Crítica | ‘Razão e Sensibilidade’ transforma o primeiro romance de Jane Austen em um espetáculo visual com sólidas atuações

Jane Austen é um dos nomes mais prestigiados de todos os tempos, sagrando-se uma das maiores romancistas de todos os tempos por uma série de pioneirismo que adotou ao longo de sua breve carreira. Tendo assinado seis romances completos, Austen é o nome por trás do icônico ‘Orgulho e Preconceito’, além de ser o nome responsável pela popularização do discurso indireto livre e por incursões estilísticas modernas que colocaram nos holofotes a importância do feminismo literário – através de explorações sobre hierarquia social, casamento e o papel da mulher na sociedade inglesa do século XIX. E, como é de conhecimento geral, várias de suas obras foram levadas para o cinema e para a televisão de incontáveis maneiras.

Este ano, somos convidados pela 20th Century Studios a navegar pelo apaixonante e instigante cosmos de ‘Razão e Sensibilidade’. A releitura fílmica do romance de estreia de Austen é comandada por Georgia Oakley, que ganhou destaque após comandar seu primeiro longa-metragem em 2022, o drama tour-de-force ‘Blue Jean’ – e, apesar de não chegar no mesmo nível das outras produções baseadas na história, consegue nos prender por pouco mais de duas horas em uma honesta, singela e contemplativa jornada de amadurecimento que se beneficia do talento do elenco e do espetáculo visual que se desenrola à frente dos olhos do público.

A trama é centrada na família Dashwood, que passa por uma grande tragédia quando o patriarca falece, deixando a esposa, a Sra. Dashwood (Catríona Balfe), e suas três filhas, Elinor (Daisy Edgar-Jones), Marianne (Esmé Creed-Miles) e Margaret (Bodhi Rae Breathnach) em um turbilhão de emoções quando o espólio do Sr. Dashwood, incluindo o belíssimo casarão em que passaram toda a vida, é testamentado ao filho de outro casamento John (Tom Brooke) e à sua odiosa e esnobe esposa, Fanny (Stacy Martin). A princípio, às Dashwood é prometida uma espécie de mesada para que elas não permaneçam numa pobreza extrema – mas as coisas desandam quando, para a infelicidade de Fanny, seu irmão mais velho, o charmoso Edward Ferrars (George MacKay), começa a nutrir de sentimentos por Elinor.

Eventualmente, as jovens e a família são forçadas a se mudar para o chalé pertencente ao cunhado de uma prima distante, a divertida e extrovertida Sra. Jennings (Fiona Shaw), para o desespero de Elinor – que esperava um pedido de casamento de Edward, mas mal recebeu uma promessa de visita, distanciando-se cada vez mais daquele com quem imaginou passar o resto da vida. Em contrapartida, a sonhadora Marianne começa a se envolver com John Willoughby (Frank Dillane), que a resgata depois de um acidente à beira-mar e que lhe promete o mundo – apenas para revelar que precisaria viajar à Londres pelos próximos doze meses a trabalho, em vez de firmar matrimônio com a garota.

A partir daí, a complexa trama começa a explorar as densas camadas da emoção e da razão humanas e de que maneira cada personagem lidar com as questões amorosas, tendo como centro, é claro, as forças incomparáveis de Elinor e Marianne como dois lados distintos de uma mesma moeda – e que, apesar de trilharem arcos diferentes, convergem para uma mesma mensagem celebratória sobre o poder dos laços fraternais perante uma realidade quase sem prospecto e recheada de reviravoltas que transformam esse drama de época em uma interessante e despretensiosa incursão cinematográfica.

É muito perceptível como Oakley traz inspirações de outros realizadores que já exploraram o panteão de Austen nas telonas, bebendo da mesma fonte de Joe Wright, que dirigiu ‘Orgulho e Preconceito’ em 2005; Autumn De Wilde, que encabeçou a divertida releitura de ‘EMMA.’, com Anya Taylor-Joy; e, é claro, a obra-prima de Ang Lee, ‘Razão e Sensibilidade’, que foi responsável por um ressurgimento das adaptações da romancista para os cinemas. Afastando-se das constrições e dos estudos de personagem que promoveu em seu longa de estreia, Oakley se apropria das venturosas e inspiradoras paisagens do interior britânico para arquitetar um encontro entre individualidade e universalidade ao passo que singra entre o palpável e o onírico.

Se a conquista imagética é um dos destaques do projeto, a diretora deve créditos ao incrível trabalho do diretor de fotografia Arnaud Potier, que brinca entre o aspecto idílico de Norland Park (antiga propriedade do Sr. Dashwood) e de Devonshire (local onde as irmãs e mãe passam a morar), e a efervescência claustrofóbica da capital inglesa, oferecendo um contraste significativo não apenas para o enredo, mas para as personagens. De certa maneira, podemos entender essa preocupação estética como uma forma de diluir os momentâneos convencionalismos de gênero que a roteirista Diana Reid imprime em sua releitura – mas o resultado é sólido o suficiente para que fiquemos investidos na trama e na forma como as protagonistas lidam com decepções amorosas e seus corolários.

Edgar-Jones, que ganhou reconhecimento com ‘Um Lugar Bem Longe Daqui’, nos presenteia com uma apaixonante atuação como Elinor, conseguindo condensar todos os trejeitos da complexa e contraditória protagonista em sua jornada pelo amor não como ideia inatingível, mas como uma comunhão inalienável entre duas pessoas; Creed-Miles, por sua vez, irrompe como um bem-vindo contraponto, mergulhando de cabeça nos percalços do coração e entregando-se por completo até mesmo àqueles que não merecem. E, compondo esse time estelar, temos a bem-vinda presença das já citadas Balfe e Shaw, a jovem Breathnach roubando os holofotes a todo momento, e o ator noruguês Herbert Nordrum como o tenaz e justo Coronel Brandon, que corteja Marianne à sua maneira.

A nova adaptação de ‘Razão e Sensibilidade’ pode não ter o mesmo brilho das outras incursões do universo de Jane Austen, mas certamente merece nossa atenção por apresentar uma identidade própria que se vale tanto de um esmero visual quanto do comprometimento do elenco – mostrando que a atemporalidade da romancista ainda influencia gerações e mais gerações de artistas ao redor do mundo.

Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 29 de outubro.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.