Em meio a um conturbado cenário político que se iniciara em 2001 com a ascensão de George W. Bush à presidência dos Estados Unidos, Madonna adentrava a fase mais política de sua carreira. É claro que a rainha do pop já havia se posicionado diversas vezes desde sua estreia na indústria do entretenimento, deixando claro que não ficaria em cima de muro em qualquer assunto da sociedade. Entretanto, com o estopim da Guerra do Iraque, a artista resolveu que estava na hora de tomar alguma atitude que, por mais que colocasse sua carreira em risco (do mesmo modo que fizera no início dos anos 1990 com “Vogue” e seu apoio explícito à comunidade LGBTQ+), serviria como libertação filosófica. Logo, não demorou muito para que ela se jogasse de cabeça em seu nono álbum de estúdio, American Life.

À época de seu lançamento, em abril de 2003, a obra foi duramente criticada e, até hoje, é considerada como uma das grandes manchas da discografia de Madonna. Diferente de Erotica, que promoveu uma revolução estética na arte fonográfica, American Life insere-se em uma complicada constatação política que tenta ser mais do que consegue e, eventualmente, dá uma sensação de reciclagem absurda que estende-se ao longo de onze faixas, grande parte delas esquecíveis e algumas que cumprem aquilo o que prometem. Não demorou muito para que os fãs revisitassem o álbum, clamando por seu poder e por sua ousadia de enfrentar o status quo e criticar o intocável “sonho americano” promulgado desde sempre pelo imperialismo estadunidense.

De fato, essa ousadia existe: a performer retoma sua parceria com o produtor francês Mirwais Ahmadzaï, que colaborou com ela em Music e introduziu elementos bastante diferentes dos quais estávamos acostumados; dessa forma, era mais que óbvio esperarmos construções fora do comum, alinhadas a uma colcha de retalhos vibrante e que, no final das contas, seriam aprazíveis dentro de seus limites ao público do novo milênio. Mas o resultado final é aquém do esperado, não apenas pela repetição de progressões e delineações instrumentais, mas também pelo egocentrismo exagerado do qual a lead singer se vale. Em qualquer outro contexto, Madonna falar de si mesmo de forma indesculpavelmente inspiradora funcionaria – e ela já fez isso diversas vezes, fosse em investidas de Like a Virgin ou de Like a Prayer; aqui, as tentativas de arquitetar um panteão crítico caem por terra ao saírem de lugar nenhum e chegarem a nenhum lugar.



Não devo, porém, tirar mérito das reinvenções das quais a artista se vale. Enquanto realiza um movimento de convecção que se afasta e se aproxima de inflexões artísticas prévias, ela abre espaço para a insurgência do electroclash, gênero que mistura o new wave oitentista e o techno do fim do século. Ahmadzaï o abraça com vontade e explora cada minúcia estampada no início dos anos 2000, aproveitando também para misturar, com praticidade pontual, inclinações do folk e da eletrônica. Os deslizes, dessa forma, restringe-se mais ao liricismo e à organicidade da produção, que entram em conflito quase bélico em uma explosão repetitivamente sem sentido e que nos leva a pensar que um dos grandes titãs da música perdeu a mão.

Madonna tem o direito de errar, é claro – ainda mais quando já presenteou o mundo com álbuns que tangenciam a perfeição sonora. Todavia, quando vários equívocos se conglomeram em um único panorama, são transformados em uma bola de neve. A obra tem início com a canção epônima, uma promissora e frustrante peça que é adornada com incursões incompreensíveis: mesmo com as envolventes digressões que precedem o refrão, a cantora resolve brincar com palavras cantadas e um rap extraviado que transforma um solilóquio irônico em uma narrativa pueril. O mesmo acontece na conturbada “I’m so Stupid”, que move-se através de fragmentados sintetizadores e uma guitarra reincidente de tantas outras canções.

No geral, a performer parece estar em negação com a cultura que faz parte de sua vida, desencantada com o que vinha acontecendo; não é surpresa que grande parte dos versos sejam acompanhados de advérbios pessimistas e anulativos, e de uma ácida ironia que poderia, apesar de não alcançar todo o potencial prometido, cria certos ápices sólidos, como é o caso de “Love Profusion”, do evocativo country de “X-Static Process” e do épico orquestral “Easy Ride” (ainda que tenha uma progressão extremamente familiar com a faixa de abertura). “Hollywood”, uma das músicas mais conhecidas, também ganha aclame por seu teor sarcástico e reflexivo e, apesar de ter tido uma recepção mista quando lançada, é uma das implosões mais orgânicas do álbum.



Momentâneas meditações não são o suficiente para ofuscar imprecisões amadoras refletidas profusamente em uma organização defeituosa. Enquanto as bruscas transições do álbum anterior funcionavam, aqui elas não são tratadas com a mesma cautela: “Nobody Knows Me” e “Mother and Father” são praticamente iguais, inclusive pelo uso desmedido do autotune. A temática blasfema também aparece, mas não se equipara às dêiticas rendições outrora engendradas. E, no topo desses deslizes, está “Die Another Day”, canção composta para ‘007 – Um Novo Dia para Morrer’, cuja rechaçável provocação dance-pop só é melhorada pelo icônico videoclipe dirigido por Traktor.

American Life não é ruim, mas passa longe de ser bom. Com poucas tracks que realmente se salvam, o principal problema enfrentado é a presunçosa e, de certa forma, egoísta produção que nunca consegue encontrar um fio que una todas as iterações em um universo competente e satisfatório.

Aproveite para assistir:



Nota por faixa:

  • American Life – 2,5/5
  • Hollywood – 4/5
  • I’m So Stupid – 1/5
  • Love Profusion – 3,5/5
  • Nobody Knows Me – 2,5/5
  • Nothing Fails – 2,5/5
  • Intervention – 4/5
  • X-Static Process – 4,5/5
  • Mother and Father – 2/5
  • Die Another Day – 1/5
  • Easy Rise – 4,5/5
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