E o filme não vive

O diretor Jim Jarmusch é conhecido como uma das vozes mais representativas do cinema alternativo/cult norte-americano. Suas produções são marcadas por um estilo estático, seja estético ou narrativo. Na tela, a câmera se posiciona quase parada, fazendo movimentos simples enquanto acompanha os personagens, que partem do ponto A ao B de forma quase imperceptível ao grande público. No roteiro, o diretor traz histórias simples, prontas a serem discutidas de forma profunda.

E esta é logo de cara a principal diferença de outras obras na filmografia do cineasta para Os Mortos Não Morrem, seu mais recente trabalho. Mesmo que a maioria de seus longas sejam taxados de comédia – digna de um humor bem peculiar e sarcástico (daquele tipo do qual muitos não entenderão que é para rir) -, é na parte dramática que Jarmusch intensifica seus significados.

Veja, por exemplo, como o diretor trabalha o tema dos vampiros em Amantes Eternos (2013). Usando um tema sobrenatural como mote, Jarmusch enfatiza sua corriqueira estranheza, tendo o respaldo da fantasia desta vez. Autor de seus próprios roteiros, ele é capaz de passear pelo assunto adicionando muito de seu próprio sabor à história de um casal de vampiros que vive um relacionamento de altos e baixos, idas e vindas, através da eternidade. Assim, o cineasta cria momentos icônicos, como a cena da dança – capaz de ecoar devido a plasticidade, ou até mesmo a escolha da música.

Os Mortos Não Morrem, infelizmente, é um filme conflitante.  E justamente por isso seu resultado não se relaciona com os outros trabalhos de Jarmusch no sentido de personagens aprofundados e suas questões. A ideia aqui é que o longa fosse vendido ao grande público, então ele precisaria ser mais palatável ao espectador comum – o que vai contra o que representa de forma geral o cinema do autor. Não por menos, este foi o primeiro filme da carreira de 35 anos do diretor com um lançamento abrangente em grande circuito nos EUA, com mais de 600 salas pelo país.

O chamariz de Os Mortos Não Morrem sem dúvida é seu elenco, com alguns dos usuais colaboradores do cineasta: vide Bill Murray, Adam Driver e Tilda Swinton. Até mesmo a jovem Selena Gomez decide entrar na brincadeira. O problema é que o resultado final soa morno demais. Jarmusch é incapaz de aplicar sua visão única a este tema pra lá de requentado. A esta altura, fazer um filme de zumbi por fazer, sem ser capaz de adicionar qualquer diferencial, se torna um exercício em redundância. E é triste perceber que um cineasta da estatura de Jarmusch entrega justamente isso.

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Na trama, os mortos voltam à vida e começam a devorar os cidadãos de uma cidadezinha americana. Bill Murray é o mais prejudicado como o protagonista, dono de um personagem que é um quadro em branco. Adam Driver é o elo com o público, e seus diálogos consistem em dizer tudo o que nós na plateia estamos pensando. As tiradas não são engraçadas como planejado e talvez no papel soassem melhor – como o trecho deslocado da quebra da quarta parede – que termina quase como ato de desespero, como se o diretor não soubesse como entregar o “pay off” da construção da expectativa. A certa altura o personagem de Driver diz que o motivo pelo qual sabe tanto do que está acontecendo é porque leu o roteiro. E daí, os personagens se tornam seus atores, mas apenas de forma breve, sem insistir na ideia (o que até funcionaria melhor, se a farsa caísse de vez).

Todo o arco de Tilda Swinton como uma funcionária de necrotério samurai, portanto uma espada – ideia saída de Ghost Dog (2000) -, também não funciona. Sem conseguir fazer graça, e com personagens difíceis de se acompanhar por serem desinteressantes, o que sobra é apenas mais um filme de zumbi corriqueiro, com mortes violentas. E não é isso que esperamos de Jim Jarsmuch.

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