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Crítica | Lispectorante – Marcélia Cartaxo Retorna ao Universo de Clarice Lispector em Drama Existencial


Clarice Lispector foi e continua sendo uma das autoras brasileiras mais conhecidas e mais lidas no mundo inteiro. Nascida na Ucrânia, veio para o Brasil ainda pequena, onde morou no Recife e no Rio de Janeiro e começou a escrever, em língua portuguesa. De lá para cá quase cinquenta anos já se passaram do falecimento dessa grande escritora, e, nos últimos anos o cinema brasileiro tem se debruçado com mais carinho na obra e vida de Clarice Lispector. Seguindo por este caminho de revisitas e descobertas, chega aos cinemas brasileiros esta semana o longa ‘Lispectorante’, após exibições prévias no Festival do Rio 2024 e na Mostra de Cinema de São Paulo em 2024.

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Glória Hartman (Marcélia Cartaxo, cuja carreira deslanchou a partir de sua participação como a protagonista Macabeia no longa ‘A Hora da Estrela’, também inspirado na obra de Clarice Lispector) é uma mulher que está passando por uma grave crise financeira, ao mesmo tempo em que atravessa uma profunda crise existencial. No que volta à sua cidade natal, um tanto quanto abandonada, Glória descobre dívidas das quais não tinha ciência e perambula pelas ruas em busca de respostas. Dessas caminhadas, conhece um vendedor autônomo de artesanato (Pedro Wagner), com quem acaba se envolvendo amorosamente enquanto se reconecta com uma Recife em ruínas.



Com o coração na obra e vida de Clarice Lispector, ‘Lispectorante’ traz uma proposta de ficção dentro da ficção; ao fazer sua protagonista flanar pelas ruas observando os movimentos mais cotidianos dos transeuntes, o longa absorve a essência clariciana de viver o dia a dia à beira do espanto, e, quando do espanto, a revelação. Desse movimento, tão presente na obra da artista, a protagonista Glória vai se reencontrando com sua cidade, com seu corpo, com aquele it perdido que todos nós buscamos sem saber onde.

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Para empreender tamanha jornada investigativa, Marcélia Cartaxo é, provavelmente, uma das poucas atrizes capaz de mergulhar em Clarice Lispector e conseguir sair do outro lado da lagoa mantendo sua essência paraibana. Tendo protagonizado, ainda na juventude, um personagem tão complexo e icônico da literatura brasileira (Macabeia), Marcélia, hoje mais madura que então, absorve as confusões de Glória e as exprime com a leveza dos deslumbres que as protagonistas das histórias de Clarice têm: ela vê, brilha, sorri, encontra beleza onde ninguém mais vê, é simples, se veste simples, mas encontra uma brecha na parede através da qual descobre um mundo fantástico que se desdobra apenas aos seus olhos.

Uma vez mais a diretora Renata Pinheiro (de ‘Carro Rei’) absorve elementos do realismo fantástico e do surrealismo para contar seu filme – dessa vez com roteiro co-escrito por ela e por Sergio Oliveira. Do fantástico que se funde à ficção científica, temos a participação especial de Grace Passô (Praça Paris), como uma vendedora de banca de revista em uma cidade que já não lê nem consome revistas.

Altamente metafórico e embebido de nuances claricianas, ‘Lispectorante’ é um filme que faz muito mais sentido se o espectador tiver conhecimento dos escritos de Clarice Lispector – do contrário, a história pode se tornar de difícil compreensão uma vez que muitos elementos mágicos conduzem o desenrolar dos eventos. Mas, para ver Marcélia Cartaxo brilhando, ‘Lispectorante’ é um filme que conecta atuação, obra e homenageada em noventa e três minutos de suco existencial.

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Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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