Há alguns anos as grandes produtoras mundiais especializadas em filmes de super-heróis têm batido na tecla de mostrar ao espectador que, embora os personagens usem trajes especiais, máscara e capa, o verdadeiro herói é o cidadão comum, o pai e mãe que todos os dias saem para trabalhar e tornam a vida dos filhos incrível. Especialmente neste ano de 2020, com tudo que está acontecendo no mundo, essa ideia vem sendo reforçada com relação aos profissionais de saúde, dos mercados, dos deliveries etc, pois foi quando a ficção encontrou a realidade. Nessa pegada toda, surge ‘Freaks: Um de Nós’, novo filme alemão do gênero super-herói disponível na Netflix, mas, diferentemente de ‘Origens Secretas’, a pegada aqui é bem mais fastidioso.

Wendy (Cornelia Gröschel) é uma mãe de família comum, que trabalha numa lanchonete beira de estrada e está com vários boletos atrasados. Desde criança ela toma uma pílula especial e faz acompanhamento psicológico com uma médica do governo – é esse tratamento que permitiu que ela tivesse alguma estabilidade em sua vida. Um dia, um mendigo (Wotan Wilke Möhring) a aborda na lanchonete e fala que ela especial, que deveria parar de tomar as pílulas para habilitar seus superpoderes. Desconfiada, Wendy obedece ao homem e ganha uma super força, oriunda de sua raiva controlada por tantos anos; de quebra, ainda descobre que Elmar (Tim Oliver Schultz), seu colega de trabalho, também é especial e controla raios e energia elétrica.


A coisa toda poderia começar desse mote e seguir para algo muito mais interessante, porém, o roteiro de Marc O. Seng é suuuuper morno, focando demais no primeiro arco cotidiano do enredo em vez de desenvolver o conjunto da trama e ir logo para os heróis que o público tanto quer ver. A vida tediosa de Wendy é tão monótona, tanto no trabalho quanto na família, que faz a gente até criar uma expectativa com relação aos poderes dela, imaginando que, a partir de sua descoberta, o filme melhoria. Mas não melhora. O roteiro insere personagens sem aprofundá-los, focando em relações e diálogos que nada acrescentam à história e, ao mesmo tempo, inserindo outros tantos elementos que são pouquíssimo explorados.

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Entraria aí um maior poder de argumentação do diretor Felix Binder, que deveria ter enxergado que o roteiro estava ambicioso demais para o formato de longa-metragem, e poderia ter enxugado o drama pessoal desinteressante dos personagens para focar no embate entre super-heróis X sociedade controladora, que tanto fez sucesso em ‘X-Men’, especialmente quando seus personagens tão facilmente conectam a memória do espectador a sucessos como ‘Hulk’ e ‘Shazam’. Mas a impressão geral é a de que o elenco é pouco carismático e quase tão entediado quanto seus personagens, inseridos numa trama que não consegue se decidir se pretende focar na vida mundana ou se nas maravilhacidades dos super-heróis.

Sem sal, ‘Freaks: Um de Nós’ ainda possui um título preconceituoso, reforçando a ideia de quem não se enquadra na normatividade é um ‘freak’, um anormal. E ainda vem com uma mensagenzinha cafona no fim, falando que, no final das contas, somos todos especiais, até mesmo eu e você. ‘Freaks: Um de Nós’ parece ter se esforçado bastante para criar uma atmosfera que preparasse o terreno para uma(s) possível(is) continuação (ões), mas se esqueceu do mais importante: fazer funcionar esse primeiro filme. Com um resultado tão banho-maria, é pouco provável que a franquia continue.

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