A partir de fevereiro de 2012, mais precisamente durante sua apresentação no Super Bowl XLVI, Madonna começou a promover seu décimo segundo álbum de estúdio, um acrônimo para seu próprio nome intitulado MDNA. A produção era o primeiro compilado de originais desde 2008, quando havia lançado o conturbado Hard Candy, cuja recepção por parte da crítica não foi tão sólida quanto se imaginava. Retomando a parceria com William Orbit, que simplesmente havia ficado responsável pelo revolucionário Ray of Light, a performer mergulhava de cabeça no drástico retorno ao impactante pop do início de sua carreira, abrindo espaço para a forte influência do EDM através de 16 faixas e dois remixes. O resultado, todavia, foi bem aquém do esperado e se mostrou ainda mais oscilante e fragmentado que sua investida anterior – não pelo teor lírico, mas sim pela inexplicável produção que dividiu a narrativa em um tríptico sem pé nem cabeça.

Diferente do álbum predecessor, a artista se mostrou pronta para recuperar o fôlego e falar mais aberta e explicitamente sobre temas como amor e vingança – talvez o hiato de quatro anos e sua experiência diretorial com ‘W.E.’, que lhe rendeu um Globo de Ouro de Melhor Canção Original, tenha lhe feito bem. Em meio a uma estética que voltava a colocá-la no centro dos holofotes da controvérsia, Madonna opta por construir uma espécie de droga sintética cujo objetivo é viciar seus fãs – mas as escolhas, novamente, são equivocadas em grande parte das tracks. Em MDNA, que faz uma menção “mascarada” para o uso e os efeitos do ecstasy (MDMA), os ápices restringem-se mais aos materiais promocionais e à incrível capa do CD (que premedita as distorções e onomatopeias das quais ela se vale) do que às canções em si.


Enquanto quatro singles foram lançados nessa nova era, o mais famoso é, sem dúvida, a futurista “Girl Gone Wild” – surpreendentemente uma coesa construção aparatada por quatro compositores e três produtores. Madonna procura criar um pastiche de sua própria carreira ao abrir a música com um breve e ambíguo solilóquio cujas raízes se fincam em “Act of Contrition”: “eu sinto muito por ter te ofendido”, ela diz, pouco antes de falar que o que mais quer é “ser boa”. Entretanto, como já provou diversas vezes, ela não consegue evitar: ser má é a sua sina – e o que fez nos apaixonar por sua presença inegável e atemporal na indústria do entretenimento. De forma hipnótica, ela nos conduz por uma competente narrativa e certos usos explosivos do electro-dance que não conseguem ofuscar o repetitivo e extenuante refrão.

Esse deslize, talvez proposital, talvez acidental, mantém-se como o único elemento que une as outras duas partes da obra. Em “Gang Bang”, Madonna jura vingança contra um enlace romântico que lhe trouxe dúvidas e mágoas e que, agora, vai pagar por seus pecados até mesmo no Inferno – em um cíclico espectro que não tem fim. Em “Give Me All Your Luvin’”, o apreço pelos anos 1980 reflete as inspirações em Toni Basil, instigando uma suposta crítica que é pincelada pela momentânea presença de Nicki Minaj e M.I.A. (colocando-as ou tirando-as, o produto final seria o mesmo: infantiloide e datado). Em “I Fucked Up”, a progressão é exatamente a mesma, apesar do mid-tempo ser usado como força-motriz e encobrir com um teor reflexivo e apologético; “B-Day Song” é apenas mais uma reciclagem de tudo que ouvimos não apenas aqui, mas sim nos primeiros anos de sua carreira, procurando buscar os soubrettes ecoantes de Like a Virgin.

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A cantora, outra vez, parece não ter ideia do que está fazendo – o que é um infortúnio. MDNA, caso gerado através de uma cautela mais potente, poderia facilmente criar um paralelo entre passado e presente para um nome que nunca saiu da popularidade. No final das contas, somos deixados à mercê de referências jogadas em qualquer lugar, como é o caso da medíocre citação de Olivia Newton-John em “Superstar” (que passa longe de ser uma das piores faixas, apesar disso não significar muita coisa). Outra problemática encontrada reside no fato de Madonna não conseguir transformar arquiteturas pueris em ambiguidades ousadas, como fizera anteriormente: “Turn Up the Radio” se infiltra no período pós-discoteca e se sustenta por meros dezesseis segundos antes de se render a versos pobres e previsíveis; “I’m A Sinner” é tão calculável quanto a música supracitada e se prende a uma linearidade gritante.

Devo mencionar, não obstante, alguns dos pontos altos espalhados profusamente por essa jornada: na primeira parte, Madonna dá vida a uma interessante faixa, representativa da mais pura definição de EDM, “I’m Addicted”: ela nos convida para uma críptica e colorida aventura que atravessa as fronteiras da música e da arte – dentro do tempo que precisava ter e dos crescendos e reviravoltas que queríamos há algum tempo. “Masterpiece”, que integrou o longa-metragem mencionado nos primeiros parágrafos, é uma semi-balada elegíaca e evocativa que cria poesias envolventes e que, por isso mesmo, não tem nada a ver com qualquer coisa que tenha sido apresentada. “Beautiful Killer” estende seus braços para os acordes do baixo e do sincretismo fonográfico, uma pequena e não totalmente lapidada joia perdida num turbilhão incompreensível.


Madonna dá um tiro cego com MDNA e, quando os últimos segundos da última faixa dão adeus, ficamos com uma sensação agridoce, pelo fato do aguardado retorno da rainha do pop depois de quatro anos não ter entregado o que podia. Oscilante e acriançando, o álbum se volta mais para uma tentativa desesperada da performer se manter atenta às demandas da esfera musical – sendo que ela definitivamente não precisava disso.

Nota:

  • Girl Gone Wild – 2,5/5
  • Gang Bang – 3/5
  • I’m Addicted – 4/5
  • Turn Up the Radio – 2/5
  • Give Me All Your Luvin’ – 2,5/5
  • Some Girls – 2/5
  • Superstar – 2/5
  • I Don’t Give A – 1,5/5
  • I’m A Sinner – 1,5/5
  • Love Spent – 2,5/5
  • Masterpiece – 4,5/5
  • Falling Free – 3/5
  • Beautiful Killer – 3,5/5
  • I Fucked Up – 2/5
  • B-Day Song – 1/5
  • Best Friend – 0,5/5
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