quinta-feira, janeiro 8, 2026

Crítica | Mãe Fora da Caixa – Adaptação de Peça com Miá Mello Faz Retrato Real da Gestação e Maternidade

CríticasCrítica | Mãe Fora da Caixa – Adaptação de Peça com Miá Mello Faz Retrato Real da Gestação e Maternidade

Não é exagero dizer que a maioria das meninas cresce ouvindo histórias romantizadas sobre o período da gestação e da maternidade, condicionando a percepção da jovem criança de que não só a gravidez, mas todo o tornar-se mãe seria como um conto de fadas, em que tudo só dá certo e não há dores nem dúvidas. Quem já gestou ou já se tornou mãe sabe que, na prática, não é bem assim. Há inúmeras camadas não ditas sobre esse período, tidas como tabu, como segredo, como assuntos que não devem ser revelados em sua totalidade. Felizmente, entretanto, os tempos atuais buscam trazer olhares mais realistas e sinceros sobre a experiência feminina, e uma importante ferramenta nesse sentido é o filme ‘Mãe Fora da Caixa’, longa brasileiro em cartaz no circuito nacional.



Manu (Miá Mello, de ‘Meu Passado me Condena’) é uma mulher batalhadora que lutou muito para chegar aonde está, e hoje é gerente de um renomado hotel de luxo. Até por isso, Manu tem tudo sob controle, com absolutamente tudo planejado em planilhas, listas e cronogramas. Porém, ela está prestes a dar à luz à sua primeira filha com seu marido, André (Danton Mello, de ‘Ninguém é de Ninguém’), que, por uma enorme coincidência, acaba de ser promovido no trabalho e a partir de agora terá que ficar metade da semana fora, em viagem, e metade em casa. Certa de que consegue dar conta de tudo sozinha e que sua bebê não irá forçá-la a mudar seu planejamento, Malu se torna mãe e descobre, aos poucos, que nem tudo dá para ficar sob seu controle.

Baseado na obra homônima de Thaís Vilarino – que também foi adaptada para o teatro com a própria Miá como protagonista –, o grande trunfo de ‘Mãe Fora da Caixa’ é conseguir falar de gestação, maternidade e puerpério de uma maneira mais direta, não romantizada e completamente natural. Para tal, a história não se furta de mostrar uma protagonista que vai se tornando mãe à medida em que entende e descobre como as coisas vão funcionando para si e para sua filha, para o bem e para o mal, enquanto o tempo vai passando para ambas – tal como é a vida – e a importância de a mãe ter uma rede de apoio ao seu redor.

Totalmente à vontade com o tema e com este universo, Miá Mello é o grande brilho de ‘Mãe Fora da Caixa’, seja com seu carisma natural, seja por aproximar sem esforço o espectador das inquietações de Manu. Bem como Malu Valle, que interpreta a mãe da protagonista e imprime um tom leve e divertido que só quem já passou pela experiência e sabe que eventualmente a “ficha vai cair” consegue empregar.

Com roteiro de Patricia Corso, Patricia Leme e Clara Peltier, além de adaptar um livro que virou peça era necessário, acima de tudo, dialogar com a mulher e o pensamento modernos. A maternidade não exclui nem o trabalho nem o casamento, e vice-versa. Assim, Manu passa o filme inteiro tentando equilibrar todos os elementos da sua vida, mas, por ser uma mulher que teve que lutar muito para chegar ao cargo que possui, tem dificuldades de pedir ajuda, seja à sua mãe, ao marido, à melhor amiga. Esse também é um dos grandes dilemas da maternidade – em quem confiar quando se precisa voltar à rotina? – e que se torna o ponto central do filme de Manuh Fontes, mas cuja resolução, ao final, deixa os argumentos em cima da mesa, sem amarrá-los bem.

Mais que um filme, ‘Mãe Fora da Caixa’ é um valoroso retrato da experiência maternal falada de maneira direta e sem tabus.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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