Assim como Janelle Monáe canta sobre a libertação sexual do corpo feminino em “Pynk”, o clube de mesmo nome (e mesma grafia, também) localizado no Delta do Mississippi na série P-Valley faz algo semelhante para suas dançarinas. Em ambas as versões de “Pynk”, curvas, êxtases e empoderamento são celebrados. Em cada um, às suas próprias maneiras, mas a regra é clara: não é mais sobre eles, e sim sobre elas. 

O senso de libertação que existe na nova série do Starz Play é uma herança que vem do material de origem, a peça teatral ‘Pussy Valley’. A autora, Katori Hall, também assume a responsabilidade da adaptação, e garante que a eletricidade hipnótica daquele ambiente seja um dos primeiros elementos perceptíveis nos episódios iniciais. As luzes baixas e as cores frias ajudam a compor um cenário aconchegante e transformam um desfile de corpos em uma experiência imersiva em um ambiente que, em tantas produções que já vimos anteriormente na TV, não passa de pano de fundo para homens engravatados exibirem suas supostas complexidades emocionais sob uma ótica exageradamente masculinizada. 

Aqui, o propósito é o inverso. Os homens que frequentam o Pynk e tornam-se clientes fiéis de algumas das strippers é que são o pano de fundo para seus dramas particulares, os jogos com que elas se distraem entre um problema e outro que se estende da porta do clube para fora. Pela primeira, elas são o centro das atenções de corpo e também de alma.

Há uma linha tênue entre o empoderamento do corpo feminino e a sua exibição estereotípica e descompromissada, mas é uma linha que P-Valley não cruza, graças à sábia decisão de ter todos os episódios dirigidos por mulheres. As personagens todas são retratadas mais como atletas em rotinas pesadas do que como dançarinas, e o esforço físico é notável e até enfatizado. A câmera quase nunca passa tempo demais apreciando um corpo ou outro — quando o faz, logo em seguida entendemos que havia um propósito naquilo.

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É a estética aperfeiçoada e eletrizante que faz de P-Valley uma série atraente, ainda que o drama a que Hall recorre para preencher a história para além disso nem sempre funcione bem. Muitas vezes, caímos em narrativas batidas e pouco inventivas de acordos fora da lei, identidades roubadas e diálogos mega expositivos de personagens que preenchem sempre uma caixinha ou outra — narrativas que passam apenas perpendicularmente às histórias mais intrigantes e potencialmente ricas das protagonistas. 

Se algumas vezes ela pode perder de vista aqueles com quem deveria se preocupar mais, é perspicaz o fato de jamais passar muito tempo longe de Uncle Clifford (Nicco Annam), que desafia tudo e todos com sua barba, seu salto e os pronomes ela/dela. Annam, também herança desta história nos palcos, é seu maior trunfo, e Hall sabe disso. O ator traz energia às cenas sobretudo por imprimir uma dinâmica diferente quando está tratando com Mercedez (Brandee Evans) ou Autumn (Elarica Johnson). 

Eventualmente, a imersividade talvez não seja mais o suficiente para manter a história no lugar, mas ‘P-Valley em determinado momento encontra o equilíbrio entre as tramas paralelas e a importância delas para o clube, sem deixar de lado o quanto a simplicidade de mostrar a dinâmica entre elas pode ser a virada de chave para o sucesso. No fim, seu grande feito é tratar essas mulheres como humanas — algo que, a essa altura, já deveria ter acontecido antes. Felizmente, está acontecendo agora. 

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