Crítica | ‘Love, Victor’ se despede com uma 3ª temporada recheada de reviravoltas e emoções

Em 2018, a comédia romântica ‘Com Amor, Simon’ foi lançada nos cinemas e se consagrou como um dos melhores filmes do ano ao usar as fórmulas do gênero para construir uma narrativa bastante divertida e destinada a um público específico que, até então, não tinha muita representatividade considerável nas telonas. O sucesso gigantesco do longa-metragem levou Isaac Aptaker e Elizabeth Berger a expandir esse universo com uma série despretensiosa intitulada ‘Love, Victor’. É claro que, apesar de nutrir de similaridades com o filme original, a produção conseguiu encontrar uma clara linha narrativa que não servisse como uma cópia barata, mas lidasse com outros problemas além da identidade de gênero e a orientação sexual de seu protagonista.

Dois anos depois da estreia oficial da série, o público retorna uma última vez para Creekwood e dá adeus a personagens que aprenderam a amar, despedindo-se com um instigante, ainda que um pouco desequilibrado finale que, de fato, irá deixar saudades. Nos oito episódios finais, acompanhamos Victor (Michael Cimino) completando sua jornada de autodescoberta e percebendo que deve tomar decisões complexas sobre como seguir com a vida em meio a turbulências amorosas, realizações impactantes e uma constante evolução que não diz respeito apenas a ele, mas também a sua família e a seus amigos.

O aspecto mais emblemático da série talvez seja a multiplicidade de importantes temas trazidos às telinhas: obviamente, temos a força-motriz de Victor se descobrindo como um garoto gay e tendo a oportunidade única de encontrar um amor verdadeiro no colégio, porém, lidamos com um enfrentamento cultural e tradicionalista das origens da família do protagonista. Diferente de Simon, que cresceu em um ambiente de mentalidade aberta, Victor provém de um núcleo latino e conservador que vê as estruturas seculares de sua criação se desmantelarem quando o personagem revela quem realmente é e propulsiona seus entes queridos a se desvencilhar de crenças que podem ameaçar um sólido relacionamento. Na terceira temporada, Armando (James Martinez) e Isabel (Ana Ortiz) entram em paz consigo mesmos e com Victor, e procuram reestabelecer as conexões que perderam brevemente – com destaque a Ortiz fazendo um trabalho magnânimo e complexo de redenção.

Mais do que isso, mergulhamos em outros assuntos que auxiliam a manter o dinâmico ritmo dos episódios: Pilar (Isabella Ferreira) e Felix (Anthony Turpel) começam a se relacionar a enfrentar problemas que, a princípio, parecem superficiais, mas denotam uma necessária discussão sobre o conceito de família e a responsabilidade afetiva; Lake (Bebe Wood), depois de terminar com Felix, passa por um processo difícil de transição em que encontra conforto com a adorável e despreocupada Lucy (Ava Capri), além de enfrentar a personalidade tóxica e passiva-agressiva da mãe (Leslie Grossman); Rahim (Anthony Keyvan) passa por uma decepção amorosa e demonstra um outro lado do preconceito sofrido pela comunidade LGBTQIA+, considerando que é muçulmano, iraniano e afeminado dentro de uma sociedade que o pinta como pária; e Benji (George Sear) se vê numa espiral de emoções que o arrasta de volta para o alcoolismo que quase tirou sua vida no passado.

É notável como a série permite se afastar do teor bonançoso da temporada inicial, em que a ingenuidade de começar uma vida nova e se aventurar pelo medo de encarar a verdade era o principal mote; aqui, até mesmo os escapes cômicos insurgem através de uma dura compreensão do mundo, como se as quebras de expectativas estivessem atreladas intrinsecamente a um melodrama coming-of-age, prenunciando as várias resoluções do último episódio. Essa mesma ousadia construtiva é o que, de modo inadvertido, se acumula em uma profusão desregulada de subtramas que devem correr para se concretizar antes dos minutos finais: como revelado nos parágrafos anteriores, os diversos eventos nos mantém presos às telinhas para saber o que vai acontecer, mas são infundidos em um frenesi de causas e consequências que apostam numa simbiose à la deus ex machina para solucionar os problemas apresentados.

Enquanto o desbalanceamento rítmico posa como o principal obstáculo enfrentado pela temporada final, as boas intenções e a performance do elenco são elementos fortes o suficiente para nos esquecermos dos deslizes: Cimino rouba os holofotes, como vinha fazendo nos episódios anteriores, mas permite que seus companheiros de tela tenham seus respectivos momentos de glória. Ademais, é sempre reconfortante assistir a uma produção que promova uma fuga da realidade e nos convide a uma simples e funcional caminhada pelo explosivo universo adolescente e por um cosmos marcado pelo conflito intergeracional e ideológico.

‘Love, Victor’ termina de forma consideravelmente aprazível, fazendo o possível para se esquivar das limitações criativas e técnicas a fim de se manter fiel à premissa apresentada lá na primeira temporada. Mesmo com os tropeços, os episódios finais se consagram como uma sólida conclusão que amarra as pontas soltas e nos deixa com o conhecido gostinho agridoce de despedida e saudade.  

Notícias

23ª temporada de ‘Grey’s Anatomy’ ganha data de estreia

A ABC finalmente anunciou quando a 23ª temporada de...

‘A Terra do Meu Pai’: Premiado drama em preto e branco ganha data de estreia

Após estrear mundialmente no prestigiado Festival de Cannes 2026,...

Camila Pitanga vai estrelar cinebiografia da icônica sambista Clara Nunes

Camila Pitanga, conhecida por atuar em produções como 'Beleza...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.