O improvável se torna indispensável quando Joanne e Noah se encontram pela primeira vez em um despretensioso jantar de uma amiga em comum, despertando uma história de amor em que fé, família e convicção se digladiam em meio à dilemas do tipo que qualquer um de nós facilmente se identificaria. Três temporadas depois e estamos todos presos nesse pequeno universo apaixonante, habilmente construído por Kristen Bell e Adam Brody e criado pela talentosa Erin Foster. ‘Ninguém Quer’ é a contemporaneidade dos relacionamentos adultos banhado por originalidade, que faz da tecnologia e do entretenimento digital um trampolim para um excelente conto romântico capaz de amolecer até os corações mais céticos.

E quando quase tudo já fora dito e apresentado em suas temporadas anteriores, resta a ‘Ninguém Quer’ ir ainda mais além na complexidade da amizade entre homens e mulheres. Enquanto somos preenchidos pela maturidade de um amor de entrega e sacrifício – vivido pelos protagonistas principais -, os arcos paralelos finalmente ascendem para o centro da narrativa. A dramédia quase sobrepõe o formato “romcom”, ao trazer as agruras de um desejo mútuo que talvez não devesse ser consumado. Em outras palavras, as linhas da friendzone ficam cada vez mais embaçadas.
Nos novos episódios, Justine Lupe e Timothy Simons saem das sombras do alívio cômico de seus personagens Morgan e Sasha para estampar as dores amorosas que ambos carregam na ficção. Frutos de relacionamentos fracassados, eles encontram em sua amizade o frescor do novo. Mas seria justo destruir um relacionamento platônico com a complexidade de um amor real? São dilemas como esse, entre ética e responsabilidade, e mais uma vez fé e família, que agregam um sabor diferente ao novo ciclo da amada e aclamada série da Netflix.

Explorando um gênero que atualmente é esquecido pelo cenário televisivo, ‘Ninguém Quer’ resgata a mesma preciosidade que ainda nos cativa em alguns dos clássicos do cinema que amamos reprisar. ‘Harry & Sally: Feitos um para o Outro’, ‘Mens@gem para Você’ e ‘Feitiço do Tempo’ ganham novas cores e aromas no arco de Morgan em Sasha, transformando a série em algo muito maior do que aquilo que já tanto amávamos. Se aprofundando ainda mais nos personagens que orbitam o casal principal, a série renova sua relevância como entretenimento, à medida em que nos petrifica diante de um romance que desejamos viver por pura associação. Não acontece nem comigo e nem com você, mas estamos todos juntos nessa. Ah, a saudade do que ainda não vivemos até aqui.
E enquanto encaramos o processo de conversão de Joanne ao judaísmo e o crescimento de seu relacionamento, somos forçados a também encarar os estágios de amadurecimento de dois coadjuvantes peculiares que transformam seu “pequeno” arco em uma delirante história de amor. E agora investidos, não conseguimos mais nos desapegar. Essa é a essência de ‘Ninguém Quer’. Ela nos atrai, nos faz suspirar a cada novo capítulo e gera assim uma codependência irremediável.

Ao nos convidar para um processo imersivo na vida de vários personagens distintos, testemunhamos esses romances millennials como uma experiência quase catártica. Emaranhados pelo humor autodepreciativo e pelos diálogos cheios de referências da cultura POP, eles são promessas cumpridas ainda tão sonhadas na vida real por homens e mulheres desesperançosos. São lembretes de que relacionamentos saudáveis podem florescer no diferente, no inesperado. São post-its inspiradores que renovam nossa fé no amor.


