O ator, roteirista e diretor Kenneth Branagh é conhecido no meio artístico por adaptar obras clássicas da literatura inglesa, isso tanto no teatro quanto no cinema. É provavelmente o cineasta que mais adaptou as peças de William Shakespeare, como o jovem clássico ‘Hamlet’ (1996), do qual entregou a versão definitiva dessa então obra-prima shakespeariana. Além disso, Branagh também se atreveu transpor para às telonas outros autores renomados, como na ótima adaptação de ‘Frankenstein de Mary Shelley’ (1994) e, finalmente, em seu debute no universo de Agatha Christie, ‘Assassinato no Expresso do Oriente’ (2017).

Filmado pouco tempo depois, por volta de 2019, ‘Morte no Nilo’ demorou a estrear, essencialmente, devido ao período de pandemia causado pela Covid; do qual também o longa passou por revisões nos seus incômodos efeitos visuais. Os dois filmes, aliás, podem ser comparados de diversas formas, e não apenas pelo diretor e protagonista ser o próprio Branagh, ou mesmo Michael Green (‘Logan’) assinar os roteiros de ambos os filmes, mas principalmente pela forma que as produções foram realizadas.

Sempre respeitando ao máximo a literatura de Agatha Christie, os filmes excluem qualquer intenção de ousadia ou de seguir um viés estético particular. Menos ainda se arriscam por novas pretensões artísticas. A nível informativo, Branagh e companhia entraram nessas obras pela chancela de James Prichard, bisneto da autora, que é presidente da Agatha Christie Ltd, organização fundada nos anos de 1950, dedicada a administrar os títulos da genial escritora britanica. Ou seja, era mesmo pouco provável que saíssem da linha, já quase tudo teve que passar pelo aval de Prichard.



Ainda assim, é impressionante como, mesmo dentro de um formula artisticamente pré-moldada, tanto o filme de 2017 quanto este atual funcionam bem e fluem organicamente. Especialmente ‘Death on the Nile’ (no original), por dedicar mais da metade do seu tempo em apresentar os seus personagens, fazendo com que o espectador se afeiçoe e conheça bem cada um deles, como os seus vícios, modus operandi e a forma de enxergar situações. Enfim, aquilo que é considerado o caminho correto para criar todo processo de identificação.

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Curiosamente, o personagem mais humanizado aqui é Hercule Poirot (Branagh), que parece não participar de um caso para valer, daqueles que geralmente deixa o lendário investigador tenso – pelo menos até os momentos finais. Dessa vez, vemos Poirot sentado, à vontade, conversando, flertando e até bebendo – o detetive não é de beber em trabalho. Em suma, enxergamos o sujeito mais exposto, a ponto de ser afetado e fazer parte diretamente do crime como um todo. Isso faz com que a última cena do longa e, por assim, a revelação física por trás do seu bigode, torne Poirot, de certa forma, abatido emocionalmente, destacado numa situação de lamento.

Isso porque ‘Morte no Nilo’ é um dos contos mais fatalistas de Agatha Christie, que tem um desfecho dramático e shakespeariano, mas que também carrega o suspense característico e a angustia das obras de Christie. É como se no meio do filme não estivéssemos nem aí para a história e as exageradas previsões de assassinatos dos personagens destacados. Afinal de contas, até o momento em questão, a produção tem só uma cara de folhetim. O que faz todo sentido no segundo ato, quando a trama começa a pegar de verdade e o público é bombardeado por eventos consecutivos.


Como já conhecemos os personagens, tal como Poirot, passamos a desconfiar e ao mesmo isenta-los de culpa pelos seus contra-argumentos. Kenneth Branagh é habilidoso em conduzir e inviabilizar todas as pessoas a bordo da embarcação que não é lá tão grande assim, já que a viagem se passa nas águas turvas e calmas do rio Nilo. Ao mesmo tempo, o clima soturno é fundamental para deixar o espectador apreensivo com o que acontecerá em seguida; em querer saber qual será a próxima vítima.

Também é importante entender que nada disso iria funcionar sem que o elenco estivesse afiado e conectado, pois a produção se mostra paupérrima esteticamente falando. É chinfrim ao ponto de utilizar fundos verdes aberrantes e montagens digitais de mau gosto, no intuito de construir cenários grandiosos dos quais precisam destacar – vide o status financeiro de uma das personagens mais importantes, Linnet Ridgeway, interpretada pela sempre radiante Gal Gadot (‘Mulher-Maravilha’). Desde palácios monumentais e mansões luxuosas até as conhecidas pirâmides do Egito – que ganham aqui função na resolução do crime.

Além de Branagh, sempre eficiente e imponente como Poirot, o destaque vai para o trio de protagonistas formado pela já citada Gadot e o atual canibal cancelado Armie Hammer (‘Me Chame Pelo Seu Nome’), porém quem rouba a cena é a novata Emma Mackey – mais conhecida por seu papel como Maeve na série inglesa de sucesso da Netflix, ‘Sex Education’. Todos desempenham funções importantes dentro de várias esferas, sempre soando como figuras dúbias e ao mesmo tempo descontroladas. Um cast de respeito, que ainda trazem coadjuvantes como Annette Bening, Russell Brand, Tom Bateman, entre outros que, praticamente, carregam o filme nas costas.

De modo que ‘Morte no Nilo’ não vai fazer o público sair do cinema empolgado por ter visto algo inusitado, cheio de suspense ou detentor de uma trama complexa – vide o irretocável ‘Entre Facas e Segredos’ (2019), que é quase uma evolução textual e artística de Agatha Christie. Por outro lado, a produção comandada por Kenneth Branagh funciona bem do início ao fim, não inventa, mas também não coloca nada a perder do conto original. Devendo agradar principalmente os fãs da autora.


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