Nos últimos anos, o anseio do público em declarar o Universo Cinematográfico Marvel morto só não é maior do que aquele por declarar seu renascimento. A cada novo lançamento, os comentários são extremos, para o bem ou para o mal, sempre afirmando que “a Marvel morreu!” ou que “a Marvel voltou!”. Parece que não existe meio-termo após o lançamento de Vingadores: Ultimato (2019). Tudo precisa ser o “melhor do mundo”, senão é uma produção que não vale seu tempo.
Mas a verdade é que esses últimos seis anos permitiram que o estúdio testasse novos formatos e fugisse um pouco da tão criticada “Fórmula Marvel”. Então, era óbvio que, ao tentar uma nova empreitada, haveria altos e baixos. No entanto, é curioso reparar como as produções que seguiram à risca o passo a passo da tal “fórmula” foram justamente as que fizeram sucesso dentre público e crítica. Enfim, nesse mar de lançamentos dos últimos anos, houve uma porção de produções absolutamente medianas, que divertem, mas não ficam marcadas na memória, como no caso de What If…?, a primeira série animada do MCU.

Lançada em 2021, ela trouxe versões alternativas de heróis e vilões do MCU fazendo suas missões em diferentes realidades. Porém, em vez de focar em histórias ousadas e sem conexões entre si, a série trilhou caminho para a construção dos Vingadores Multiversais, o que não foi muito bem aceito por grande parte do público. Ainda assim houve bons momentos, como o episódio inspirado nos quadrinhos Zumbis Marvel, que mostram uma linha do tempo na qual um vírus zumbi infectou os principais nomes da Marvel, criando um verdadeiro pandemônio.
O sucesso desse episódio foi tão grande que confirmou uma série derivada focada exclusivamente nele, e agora Marvel Zumbis chegou ao Disney+ como uma gratíssima surpresa da Marvel Animation. A trama segue os eventos do episódio de What If…? e acompanha a vida de três sobreviventes da infestação: Kamala Khan, Kate Bishop e Riri Williams. Elas vivem sob a proteção da Mansão Bishop, onde há comida, energia e água, até o dia em que elas interceptam um Quinjet e descobrem que existe um dispositivo capaz de pedir ajuda de fora do planeta para curar a população infectada da Terra. Por isso, elas largam “a paz” daquela vida controlada, embarcando em uma viagem rumo a uma base de lançamento que permita que elas concluam a missão de outros Vingadores, que pereceram pelo caminho.

O grande mérito da série está justamente em seus personagens e em como eles são trabalhados neste contexto apocalíptico. Como a série é ambientada numa época próxima aos eventos de Ultimato, é possível ver que toda a estética é inspirada no filme, trazendo também eventos que foram importantes nas telonas, como a chegada de Thanos a Wakanda, trazendo novas óticas sob os dilemas pessoais do Thor e outros heróis. Só que o mais legal é realmente o aproveitamento dos personagens personagens que foram introduzidos no universo Marvel dos cinemas, após a conclusão da Saga do Infinito, como o trio principal, Shang-Chi, os Thunderbolts, o Cavaleiro da Lua e o Namor.
Fica aquela sensação de que a própria Marvel percebeu que o público perdeu a paciência para a nova formação esperada dos Vingadores, e decidiu dar um descanso a eles, focando um pouco mais naqueles heróis que vieram apenas para “compor elenco”, mas demonstraram um potencial maior de cativar a galera do que os verdadeiros protagonistas. E isso é muito interessante, porque permite interações até então inéditas no MCU, deixando aquele gostinho de “quero ver mais disso”. E como há filmes-eventos programados para os próximos anos, é bem possível que o público veja mais dessas interações em breve nas telonas.

Talvez a maior adição ao time de heróis seja justamente o Shang-Chi. Seu filme solo foi uma aventura divertidíssima, tendo até uma sequência planejada para sair nos últimos anos, mas que foi engavetada devido à estafa de produções e ao baixo desempenho nas bilheterias mundiais numa época de pandemia. Então, quem gostou -ou ao menos assistiu – do longa ficou meio órfão do personagem, que aparece na trama desta animação momentos antes dos eventos de seu filme acontecerem. E por serem tramas ambientadas na mesma cidade, existe uma conexão muito legal desse personagem com a franquia do Homem-Formiga, rendendo momentos de criatividade pura para retratar o início de um apocalipse zumbi.
Há também uma forte presença do núcleo do Kamar-Taj, que foi brevemente apresentado em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), mas acabou sendo deixado de lado diante das controvérsias do filme, assim como aparecem personagens de Eternos (2021), que sofreu com críticas parecidas. É como se esses quatro episódios servissem brevemente como um lembrete de que essas produções da Fase Cinco são canônicas, apesar de grande parte do público simplesmente ignorá-las. Mas também parece que a Marvel usa essa animação para fazer um mea culpa, porque todos esses personagens estão muito mais legais na série do que em suas produções solo. Fica a sensação de eles entenderam onde ‘erraram’.

Entretanto, quem rouba a cena mesmo é um personagem introduzido justamente na série: o Blade. Num mundo ideal, o público já teria visto Mahershala Ali encarnando o caçador de vampiros há muito tempo, mas os atrasos e divergências criativas já atrasaram tanto esse filme que muita gente sequer tem fé de que esse projeto sairá um dia. O que é uma pena, porque a série dá um vislumbre do que os fãs podem esperar dele. Na trama, ele foi escolhido por Konshu para ser seu avatar na Terra. Sendo o novo Cavaleiro da Lua, Blade herda os poderes da divindade egípcia, enquanto mantém sua personalidade e habilidades próprias.
Não tem como. O personagem ostenta uma presença absurda, tendo um porte de protagonista interessantíssimo, mesmo sendo um coadjuvante de luxo na produção. Cada momento seu em cena faz o público se lamentar por esse filme não ter saído até hoje, porque ele é a definição perfeita de “aura”. Mais do que isso, sua presença e sucesso fazem você se questionar por que diabos a Marvel ainda não apostou com tudo nesse núcleo sobrenatural. É tão interessante… Não é possível que vão deixar passar, principalmente num momento em que Hollywood tem apostado novamente em filmes sobre vampiros e lobisomens.

Por outro lado, a série segue com alguns velhos problemas da Marvel Animation, a começar pelo estilo de animação. Tudo bem que esse 3D esquisito já é marca registrada da franquia What If…?, mas está longe de ser algo instigante ou criativo. Mesmo com personagens nesse estilo de 3D, é possível brincar com outros estilos e ousar um pouco mais, nem que seja na composição de cenários, sabe? É muito pouco para um estúdio multibilionário.
Outro ponto é a necessidade narrativa de querer formar Novos Vingadores a todo momento, enquanto não se desapegam do time anterior. Nessa série, eles fazem questão de mostrar todos os heróis antigos sendo “superados” pelos seus substitutos, sendo que fica forçado em certos momentos. Um caso legal é mostrar que o corpo do Stark foi transformado numa máquina de proteção, é diferente e faz sentido. Outro caso completamente diferente é mostrar – de novo – o vício do Guardião Vermelho em querer ser melhor do que o Capitão América. Já fizeram essa piada 15 vezes no MCU. É repetitivo. Dá para fazer mais do que isso. Tanto que os melhores momentos da série são justamente quando eles desapegam desse núcleo dos Vingadores originais e deixam a galera nova brilhar.

Dentre alto e baixos, Marvel Zumbis é uma produção que não se propõe a ser a melhor do mundo, mas que também não chega a ser medíocre. É uma grata surpresa por trabalhar bem seus novos personagens e criar um mundo que te prende, mesmo com os vícios da casa de querer emplacar novos Vingadores a todo momento. Não é a morte e nem o renascimento da Marvel, é apenas uma série muito boa que termina com um gancho sensacional para uma segunda temporada.
