Modernizar o passado é uma evolução musical. O medo dá origem ao mal. O homem coletivo sente a necessidade de lutar. São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade.

Obviamente, não é por acaso que ‘Monólogo ao Pé do Ouvido’, da banda pernambucana Nação Zumbi, faça parte da abertura de Marighella. O segmento aí citado reúne apenas alguns trechos do poderoso manifesto escrito pelo lendário músico Chico Science, que, na metade da década de 1990, tocou em muitas feridas abertas e discutiu, de forma clara e intensa, a situação sociopolítica da sua cidade, Recife (na época, a quarta pior do mundo), e, consequentemente, da nação brasileira como um todo. Sobretudo quando, brilhantemente, cravou que o banditismo iria além da maldade e se encaixava bem na luta das classes e por assim seus efeitos colaterais, sintetizando o extremo disso tudo na chocante declaração: “quem era inocente, hoje, virou bandido para comer um pedaço de pão”. Em suma, fica claro que a narrativa que veremos a seguir está inserida na velha máxima de que situações extremas exigem medidas extremas.

Assumidamente político e construído sob a perspectiva lúcida de quem viveu os momentos mais obscuros e cruéis da Ditadura Militar no Brasil, Marighella, dirigido e roteirizado por Wagner Moura (Tropa de Elite e Narcos), também faz questão de expor a personalidade sem filtro das principais figuras abordadas, que protagonizam essa história de luta e resistência. O filme, que adapta a biografia literária Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães, finalmente chega aos cinemas após ter sua estreia adiada várias vezes. Com algumas destas situações sendo correlacionadas a quem está por trás do meio burocrático da nossa cultura, segundo o próprio Wagner Moura, que, sem nenhum receio, se diz orgulhoso em fazer parte de um enfrentamento natural que vem sendo travado pela classe artística, em sua maioria contra o atual governo.



À primeira vista, Marighella pode parecer um filme demasiadamente extenso pelas suas quase três horas de duração, mas, por tratar-se de uma história que precisa, necessariamente, ser mais detalhada, é compreensível que Moura tenha optado por explorar, de maneira odisseica, os principais eventos daquele recorte brutal. São lembranças tristes e igualmente heroicas, que precisam ser revisitadas, especialmente quando sabemos que, ainda hoje, existem alguns desavisados que lembram com saudades daquelas torturas e dos incontáveis sumiços de pessoas que apenas discordavam das ideias ditatoriais de quem comandava o país – torçamos pra que isso não seja uma previsão.

De modo que não é gratuita, muito menos histriônica, a performance de Bruno Gagliasso como o algoz Lúcio, que faz aqui às vezes de Sérgio Fleury, a figura mais sádica e terrível da Ditadura Militar. Fleury comandou horríveis sessões de torturas, comparadas aos experimentos nazistas da Segunda Guerra, já que, geralmente, os seus interrogados não suportavam tais práticas e iam a óbito – isso quando ele mesmo não dava cabo do prisioneiro e, gargalhando, logo após a execução, soltava barbaridades como: “lá se vai mais um patriota”. O que é cíclico e curioso, já que grande parte desses ditadores, que usam para si o patriotismo de maneira latente, não passam de lobos em pele de cordeiro. E o Lúcio de Gagliasso é basicamente assim, está sempre à procura da sua próxima presa, e, mesmo trabalhando para os americanos como um cão de guarda adestrado, acha que é lobo.

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Ainda mais acertada é a linha de atuação adotada por Seu Jorge, que vai a emoções extremas no papel do próprio Marighella, conseguindo convencer e manter o personagem crível até nos andamentos que poderia se entregar ao overacting. Wagner Moura se arrisca, diversas vezes, ao quebrar a quarta parede, sobretudo numa cena em que Marighella olha para a câmera e dispara: “A gente não vai parar. É terror, sim. É terrorismo, mesmo”. O momento, que, provavelmente, será recortado e compartilhado nas redes, acontece na verdade após a cena em que vários dos seus companheiros são sumariamente executados dentro da própria sede, de maneira covarde, por um grupo miliciano que agia à margem da lei e a mando de Lúcio. Assim, com momentos que beiram a catarse, Seu Jorge constrói, primeiramente, uma postura equilibrada que, como qualquer outro, se transforma com o medo e assume a responsabilidade diante de uma situação extrema.



Mas o filme não se beneficia apenas da figura de seu personagem-título, já que, além dos principais antagonistas, a obra também explora diversas outras personalidades importantes, que participaram daquilo tão intensamente quanto o próprio Carlos Marighella. Pessoas que literalmente deram a sua vida pela causa. De maneira que o longa é confesso ao discutir, em várias ocasiões, os valores ideológicos em detrimento a família. Vemos ali muito mais sacrifícios feitos por companheiros do que, propriamente, suas ideias políticas. Afinal de contas, todos no grupo lutavam por um bem em comum: a real liberdade. Com destaque para Humberto Carrão, que vive o personagem Humberto, o exemplo perfeito de um ator que se doa por completo. Absolutamente despido de qualquer vaidade, Carrão apresenta um alguém que reúne sentimentos extremos. Do mesmo modo que é fiel e acolhedor para com os seus, é implacável e brutal diante do inimigo.

Tomando para si qualquer responsabilidade e compartilhando com os parceiros de equipe todos os louros, Wagner Moura, que debuta como cineasta, realiza o tipo de produção que é impossível ficar indiferente. Podendo transcender o cinema e alcançar o status de símbolo político para ambos os lados. Ao ponto que Marighella é capaz de trazer esperança em meio ao caos, provando que, no fim de tudo, a razão prevalece; contudo deve também provocar crises homéricas por parte daqueles que ainda acham válido o debate que a Ditadura Militar trouxe benefícios para a nação. Ou por simplesmente julgarem Carlos Marighella como um terrorista qualquer – ainda que intelectuais, de variadas nações, considerem o político e escritor uma espécie de alegoria da luta de um povo oprimido, do que simplesmente uma arma usada pelo comunismo.

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