A história nós já conhecemos: um jovem mergulha numa jornada vingativa contra aqueles que destruíram sua família. Quando pensamos nessa premissa, uma lista interminável de filmes e séries aparece imediatamente à nossa frente – incluindo obras como ‘Kill Bill’, ‘Jonah Hex’, ‘O Regresso’ e tantos outros que, desde que o mundo se conhece por mundo, traçam uma linha bastante clara entre o bem e o mal.

E é partindo dessa ideia que Vingança & Castigo, o novo longa-metragem da Netflix, se constrói. A produção, que marca a estreia oficial de Jeymes Samuel na direção (apesar de ter comandado o curta-metragem ‘They Die by Dawn’ em 2013), a princípio não carrega uma originalidade marcante – mas o realizador consegue transformar um elenco de peso na força-motriz de uma épica aventura western que se tornou uma das entradas mais interessantes da plataforma de streaming este ano.

Aqui, Jonathan Majors, que emprestou suas habilidades performáticas para as ótimas séries ‘Lovecraft Country’ e ‘Loki’, encarna Nat Love, líder de uma gangue que tem um claro objetivo em mente: se livrar dos traumas que carrega desde criança, quando observou impotente o pai e a mãe serem brutalmente assassinados pelo temível Rufus Buck (Idris Elba). Entretanto, as coisas não são tão óbvias quanto parecem e Rufus havia sido encarcerado pelos oficiais locais para o resto da vida, colocando uma fachada pacífica para a controversa vida do protagonista. Quando Rufus é resgatado e perdoado de todos os crimes que cometera, cabe a ele fazer justiça com as próprias mãos e, aliado a um time talentoso, ele arquiteta um plano para derrotá-lo de uma vez por todas.



Majors conquistara nossa atenção anteriormente, mas talvez nunca de uma forma tão crua e tão crível quanto agora. Nat é um personagem delineado aos moldes dos heróis e anti-heróis que dominam o cenário mainstream desde o nascimento da arte cinematográfica – e mais: presta homenagem às personas eternizadas por lendas como Clint Eastwood e Henry Fonda sem deixar de imprimir uma característica diferenciada. Nat é a representação da comunidade negra e de todos os preconceitos que esse povo sentiu nos Estados Unidos dos séculos XIX e XX; todavia, não lidamos com uma trama meramente racial, e sim uma ácida análise de irmandade, confiança e lealdade que destila suas ironias ao longo de mais de duas horas que se desenrolam com fluidez invejável. Em contraposição, Majors divide os holofotes com a reverberação de Elba, que faz um retorno glorioso à forma como o complexo Rufus e uma densa backstory que se concretiza nos momentos finais do filme.

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É claro que os dois não são os únicos a nos cativarem desde os primeiros minutos – aliás, a dupla está muito bem acompanhada de atores e atrizes de ponta que permitem que a obra se transforme em uma explosiva amálgama dos mais variados gêneros de faroeste. Zazie Beetz se rende à envolvente e atrevida Stagecoach Mary, empresária e dona de um restaurante-bar que emerge como enlace romântico de Majors; Regina King prova novamente sua versatilidade ao dar vida à mortal Trudy “Traiçoeira” Smith, braço-direito de Rufus; o irretocável Delroy Lindo interpreta o xerife Bass Reeves, que deixa de lado todos os problemas que têm com Nat para ajudá-lo na caça ao antagonista; RJ Cyler e Edi Gathegi entram como os escapes cômicos da narrativa como a dupla Jim Beckwourth e Bill Pickett, digladiando com a aparição arrepiante de Lakeith Stanfield como Cherokee Bill.

Samuel se depara com um fértil terreno para fundir tramas múltiplas em um lugar; entretanto, em vez da temática universalista e histórica que aparecem em certos títulos que inspiraram o longa, a ideia é desfrutar da personalidade de protagonistas e coadjuvantes que têm algo para contar. Enquanto um ou outro carregam maior tempo de tela (o que é de se esperar, considerando a legião de artistas que aqui vemos), entendemos a relação entre cada com um imediatismo interessante, ainda que já saibamos o desenrolar dos arcos. De um lado, temos a afável inclinação ao western épico, ao faroeste blaxpoitation e à iconicidade de Fred Williamson, à brevidade da comédia e ao neo-western (mesmo que o conceito de neo não esteja presente da maneira mais óbvia possível).



THE HARDER THEY FALL (C: L-R): REGINA KING as TRUDY SMITH, IDRIS ELBA as RUFUS BUCK, LAKEITH STANFIELD as CHEROKEE BILL. CR: DAVID LEE/NETFLIX © 2021

As engrenagens da produção se encaixam de modo a convergirem para uma mensagem específica: a fotografia supervisionada por Sean Bobbitt e por Mihai Malaimare Jr. é emulativa em certos aspectos e faz menção até a Quentin Tarantino e a títulos autoexplicativos, mas não perde a chance de ousar em sequências de tirar o fôlego; a trilha sonora se afasta dos violinos e dos violões e encontra brechas para inflexões contemporâneas, como o rap, o trap e o R&B. E, no topo de tudo isso, a zona de conforto explorada pelo roteiro, também assinado por Samuel, foi apenas o modo encontrado para unir os elementos em uma competente e angustiante epopeia no Velho Oeste dos Estados Unidos.

Vingança & Castigo é mais uma adição bem-vinda ao catálogo da Netflix e nutre de uma voracidade artística e performática que nos conquista desde a chocante cena de abertura. Majors, Elba, King, Beetz e o restante do elenco destrincha os personagens que vivem e trilha um caminho cujo futuro pode trazer mais tramas a serem contadas.

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