Crítica | O Tigre Branco – A versão indiana e menos glamurosa de ‘Podres de Rico’

Quando o filme ‘Podres de Rico’ estreou, em 2018, e levou várias estatuetas na temporada de premiações de 2019, a indústria cinematográfica voltou seus olhos para aquela trama centrada em Cingapura, com um elenco todo composto de descendentes de asiáticos e uma história de pessoas super ricas que viviam uma vida de luxo fora dos Estados Unidos. Porém, o filme de Jon M. Chu é uma comédia romântica, cujo enredo coloca os personagens já ricos e maravilhosos. Mas… você já se perguntou como eles chegaram nesse patamar de fortuna? É nessa pegada que estreia na Netflix o filme ‘O Tigre Branco’.

Conhecemos Balram (Adarsh Gourav) já rico, empresário influente da cidade de Bangalore, e através de sua narrativa vamos sabendo de sua trajetória, de como ele deixou de ser um meninote pobre do interior de uma cidadezinha na Índia para se tornar o motorista de confiança de Ashok (Rajkummar Rao), herdeiro de um homem poderoso e perigoso. Como tudo isso aconteceu é que é o grande mistério de ‘O Tigre Branco’, que fisga o espectador já na primeira cena.

Baseado no livro homônimo de Avarind Adiga, ‘ O Tigre Branco’ é uma intensa produção. As locações, as caracterizações, a maquiagem, os cenários: tudo que vemos exprime dedicação da parte técnica em fazer aquilo acontecer – por exemplo, se você acha que é difícil gravar uma cena de perseguição em Los Angeles, imagina gravar na Índia, e ter que pedir para fechar uma rua para gravar, quando sabemos que o trânsito daquele país é um dos mais caóticos do mundo?! Pois é, e essa é a primeiríssima cena do longa, que abre o filme mostrando o grau de dificuldade que a parte técnica da produção deve ter encarado para realizar tudo.

O filme é ótimo, porém, seu ponto forte é também o seu ponto fraco. Com o argumento de mostrar a verdadeira história de como um sujeito pobre enriquece, o roteiro de Ramin Bahrani não mede esforços em mostrar o lado feio de seus personagens, nem de esconder que as únicas formas de se enriquecer na Índia são através do crime ou da política – como repete várias vezes Balram. Esse aspecto acaba deixando um gosto amargo para o espectador, que engaja facilmente com o protagonista no início e, aos poucos, vai vendo que a vida não é tão bela assim. Isso ocorre porque o espectador foi criado para curtir finais felizes e contos de fadas, mas a vida real não é bem assim.

O Tigre Branco’ tem uma edição ágil, uma trilha sonora dançante e ótimas interpretações – com destaque para Priyanka Chopra Jonas. Faz um retrato das dificuldades de se mudar de casta na Índia e, como o próprio filme diz, um tigre branco é um animal raro, que só nasce um a cada geração. Tal como seu companheiro ‘Podres de Rico’ (cuja versão brasileira omitiu a palavra “asiáticos” do título), demonstra que o futuro é asiático, e a Ásia é muito mais que apenas China ou Japão.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.