Lançada na última semana, a nova animação da Marvel, Olhos de Wakanda, chegou timidamente ao Disney+, que não parece ter feito muita questão de promover a minissérie antológica ambientada nos primórdios do Universo Cinematográfico Marvel, dando foco obviamente à nação africana extremamente tecnológica que foi introduzida em Capitão América: Guerra Civil (2016) e expandida na franquia Pantera Negra (2018 e 2022).
A proposta é bem interessante. Ao longo dos séculos, Wakanda foi construindo sua mitologia com o apoio da tecnologia avançadíssima oriunda do Vibranium. Essa temática já havia sido brevemente mencionada em Pantera Negra, mas aqui ganha um pouco mais de desenvolvimento com quatro episódios de cerca de 30 minutos, cada. E o mais interessante é que o herói em si aparece apenas em um episódio, mas não na pele de T’Challa (Chadwick Boseman) ou Shuri (Letitia Wright). O foco é realmente em outras faces do reino.

Cada capítulo é ambientado em uma “era” diferente. O primeiro, por exemplo, é ambientado na época das grandes navegações e das colonizações realizadas pelos europeus, e foca na criação dos Hatut Zeraze, os “Cães de Guerra” de Wakanda. Ele e estrelado por uma Dora Milaje renegada que recebe uma segunda chance no reino ao receber a missão de investigar o Leão, um colonizador misterioso que vem conquistando povos com armas Wakandanas roubadas.
A proposta é muito interessante, porque mostra a diferença que a tecnologia do Vibranium faria na hora de batalhas. Enquanto portugueses e espanhóis, por exemplo, usavam caravelas e armas de pólvora, o Leão já ostentava naves e armas energéticas, o que deu a ele um status divino. O debate do episódio é justamente sobre até que ponto seria aceitável a colonização pela perspectiva de um homem ressentido pelas leis da nação mais fechada do planeta.

A partir daí, os outros episódios seguem imaginando aventuras pelo mundo nos séculos seguintes. Há um capítulo, por exemplo, que insere um guerreiro Wakandano no contexto da lendária Guerra de Troia, sendo parceiro do herói Aquiles. Mas o melhor episódio certamente é o terceiro, que se passa na China e conta história de um Cão de Guerra que se infiltra na dinastia e começa um relacionamento amoroso com uma super-heroína. Ele está nessa para recuperar um artefato de Vibranium, mas acaba se apaixonando de verdade. O problema é que ele não faz a menor ideia de que a amada é uma das primeiras versões do Punho de Ferro, dando início a uma batalha intensa e muito divertida. É, por muito, o melhor episódio da minissérie.
O que incomoda um pouco é o último capítulo, que traz ligações com o filme de 2018 e acaba trazendo uma interpretação meio problemática sobre os saques realizados durante as guerras contra a colonização na África. Uma Pantera Negra do futuro volta no tempo para tentar garantir que uma arma Wakandana seja roubada pelos europeus durante uma batalha na Etiópia, dando a entender que esse saque colonial seria fundamental para um futuro decente. É complicado.

Apesar de trazer premissas interessantes, a série acaba não empolgando tanto justamente por ter episódios curtos e apostar em um estilo de animação bastante incômodo, com uma estética que remonta aos gráficos dos jogos de PlayStation 2. Esse tem sido um ponto de bastante dor de cabeça para a Marvel Animation. Enquanto as artes conceituais divulgadas investem em estilo um 2D belíssimo, os resultados são sempre animações 3D que não se sustentam sem causar estranhamento. Lembram muito os filmes animados da Hot Wheels nos anos 2000. Só que nos anos 2020.
E isso é muito pouco para a franquia Pantera Negra, que tem justamente o design de produção mais diverso, ousado e complexo de todo o Universo Cinematográfico Marvel. Olhos de Wakanda merecia um carinho maior com o estilo de animação. Sobre a duração, talvez 10 a 15 minutinhos a mais fossem o suficiente para desenvolver melhor as boas ideias dos episódios. Com 28/30 minutos, fica aquela sensação de que a direção está sempre correndo com as histórias, o que não permite ao público se apegar a personagens que tinham tudo para serem memoráveis. É uma pena que Olhos de Wakanda apenas divirta, mas não empolgue. Chega bem perto de ser uma minissérie realmente muito boa, só que parece se contentar em ser apenas boa. Tanto que nem a própria Disney parece ter colocado fé no projeto.

