Crítica | Rachel McAdams e Dylan O’Brien lutam pela sobrevivência no insano e divertido thriller ‘Socorro!’

Sam Raimi é um dos realizadores mais prolíficos e conhecidos do cenário contemporâneo, sagrando-se um dos gênios do terror contemporâneo. Ao longo de sua carreira, Raimi encabeçou inúmeras produções do gênero, como a trilogia original de ‘A Morte do Demônio’, o thriller sobrenatural ‘O Dom da Premonição’ e o aclamado ‘Arraste-me Para o Inferno’. Como se não bastasse, ele emprestou suas habilidades para a popular e prestigiada trilogia do ‘Homem-Aranha’, estrelada por Toby Maguire, além de retomar parceria com a Marvel Studios com ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’. Agora, o cineasta está de volta à sétima arte com o ambicioso thriller de sobrevivência tragicômico Socorro!’, que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 29 de janeiro.

A trama é centrada em Linda Liddle (Rachel McAdams), funcionária do Departamento de Planejamento e Estratégia de uma importante e conhecida multinacional que, mesmo não despontando com seus visuais, se mostra membro valioso da corporação com um trabalho magnífico. Com a morte do chefe, Linda se vê prestes a receber uma merecida promoção como vice-presidente, ainda mais tendo sido recomendada ao “herdeiro do trono”, o jovem Bradley Preston (Dylan O’Brien), pelo pai. Todavia, as coisas não saem como o planejado e Bradley, mostrando ser um machista insuportável e passivo-agressivo, escala outro membro da equipe para ocupar o cargo – levando-a a uma espiral de frustração e derrota.

Tentando provar seu valor mais uma vez, Linda é escalada para uma importante viagem de negócios ao lado de Bradley e seus companheiros de negócio. O que eles não imaginavam é que, durante uma forte tempestade, o avião em que estavam cairia no mar, levando-os para uma ilha deserta sem qualquer tipo de comunicação. Linda descobre que apenas ela e Bradley sobreviveram, encontrando no cenário idílico e recluso uma oportunidade para colocar seu chefe de volta aos eixos e mostrar quem, de fato, manda. Não ajuda muito que ela sempre nutriu de sentimentos fortes pelo jovem CEO, transformando paixão e raiva em um combustível potente e muito perigoso.

McAdams, tendo eternizado diversos personagens marcantes no entretenimento com títulos como ‘Meninas Malvadas’, ‘True Detective’ e ‘Spotlight: Segredos Revelados’, volta às telonas com um dos papéis mais deliciosos de sua carreira. Logo de cara, a atriz reitera sua incrível versatilidade performática ao mergulhar na complexa e irrefreável personalidade de Linda, mostrando-a como uma extrovertida e apaixonada trabalhadora que varre para debaixo do tapete as injustiças que enfrenta na empresa apenas para irromper em uma batalhadora com habilidades inestimáveis de sobrevivência – e que, outrora alvo de piadas de mau gosto, posa como uma espécie de “heroína” cujo controle acabou de ser reclamado.

A atriz encontra espaço de sobra para brilhar em cena e, mesmo dotada de falhas e cometendo erros propositais e inconsequentes, não conseguimos escapar do magnetismo que ela traz a cada uma das sequências, praticamente justificando as ações condenáveis de Linda a todo momento. O’Brien, por sua vez, rende-se a uma performance aplaudível como o odioso Bradley, fazendo questão de que suas atitudes controversas e preconceituosas recebam o carma que merecem – e o reafirmem como um dos melhores atores da geração, além de nutrir de uma química beligerante e envolvente com McAdams.

O escopo restrito que pincela os moldes de ‘A Lagoa Azul’ com vísceras, sangues e artimanhas e um apreço significativo pelos tropos do slasher não poderia ganhar vida com outro realizador além de Raimi. Reunindo a essência de cada uma de suas produções do gênero, o cineasta constrói uma jornada que explora não apenas a condição humana às adversidades da natureza e a forças incontroláveis, como chafurda nos intrínsecos instintos primitivos de cada indivíduo – como visto, por exemplo, no embate entre a ambígua empatia de Linda e o constante medo enraivecido que toma conta de Bradley. Não é surpresa que Raimi preste homenagens a obras muito populares, incluindo os já mencionados ‘A Morte do Demônio’ e ‘Arraste-Me para o Inferno’, bem como a animação ‘A Noiva Cadáver’ e uma releitura inesperada de ‘O Náufrago’.

Se o diretor acerta em cheio na condução da obra, os outros aspectos técnicos acompanham esse primor artístico que é levado aos cinemas: o roteiro de Damian Shannon e Mark Swift pode até degringolar nos momentos que precedem o terceiro ato, estendendo-se mais do que deveriam com diálogos desnecessários e descartáveis; todavia, a dupla faz um trabalho primoroso ao arquitetar uma tensão crescente que culmina em uma inesperada e propositalmente anticlimática reviravolta que prenuncia o vencedor dessa disputa sangrenta e interminável. A bizarra atmosfera é apoiada pela vibrante e por vezes sombria fotografia de Bill Pope e pela espetacular e teatral trilha sonora de Danny Elfman (pegando aspectos de incontáveis colaborações com Tim Burton para o resultado final).

Com Socorro!’, Sam Raimi revisita toda a filmografia que o colocou no centro dos holofotes, elevando o nível de absurdidade de maneira exponencial e sem limites, dando total liberdade para que Rachel McAdams e Dylan O’Brien se divirtam do começo ao fim. Trazendo referências clássicas a um escopo contemporâneo e que, de certa maneira, serve como espelho das imutáveis engrenagens sociais e hierárquicas, o diretor entrega mais um sólido longa-metragem que, com certeza, irá cair no gosto do público.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.