O Clube dos Canibais’ é uma experiência imersiva no cruel mundo daqueles que detêm a pequena concentração de riqueza no Brasil. Justamente por isso, faz-se necessário realizar a crítica desse filme em diálogo com o insurgente ‘Bacurau’ – portanto, fica o alerta de spoilers.

Em ‘O Clube dos Canibais’ conhecemos Gilda (Ana Luiza Rios) e Otávio (Tavinho Teixeira), um casal aristocrático da alta classe cearense, que claramente faz sua fortuna em cima da exploração da mão de obra e da instauração do medo na região. Magnatas do sertão, o casal tem uma peculiaridade: em uma espécie de jogo doentio, Gilda induz seus funcionários a terem relações sexuais intensas com ela, mas, antes do ápice, os parceiros são assassinados pelo marido dela, que posteriormente corta os cadáveres em pedaços e os assa num churrasco, do qual os dois se alimentam em uma dieta especial.

Gilda tem predileção pelos caseiros da mansão, ao ponto de fazer o processo de seleção baseada no corpo e na estética dos candidatos. Em contrapartida, esse fetiche perverso e cruel é, também, o motivo que reúne os participantes do tal ‘Clube dos Canibais’ – reuniões nas quais dez homens brancos, héteros e do bem se encontram para voyeurmente observar um homem e uma mulher – negros e previamente selecionados – terem relações sexuais diante de uma câmera (a qual eles assistem impassivelmente, ao vivo), para em seguida serem mortos e degustados.

Fazendo uso da grande alegoria do cinema de gênero, o diretor e roteirista Guto Parente traça, através do terror, um retrato da sociedade patriarcal, coronelista, racista e hipócrita que fundamenta a nossa sociedade brasileira. O tom político fica evidente não só na distância entre os dois núcleos (em determinada cena, em uma festa requintada à beira da praia, beira a cafonice ver a comitiva da alta classe toda vestida e falando como se estivesse na Europa, e não na praia de Guajiru, em oposição ao quartinho do caseiro, com uma janela minúscula e que é, na verdade, o depósito de material de limpeza), mas também na condução do roteiro, que acentua essa distância para, em seu final, dialogar diretamente com ‘Bacurau’. Para quem já viu o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é como se ‘O Clube dos Canibais’ mostrasse o outro lado da trama, o lado daqueles que – salvo na possibilidade da ficção – de fato detêm as rédeas do jogo na realidade.

Para quem está indo atrás dos elementos de terror, o longa de 81 minutos traz poucas – porém impactantes – cenas, funcionando mais como um suspense dramático e político com cenas explícitas de terror gore, com representação bem evidente de mutilação. O que se sobressai mesmo são as cenas de sexo – bem longas, bastante plásticas e críveis.

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Para aqueles que acham que a crítica social em ‘O Clube dos Canibais’ é fantasiosa, que os “homens distintos e leais a valores universais continuarão dignos das posições privilegiadas de direito que possuem”, como discursa o presidente do clube, Borges (Pedro Domingues), vale ressaltar que o longa é baseado numa história real, ocorrida entre 1864 e 1865 em Porto Alegre, na qual se baseou o livro “O Maior Crime da Terra”, do escritor e historiador Décio Freitas.

Como veem, as relações de classe e de poder permanecem sendo a grande tensão social de nosso país, e ‘O Clube dos Canibais’ faz uma releitura sórdida e atualíssima de um episódio macabro da nossa história social.

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