A Pixar é conhecida por uma gama de animações marcaram e continuam marcando época, transformando narrativas destinadas ao público infanto-juvenil em reflexões sobre a vida e sobre como superamos os múltiplos obstáculos colocados em nosso caminho. E, dentro do explosivo panteão da companhia, uma das sagas mais icônicas de todos os tempos é Toy Story: as belíssimas tramas exploradas pela franquia variam de amizade a sacrifício, e mostraram ao mundo personagens como o Xerife Woody, Jesse, Bala no Alvo, Sr. Cabeça-de-Batata, Slinky e tantos outros. E, sem sombra de dúvida, um dos mais memoráveis é o adorável e corajoso patrulheiro espacial Buzz Lightyear.

Não é surpresa que, três anos depois da Pixar ter finalizado o arco de Toy Story com uma surpreendente e emocionante conclusão, a equipe técnica e artística tenha se voltado para uma espécie de história de origem focando em Buzz. O longa-metragem, intitulado Lightyear, cumpre com as expectativas e, mesmo deslizando aqui e ali, posta-se como um espetáculo visual e uma pulsão de diversos elementos que ressoam com as mais diversas idades – seja pelo teor aventuresco sci-fi próprio da backstory do personagem titular, seja pelas nuances que se desenrolam em breves 105 minutos de tela. Mais do que isso, o projeto emerge como uma incursão metalinguística e metadiegética que cria um cosmos dentro de outro cosmos – literal e figurativamente -, mostrando que o estúdio ainda tem muito a contar para uma legião crescente de fãs.


Quando anunciado, o filme veio acompanhado de diversas polêmicas por parte da recepção dos espectadores, fosse pela presença de um casal lésbico, fosse pela troca de atores no elenco de dublagem (brasileira e internacional). Entretanto, as críticas feitas serviram apenas como máscara para esconder intenções idióticas de boicotar a obra – sendo que, no final das contas, ela é construída com tamanha sutileza e honestidade que queremos logo assistir de novo. E, para aqueles que estavam preocupados, Marcos Mion, que comanda a voz do patrulheiro em território nacional, faz um trabalho competente e que dialoga com a personalidade do herói, um homem destemido que se recusa a falha e que considera os próprios erros como atitudes indesculpáveis.


Lightyear já começa com um enlace com Toy Story, revelando-se como a atração favorita de Andy, o jovem garoto que ganha Buzz de presente de aniversário. Em poucos minutos, somos arrastados para uma enérgica aventura em um planeta hostil e desconhecido em que o protagonista e o restante da tripulação ficam presos, lidando da maneira que podem para sair de lá e voltar a cruzar os confins do espaço. Como a cereja do bolo, temos a profunda amizade entre Buzz (interpretado originalmente por Chris Evans) e Alisha Hawthorne (Uzo Aduba), que serve como força-motriz para que ambos engendrem um plano de fuga e de garantir a segurança de todos. O protagonista, logo, se voluntaria para testar o mecanismo de hipervelocidade que os levará embora – e é aqui que enfrentamos a primeira grande reviravolta.

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O longa fica a encargo de Angus MacLane em sua estreia oficial nos cinemas – e seu magnífico trabalho já o torna um dos favoritos para abrir uma nova era para a Pixar e, inclusive, conquistar algumas estatuetas na próxima temporada de premiações. MacLane já havia emprestado suas habilidades para curtas-metragens animados, inclusive da franquia predecessora, e demonstra ter uma bagagem cultural gigantesca, refletida nas múltiplas referências cenográficas: a dinâmica dos personagens é reminiscência de clássicos como ‘Star Trek’ e ‘Star Wars’, enquanto a delineação dos antagonistas é uma aglutinação de ‘Alien – O 8º Passageiro’ e ‘O Exterminador do Futuro’. Além disso, as peças dramáticas se encaixam em uma compreensão angustiante sobre a efemeridade do tempo e sobre as relações humanas – ora, Buzz perde quatro anos ao lado dos companheiros toda vez que participa de um teste de hipervelocidade, observando sua vida mudar por completo toda vez que pousa no planeta.

MacLane também fica responsável pelo roteiro ao lado de Jason Headley, ambos trabalham em uma continuidade que não tangencia o pedantismo artístico ou uma tecnicidade exacerbada (em outras palavras, os jargões científicos são mostrados de forma didática e acompanhados de explanações visuais que auxiliam na condução da obra). Os diálogos se valem de algumas fórmulas do gênero, a fim de talhar conexões duradouras com os pequenos, mas são pincelados com uma ácida e divertida comédia, cortesia da química do elenco e das boas-vindas a Sox (Peter Sohn), um gato robô que acompanha Buzz e que tem uma personalidade apaixonante e sem filtros. Keke Palmer também se rende a uma performance aplaudível como Izzy, neta de Alisha, cujos sonhos entram em conflito com a frieza calculista de um Buzz que deseja, mais que tudo, abandonar o equívoco que os mantém reféns.


É inegável perceber as inspirações adotadas pela produção à medida que compramos essa jornada, mas a maior surpresa vem com a competência do time de animadores. O hiper-realismo empregado no filme é de tirar o fôlego, apostando fichas em uma space-opera colorida e vibrante, cuja paleta de cores avermelhada da estação espacial contrasta com o inebriante esverdeado do planeta e das criaturas que lá vivem – e com a iminência mortal de uma nave alienígena que começa a atacar a colônia humana. E, no topo disso, a atmosférica e orquestral trilha sonora de Michael Giacchino nos transporta a uma belíssima sinestesia instrumental.

Lightyear representa um sólido acerto da Pixar (o que não é nenhuma surpresa, lembrando do histórico quase impecável da companhia); meticulosamente montado, a animação nos mostra que o infinito e o além, na verdade, podem estar mais perto do imaginamos – e no último lugar onde pensaríamos em procurar.


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