Crítica | Os Odiados do Casamento – Uma comédia instável e pouco funcional

A cineasta Claire Scanlon já fez diversas comédias para TV, participando de boas séries como ‘Brooklyn Nine-Nine‘ e ‘Glow‘, além de comandar outras curiosas produções como ‘Unbreakable Kimmy Schmidt‘. A diretora então tenta, de certo modo, repetir a mesma formula neste ‘Os Odiados do Casamento‘, que tem como o seu maior problema a falta de personalidade, clareza naquilo quer focar e um viés, digamos, mais cinematográfico para justificar a sua existência.

A dupla de roteiristas Lizzie Molyneux-Logelin e Wendy Molyneaux foram incumbidas de transformar o livro homônimo de Grant Ginder em um longa-metragem ao menos funcional, no entanto parece que nunca conseguem dominar o conceito da ideia original e transpor o título para o cinema. Entregando assim uma trama disfuncional, que tenta criar momentos tragicômicos, só que ao mesmo tempo se assume como um pastelão que aposta romances rasos e piadas bobas, não sabemos ao certo no que está focando.

Na trama, Alice (Kristen Bell) e Paul (Ben Platt) são irmãos que não querem mais contato com a mãe, Donna (Allison Janney), porém ambos são chamados para uma reunião familiar quando a filha primogênita da matriarca, Eloise (Cynthia Addai-Robinson), vai se casar em Londres, perto de seu pai e o ex-namorado da mãe. Alice e Paul não são lá muito fãs da sua meia-irmã, no entanto concordam em comparecer, carregando todo rancor e certo desconforto por estar ali, além de viverem dilemas pessoais.

Alice, que teve um relacionamento fracassado com o seu chefe (que é casado), encontra um rosto amigo no parceiro de viagem, Dennis (Dustin Mulligan). Paul viaja com o seu namorado, Dominic (Karan Soni), que sempre procura as aventuras sexuais mais ousadas, no intuito de esquentar o relacionamento.

Já Donna volta a se reencontrar com Henrique (Isaach De Bankole), seu ex-namorado, trazendo de volta antigos sentimentos do homem que partiu o seu coração em outro momento. Nesse contexto, enquanto Eloise tenta se casar, todos parecem buscar algum sentido para suas vidas, seja com romances frívolos ou respirando novos ares.

- Advertisement -

Dessa forma, ‘Os Odiados do Casamento‘ passa a maior parte do tempo, sobretudo em seus primeiros atos, tentando entender os problemas dos seus personagens. Alice é talvez a mais complicada do grupo, tentando trazer normalidade à sua vida, mas também se envolvendo em situações conflituosas, como fazer sexo com o seu chefe que, como falamos, já tem um casamento.

Alice então afoga as mágoas na bebida e nunca tem tempo para sua mãe, o que também acontece com Paul, que trabalha no centro de terapia e começa a sentir desinteresse por parte do seu namorado. Isso porque as taras sexuais de Dominic nunca são saciadas, deixando o sujeito nervoso, além do contato diário com sua mãe piorar as coisas. Para Donna, que agora é viúva, a situação complicada a faz ter um reencontro com Henrique, que continua elegante e charmoso.

São muitos pontos apresentados e diversas confusões que precisam ser resolvidas, porém algumas decisões equivocadas deixam o filme um tanto desinteressante, isso pelo longa nunca possuir uma narrativa envolvente. A diretora tenta fazer uma comédia com um cunho adulto, mas que é pouco eficaz, justamente por trocar algumas cenas cômicas tradicionais apenas por palavrões ou situações mais pesadas, para parecer mais madura.

Também tenta flertar com o humor inglês, mas acaba se tornando exagerado por trazer cenas deslocadas, como o jantar onde vemos cenas de vômito e embaraços dignos de Walcyr Carrasco. ‘Os Odiados do Casamento’ tenta abordar momentos leves e outros mais conflitantes, mas acaba não indo bem em ambas as intenções. Aposta em piadas bobas, mas ao mesmo tempo aborda um caso em que uma personagem é emocionalmente destruída por um aborto espontâneo. Faz humor com vômito e também quer falar sério sobre relações humanas.

O elenco até se esforça para fazer a coisa funcionar como deveria, mas o longa é completamente instável e dificilmente acerta ou funciona, mesmo para o seu público alvo. Talvez Claire Scanlon se saia melhor fazendo as boas comédias ácidas já presentes em seu currículo, do que essa aposta emocional e sem equilíbrio.

SE INSCREVER

NOTÍCIAS