Em 2018, a Netflix lançava sem muita divulgação a primeira temporada de uma animação em 2D que seguiria os passos de tantas outras produções da plataforma: O Vazio. Sem muitas informações aparentes e sem um elenco de peso que talvez atraísse o público, a série tornou-se uma das mais bem feitas da década passada ao misturar aventura, romance e metalinguagem em um único lugar: a história principal girava em torno de um grupo de jovens que acordava no lugar epônimo, recheado de figuras bizarras, perigos mortais – até descobrirem que estavam dentro de um videogame, competindo para conquistar o prêmio máximo de uma jogo de tecnologia de ponta. É claro que, com o final do ano de estreia, era de se esperar que o serviço de streaming mantivesse os planos abertos ou apenas transformasse a obra em uma minissérie.

Qual foi nossa surpresa quando a confirmação de uma nova iteração viralizou nas redes sociais, levando os telespectadores a pensar como a narrativa iria continuar? Os protagonistas retornariam para o Vazio para mais uma aventura? Ou a trama seria ambientada no mundo real? Felizmente, todas as nossas respostas (ou a maior parte delas) foram respondidas nos últimos dias, quando os novos episódios estrearam num baque surpreendente, multiplicando a complexidade de cada personagem em níveis estratosféricos – além de infundir as tramas e subtramas com questões existenciais nietzschianas que passam despercebidos por aqueles que querem apenas uma boa diversão no melhor estilo role-playing game.


Mais uma vez, começamos com Adam (Adrian Petriw) acordando abobado de um sono profundo. Dessa vez, ele está deitado em sua cama e, para surpresa de todos, voltou a um formato 2D. A princípio, ele acredita estar no jogo novamente, mas percebe que está dentro de sua casa: seu quarto é o mesmo, seu cachorro é o mesmo e até mesmo os seus pais são os mesmos. A vizinhança é idêntica ao da vida real (se é que aquela não é a real), exceto por um pequeno detalhe – os antigos valentões de quando era criança estão exatamente iguais. Não cresceram, não ficaram mais velhos, o que leva Adam a questionar sua sanidade e se o que está vendo é verdadeiro. Eventualmente, ele cruza caminho com Mira (Ashleigh Ball) e Kai (Connor Parnall), que também não entendem o que está acontecendo.

Depois de reunido, o trio tenta juntar informações para chegar a uma explicação plausível – a de que eles desbloquearam uma suposta fase adicional que deve ser mais complicada que a original. Entretanto, as coisas parecem complicadas demais: Gustaf (Mark Hildreth), o Cara Estranho que serve como guia e fornece dicas para que os jogadores sigam em frente, não atende aos seus clamores, e o grupo adversário não está em nenhum lugar aparente. Então, o que diabos está acontecendo?

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A verdade é que, em comparação com a iteração predecessora, os primeiros capítulos parecem um tanto quanto desconexos, fazendo revelações inesperadas sobre a personalidade dos nossos heróis. Descobrimos que todos vivem na mesma comunidade e que Adam e Mira são amigos de infância; além disso, expulsaram Reeve (Alex Barima), um dos principais vilões da primeira temporada, de seu time original e entraram em contato com Kai, criando um organismo nada ortodoxo que provou ser bastante eficiente. Entretanto, o que mais destoa nessa amálgama de estranhezas e bizarrices é o fato de que ninguém parece conhecer o Vazio. Em se tratando da realidade, isso não faria o menor sentido; em se tratando do universo fictício do game, isso também não corresponderia ao esperado. Nenhuma criatura em vista, nenhum chefe de fase intransponível – e nenhum cavaleiro do Apocalipse os caçando.

Apesar dos óbvios deslizes, incluindo impalpáveis e coincidentes acasos, o ritmo mergulha numa frenética e incontrolável montanha-russa que esbarra em revelações chocantes, uma atrás da outra. Primeiro, descobrimos que Adam e seu time não está participando da nova versão do jogo. Eles permanecem com seus poderes e com memória de tudo que aconteceu, mas, ao que tudo indica, estão presos em uma espécie de bug sem precedentes – enfrentando a fúria de outros players insuportáveis e esquecíveis e seus nêmeses. O grande problema não é esse: eles também não tem a opção de morrer; caso percam a vida, não retornam para o mundo de onde vieram e nem ao menos como avatares.


Eventualmente, descobrimos que a série prefere seguir uma trajetória mais filosófica, esbarrando em elementos niilistas que são tratados com profundidade cuidadosa – e uma pitada de comédia que sempre é bem-vinda. Os protagonistas, na verdade, são clones digitais de seus verdadeiros eus, arquivados no banco de dados da empresa responsável pelo Vazio, Ishibo. Dotados de consciência e de emoções, a principal conquista da série é ampliar os diálogos sobre o que, de fato, existe ou não. Devemos levar em conta qualquer ser que tenha a capacidade de pensar e de sentir, ainda que sejam virtuais?

Abrindo inúmeras possibilidades de compreensão – e envolvendo-nos em um didático debate -, O Vazio retorna com força e mantém sua qualidade inegável, nos fazendo desejar por mais a cada capítulo.

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