Um dos prováveis destaques do cinema português neste ano, o longa-metragem Maria Vitória, que teve sessão bastante concorrida na noite do último sábado (03), em sua primeira exibição no Festival do Rio 2026, pode ser rapidamente definido como um jogo sugestivo e bem trabalhado sobre como algumas engrenagens despertadas mudam dinâmicas familiares.
Partindo de um contexto que, não se mostra amplo – o futebol pelos olhos de uma jovem protagonista, algo que se estrutura como apenas um detalhe -, na verdade, mergulhamos em um triângulo de conflitos entre membros de uma família marcada por uma tragédia insuperável e por laços quebrados, chegando, aos poucos, na construção de um amadurecimento.
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Maria Vitória (Mariana Cardoso) é uma jovem que vive pelos sonhos de seu frustrado pai (Miguel Borges). Dedicada a ser a melhor goleira da região onde vive, treina exaustivamente para ter uma chance em um grande clube. A grande questão é que esse não é necessariamente seu desejo. Quando seu irmão mais velho (Miguel Nunes) retorna, depois de um longo tempo longe de casa, Maria começa uma jornada de novas descobertas que vão influenciar suas próximas decisões.

A narrativa potencializa as turbulências emocionais entre pai e filhos, compondo cenas guiadas pela potência de fortes discursos, com atmosfera intimista e câmera próxima dos personagens. Esses movimentos se somam a uma série de bifurcações que o roteiro sugere, intensificando as relações de forma imprevisível, onde as escolhas não necessariamente se tornam algo de simples resoluções. Uma ótima direção de Mário Patrocínio conduz com total controle ao longo dos quase 110 minutos de projeção.

Com um bom desenvolvimento dos personagens, o roteiro abre camadas conforme novas variáveis vão entrando na trama, nos levando para um despertar com impacto através de cenas bem construídas. Sempre pelo olhar de uma ótima protagonista, mas não deixando de mostrar o brilho de coadjuvantes que ajudam a contar essa história. Mesmo que, em alguns momentos, a trama pareça um pouco perdida, alguma ação de impacto sempre surge e recalcula a rota.

Rompendo a superfície dos dilemas, do luto, e das dores não resolvidas, seguimos por uma estrada com possibilidades e que se mostra imprevisível. Um fato curioso é que, ao ler a sinopse, parece que teremos uma incursão pelo futebol feminino de forma mais contundente, mas essa questão se reduz a um preâmbulo para um um renascer.
Maria Vitória, representante de Portugal na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano no Goya 2027, é um filme que, peça por peça, vai encontrando suas metáforas na história de uma goleira que descobre o amadurecimento, rompendo a bolha de incertezas nas novas leituras familiares que se mostram necessárias.


