Amadurecimentos artísticos são sempre bem-vindos, neste ano, vieram acompanhados de alguns dos melhores lançamentos do ano: tivemos o retorno ao house-pop da lendária Lady Gaga com ‘Chromatica’, o impecável e sinestésico ‘Folklore’, da titânica Taylor Swift, e ‘Future Nostalgia’, o singelo e explosivo convite de Dua Lipa para as pistas de dança. Entretanto, outro nome ganhou os holofotes alguns meses com o vindouro anúncio de seu mais novo e aguardadíssimo álbum de estúdio: Miley Cyrus.

A adorada artista, que ganhou fama ainda ao interpretar Hannah Montana na série homônima do Disney Channel, já vinha nos prometendo seu glorioso retorno à indústria fonográfica desde SHE IS COMING, breve EP lançado no ano passado que deveria ter ganhado uma continuação, mas acabou passando longe dos holofotes. Felizmente, Cyrus mudou por completo seus planos e abraçou com força o rock-pop da década passada com “Midnight Sky”, abrindo espaço para as incursões nostálgicas dos anos 1980 e 1990 e com o de alguma forma frustrante disco-punk à la The Runaways “Prisoner”, em colaboração com a bombástica rendição vocal de Dua. Mas nada (repito: nada) nos preparara para Plastic Hearts: a compilação de originais é, de longe, a mais coesa entrada musical da cantora e compositora, e um salto em sua carreira transformador e extremamente saudosista que, no final das contas, era tudo o que queríamos para esse ano.

Diferente das apostas escapistas que tivemos no cenário pop, inclusive com os nomes citados no primeiro parágrafo, Miley não se conteve em nenhum momento e, através de potentes semi-baladas e impactantes e gritantes declamações de independência e empoderamento, recuperou posse de sua arte para falar de acontecimentos pessoais, bruscos términos de relacionamentos e uma revisitação a todas as eras que já lhe acompanharam desde a estreia de “We Can’t Stop”, em 2013. Bom, todos nós sabemos que sua era Bangerz teve uma recepção mediana por parte da crítica profissional, sendo redescoberta anos depois como uma entrada digna de uma artista em busca de sua própria identidade. Entre altos e baixos, ela havia sim presenteado seus fãs com um lado nunca visto – e tudo caminhou para este momento.



Seja quando recua para solilóquios de solidão e de arrependimento, com o minimalismo reverso de “Golden G String” (um fechamento aplaudível para uma jornada intelectual e musical de densidade admirável), seja com a ácida ironia da potente “Bad Karma”, trazendo ninguém menos que a icônica Joan Jett e apaixonantes acordes da guitarra, Cyrus sabe com bastante clareza de que forma guiar sua produção. Ela tem a faca e o queijo na mão e todos os elementos que deseja à sua disposição, não pensando duas vezes antes de acrescentar uma ou outra camada que explana o detalhismo caprichoso das faixas.

O álbum abre com a abundância crítica de “WTF Do I Know” – uma das melhores canções que ela já nos entregou desde Breakout, ainda em 2008. Fazendo menções progressivas aos seus primeiros anos, abrindo espaço inclusive para a presença melódica e abafada de uma guitarra elétrica e de pandeiros pontuais, o único erro da track é ser rápida demais e passar em um piscar de olhos. A mesma utilização instrumental é redescoberta, desta vez guiada por sintetizadores noventistas, em “Gimme What I Want”, iteração que mais demonstra sua necessidade de ser dona do próprio nariz, em que “ou você me dá o que eu quero, ou eu mesma me dou”.

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Para aqueles não familiarizados com as tendências das quais Miley se nutre para suas composições, ela é afilhada de Dolly Parton e filha de Billy Ray Cyrus, que lhe apresentaram à potência profética do country e do americana. É por essa razão que, entre faixas que se isolam no rock, temos a pungência das cordas ressonantes do violão, como em “High”, cujo formulaico crescendo é ofuscado pelos melismas e pela rouquidão vocal de alguém que está sofrendo e que lida com isso de seu próprio modo. O mesmo acontece em “Angels Like You”, que, apesar da lírica on point, entra em conflito com o teor sonoro do restante do CD e parece reciclada quanto comparada a tantas outras aventuras ousadas – além de soar mais longa do que realmente é.



É notável como a performer drena o possível de um período extremamente pessimista: ela até mesmo cultiva certas influências europeias que se destinam à faixa mais arrepiante e bem produzida do álbum, “Night Crawling”. A evocativa letra nutre de aliterações e assonâncias que nos arremessam de volta para os anos 1970 e trazem uma exuberante química dividida com Billy Idol – movido pela guitarra e pelo eco do synth-rock que viria a se tornar tão majestosamente reverenciada nos anos seguintes (e reconquistando um espaço merecido numa ode mimética ao passado). Sua contraposição emerge com “Hate Me”, cujas transições calcam uma montanha-russa de emoções e notas.

Beirando o elegíaco e cruzando barreiras entre gêneros, Plastic Hearts é o álbum que consegue unir tudo o que amamos sobre Miley Cyrus – e o que ela vinha nos prometendo desde sua aparição surpresa alguns meses atrás. No final das contas, somos agraciados com bem mais do que pedimos e com rendições tão fantásticas que chegam a ser cruéis.

Nota por faixa:

1. WTF Do I Know – 5/5
2. Plastic Hearts – 4/5
3. Angels Like You – 2,5/5
4. Prisoner feat. Dua Lipa – 3,5/5
5. Gimme What I Want – 4/5
6. Night Crawling feat. Billy Idol – 5/5
7. Midnight Sky – 4,5/5
8. High – 3,5/5
9. Hate Me – 4/5
10. Bad Karma feat. Joan Jett – 4/5
11. Never Be Me – 4/5
12. Golden G String – 4,5/5

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