Crítica | Rainhas do Crime – Drama policial girl power da DC não atinge seu potencial

Crítica | Rainhas do Crime – Drama policial girl power da DC não atinge seu potencial

Nota:


DC Comics, 70´s Exploitation… e Melissa McCarthy

Com toda a atmosfera típica dos exploitations policiais da década de 1970, Rainhas do Crime é curiosamente baseado nos quadrinhos da DC Comics, em seu braço de novelizações mais adultas, a Vertigo. Além disso, a obra se vale muito do elemento girl power que conduz a narrativa, sendo verdadeiramente sua razão de existir.

Na trama, que se assemelha muito ao recente As Viúvas (2018), de Steve McQueen, esposas de criminosos resolvem pegar para si os negócios escusos de seus maridos, ascendendo assim ao topo da cadeia alimentar, e ao controle de toda uma organização criminosa.

Quem comanda a produção é Andrea Berloff, mais conhecida por seus ótimos trabalhos como roteirista em filmes como Straight Outta Compton – A História do NWA (2015), estreando na direção. O irônico é que Berloff se sobressai aqui como cineasta, ficando para trás quando o assunto é a adaptação do roteiro (também escrito por ela) em cima da ideia Ollie Masters e Ming Doyle, os criadores das HQs.

Berloff recria o cenário e a ambientação de forma minuciosa, dando frescor ao bairro nova yorkino conhecido como “Hell´s Kitchen” (a cozinha do inferno), muito frisado nos quadrinhos do herói Demolidor. Sua época de efervescência máxima foi nos anos 1970, onde diversas produções de baixo orçamento exploravam a criminalidade local, e onde a trama de Rainhas do Crime, cujo título original é justamente The Kitchen, tinha por obrigação se centrar. E ponto a favor, já que o local pulsa com tanta vida que nos transporta imediatamente no tempo, se tornando o personagem mais cativante do longa.

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O filme traz Melissa McCarthy em seu primeiro trabalho pós-indicação ao Oscar por Poderia me Perdoar? no início deste ano. A atriz interpreta Kathy, uma das três donas de casa, esposas de criminosos, que veem seus maridos irem em cana. Aproveitando a oportunidade e o descanso dos abusivos cônjuges, elas usam a brecha e tudo o que aprenderam para superá-los e irem mais além, clamando para si a posição de líderes da máfia local. Melissa, no entanto, entrega uma atuação automática e fica com a personagem menos expressiva.

Quem se destaca mesmo é Tiffany Haddish, humorista sensação que no papel de Ruby tem a chance de demonstrar parte de seu alcance dramático em uma performance visceral, mas que não dispensa boas gags e tiradas cômicas. Sua paixão exala das telas e serve como principal bússola para o público se envolver com esta história. Completando o trio protagonista, Elisabeth Moss (da série O Conto da Aia) vive a sofredora Claire, o saco de pancadas que dá a volta por cima e pega as rédeas de sua vida de volta – ela é a que possui o arco mais interessante, urgente e repleto de reviravoltas.

Rainhas do Crime até possui momentos enérgicos, com bons diálogos – em especial no que diz respeito à tensão de confrontos -, e uma boa premissa. Seu calcanhar de Aquiles, porém, é o fato de nunca conseguir se livrar da estigma de uma HQ, onde as situações ocorrem rápido demais, sem o tempo necessário para o desenvolvimento. Como resultado, termina com aquela típica narrativa de vídeo clipe, na qual não temos espaço suficiente para assimilar a gravidade de algo que acabou de ocorrer porque o corte já nos levou para outra cena. Trechos soltos funcionam em quadrinhos, os quais podemos contemplar durante quanto tempo quisermos. O ajuste é essencial entre mídias, e aqui parece que tal adequação não foi respeitada.

Assim, ficamos com o protótipo de uma boa ideia, que nunca flui com a profundidade esperada para se tornar um filme bem desenvolvido, com personagens e suas motivações bem exploradas – e sim com esboços divertidos de uma história em quadrinhos viva e em movimento.



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