Crítica | Legalize Já: A Amizade Nunca Morre – Uma biografia musical diferente

Crítica | Legalize Já: A Amizade Nunca Morre – Uma biografia musical diferente

Nota:

Laços de Afeto

Um dos gêneros que mais chamam atenção do público em obras brasileiras é a biografia musical. Artistas e ídolos da nossa música são novamente imortalizados através da sétima arte e os fãs, é claro, sentem-se homenageados ao lado de tais ícones. Cazuza, Tim Maia, Elis Regina, Legião Urbana (e Renato Russo), Zezé Di Camargo & LucianoLuiz Gonzaga e Gonzaguinha são algumas das figuras populares retratadas em seus próprios filmes ao longo dos últimos anos. De fato, tal tipo de obra se tornou um filão tão grande, chegando a dar origem a um subgênero dentro de nosso cinema.

O mais recente exemplar do gênero atende pelo título Legalize Já, e só por isso você já pode imaginar qual artista é celebrado pelo longa. Quem disse Planet Hemp, acertou. No entanto, a proposta do filme de Johnny Araújo (O Magnata e Chocante) e Gustavo Bonafé não é simplesmente enaltecer suas representações ao retratar ídolos da juventude. O grande atrativo do longa é justamente o caminho inverso que trilha, sendo muito mais uma celebração da amizade e do espírito humano do que das conquistas da dupla protagonista em si.

De fato, Legalize Já poderia ser a história das dificuldades de quaisquer dois brasileiros. Aqui,  eles apenas calharam de ser Marcelo Peixoto e Luis Antônio, que algum tempo depois do primeiro encontro ficariam famosos como Marcelo D2 e Skunk,e da união nasceria um dos grupos musicais mais polêmicos e subversivos da história de nossa música popular: o Planet Hemp.



O dia a dia duro da classe média baixa do Rio de Janeiro ressoa muito atual, mesmo esta história sendo situada na década de 1990. Problemas financeiros, gravidez, filhos, relacionamento e opressão policial são retratados neste libelo sobre liberdade, vida artística e quebra de preconceitos e paradigmas. Marcelo é um vendedor ambulante, que luta para ganhar alguns trocados. Perante a gravidez da namorada, o “despejo” do pai e os constantes conflitos com “o rapa”, o protagonista meio perdido se deixa levar por sua paixão e decide investir nela. Tudo, é claro, mais do que incentivado por Luis, vulgo Skunk.

Da casualidade, da paixão inerte e adormecida que se esconde da superfície, das diferenças construídas na forma de barreira, apesar de serem dois lados da mesma moeda, nasce a sociedade entre Marcelo e Skunk. Os primeiros passos – os mais difíceis – são dados rumo ao estrelato. Renato Góes vive o protagonista Marcelo, num retrato associativo impressionante. O jovem ator constrói trejeitos, padrões de fala e a voz de seu espelho. Ícaro Silva não fica atrás e nem seu personagem. Talvez, chamar Marcelo de protagonista (como eu tenho feito ao longo do texto) seja um equívoco. Skunk é parte essencial e tão importante para a construção narrativa quanto a figura mais conhecida. Na verdade, podemos até dizer mais importante. Ícaro sobressai ficando com um personagem mais difícil e sofrido, porém, mais positivo e esperançoso.

O equilíbrio das personas daria uma análise por si só, mas Legalize Já conta com muito mais em sua composição. Como dito, as performances são fortes e nos carregam ao longo pela jornada. Somadas às principais ainda temos Marina Provenzzano como Sônia, a namorada de Marcelo; Stepan Nercessian como o pai do rapaz; e o argentino Ernesto Alterio, que vive Brennand, dono de bar e figura paterna para Skunk.

A fotografia monocromática, ao longo recaindo cada vez mais no preto e branco, surge como referencial à realidade nua e crua das ruas. O granulado da imagem torna nosso contato com a história mais áspero. Esta não é uma trama de decadência, no entanto, e fala justamente o oposto, sobre a ascensão de jovens discriminados e tidos como delinquentes sociais. Que através de sua arte e sua música chegaram ao topo da cadeia alimentar, onde muitos almejam conseguir. Um dos trechos mais legais é quando Marcelo compra de volta a mercadoria que havia sido levada pela polícia dos mesmos, e gasta todo seu dinheiro comprando de volta a de uma senhora que trabalhava ao seu lado – momento que reluz a índole do sujeito, longe de pensar apenas no seu.

Conciso, indo direto ao ponto sem floreios, Legalize Já dá seu recado de forma objetiva, criando no caminho uma boa história de amizade nascida unicamente pela paixão que move seus integrantes. Algo com o que todo amante de cinema pode facilmente se relacionar. Assim, não vá imaginando que esta é a típica biografia desde a infância até os percalços da fama – pois Legalize Já é diferente o bastante e traz novos ares a fim de remodelar, mesmo que levemente, a fórmula. Esta quebra do esperado satisfaz os que estão buscando sempre coisas novas, mas igualmente pode desapontar quem almeja descobrir mais aprofundadamente detalhes sobre a banda Planet Hemp, devido a seu desfecho anticlimático.





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