terça-feira, janeiro 20, 2026

Crítica | ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é uma ótima e honesta adição ao universo ‘Game of Thrones’

CríticasCrítica | 'O Cavaleiro dos Sete Reinos' é uma ótima e honesta adição ao universo 'Game of Thrones'

George R.R. Martin é responsável por um dos universos de fantasia mais complexos e conhecidos da literatura contemporânea, ‘As Crônicas de Gelo e Fogo’. Convidando os leitores a conhecerem as engrenagens políticas de Westeros e das dinastias e Casas que compõe um explosivo e traiçoeiro tabuleiro de xadrez. Não foi surpresa quando seus escritos ganharam uma aclamada e premiada adaptação que ganhou o nome de Game of Thrones, estendendo-se por oito temporadas que conquistaram o público (ainda que o grand finale dessa epopeia tenha sido bastante controversa).

O sucesso imensurável da adaptação culminou em uma pré-sequência que estreou em 2022: A Casa do Dragão nos convidou a viajar de volta no tempo e acompanhar a queda da Casa Targaryen – caindo novamente no gosto dos espectadores e caminhando para uma antecipada terceira temporada. E, enquanto esperamos esse retorno, somos convidados a conhecer mais um espectro desse expansivo cosmos com o lançamento de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’. Baseado nos ‘Contos de Dunk e Egg’, um compilado de contos também assinado por Martin que nos apresenta a Ser Dunk, um cavaleiro andante que outrora servia a um mestre, e a seu fiel escudeiro Egg, um garoto determinado e ousado que cruza caminho com o valente homem. E, apostando em um cenário familiar e introdutório, o capítulo de estreia desse mais novo spin-off cumpre com o prometido em uma aprazível jornada inicial.

Como já mencionado, a trama é centrada em Ser Duncan, o Alto (Peter Claffey), apelidado carinhosamente como Dunk. Humilde, honesto e ambicioso, Dunk trilha seu próprio caminho após a morte do mestre, munido de uma espada, uma bainha de corda, três cavalos e um escudo conforme marcha para a Campina de Vaufreixo a fim de participar de um importante e complicado torneio que pode lhe conceder a glória que sempre sonhou. O problema é que Dunk não possui os recursos necessários para as justas ou para o provável resgate – e as coisas ficam mais complicadas quando ele vai ao encontro de Plummer (Tom Vaughan-Lawlor), uma espécie de “administrador” de Vaufreixo, e ele o diz que ele precisará de uma testemunha para validar seu status como Cavaleiro.



Assim, Dunk faz de tudo para ter a chance de conversar com Ser Manfred (Daniel Monks), cavaleiro da Casa Dondarrion de Portonegro e o único que pode testemunhar a seu favor, visto que seu mestre levou um ferimento em uma das batalhas de Manfred – e talvez o reconheça como um jovem escudeiro. É claro que as coisas não saem exatamente como o planejado, visto que a jornada de Dunk ainda precisa do conhecido “incidente incitante” para ter início oficial – e isso acontece com a presença de Egg (Dexter Sol Ansell), um jovem garoto que conhece o Cavaleiro Andante em uma estalagem, desejando acompanhá-lo até o torneio como escudeiro.

A princípio, Dunk descarta de cara a ideia de escalar Egg como seu acompanhante, tentando se livrar da criança a todo custo. Porém, ele se mostra mais inteligente e sagaz do que aparenta e consegue seguir o Cavaleiro até Vaufreixo, onde o espera em uma clareira sob um pinheiro para convencê-lo de que torná-lo escudeiro não será uma decisão ruim. Como podemos imaginar, os dois acabam por firmar o início de uma amizade que, logo no primeiro capítulo, já mostra ser o fio condutor de uma honesta e empolgante narrativa do mundo de Westeros – que, pouco a pouco, começa a dar indícios dos principais conflitos a serem enfrentados pelos protagonistas.

O elemento de maior destaque vai ao trabalho primoroso de Claffey e Ansell como os nossos heróis. Seguindo de perto a caracterização dos personagens nos contos originais, Claffey adota cada uma das camadas de Dunk a ponto de transformá-lo em um herói improvável, clássico e dotado de uma coragem que é colocada à prova a todo momento. Sua criação humilde e sua tendência à servitude o transformam em um empático desbravador cujo objetivo é alcançar a glória de maneira honrada e prestigiada, à medida que emana uma ingenuidade potencialmente problemática. Ainda que tente impor uma certa autoridade, Dunk não é páreo para a frenética e sonhadora mente do “desbocado” Egg, que é encarnado pela apaixonante presença de Ansell em uma rendição memorável.

Para além do trabalho de um elenco que inclui Edward Ashley como o impetuoso Ser Steffon Fossoway, que causa um impacto imediato no momento em que dá as caras na iteração, o destaque se dirige ao comprometimento da equipe técnica e criativa. De um lado, o diretor Owen Harris constrói uma junção mnemônica e emulativa de tantas outras narrativas fantásticas, até mesmo dentro do panteão Game of Thrones, a fim de eternizar uma perspectiva mais comedida e restrita – ao menos por enquanto. Deixando de lado as irrupções epopeicas da série original e de A Casa do Dragão, o drama político e o suspense fantasioso descem alguns níveis para que a tragicomédia ganhe espaço em uma certeira releitura da Jornada do Herói.

O mesmo pode ser dito de trilha sonora assinada por Dan Romer, assumindo a função no lugar de Ramin Djawadi, que emprestou suas habilidades para as outras iterações. Romer, conforme se mune de tropos explorados por seu colega de profissão, os traduz de maneira mais fabulesca e leve, apoiando-se em um conjunto de cordas que explode em cada uma das cenas e que traz um tom mais etéreo até mesmo às sequências mais dramáticas – trazendo referências que variam de Howard Shore a Harry Gregson-Williams. Em contrapartida, a fotografia de Gustav Danielsson traz um tom de seriedade e sobriedade ao universo de Westeros, apostando em enquadramentos contemplativos que antecipam a conjunção dos protagonistas e coadjuvantes que comporão esse quadro.

‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é uma adição à saga Game of Thrones por, sem abandonar por completo a identidade de suas séries-irmãs, conseguir encontrar um jeito diferente de nos convidar de volta a Westeros – dando início ao que pode ser uma das melhores aventuras do adorado panteão fantástico.

Lembrando que o próximo episódio vai ao ar no dia 25 de janeiro.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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