o lançamento do material promocional – incluindo o divertido vídeo de “Volcano Man”. Deixando de lado uma preocupação maior com o enredo e não explorando todo o potencial, o visual camp e kitsch e as canções podem até agradar; mas seria melhor assistir ao festival original para se deliciar com o que ele tem para oferecer.

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