Crítica livre de spoilers.
Rian Johnson tem um apreço significativo pelo gênero do mistério e encontrou uma forma de reafirmar a originalidade desse tipo de narrativas em 2019 com o lançamento do primeiro capítulo da franquia ‘Entre Facas e Segredos’. Apresentando o charmoso e sagaz detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) ao mundo e sagrando-o ao lado de outros icônicos personagens como Hercule Poirot e Sherlock Holmes, Johnson conquistou o público e a crítica e logo partiu para uma segunda iteração tão incrível quanto a original – ‘Glass Onion: Um Mistério Knives Out’.
Em seus filmes, o cineasta resolveu mergulhar na hipocrisia da high society, esquadrinhando as falsidades e as artimanhas de pessoas poderosas que não contavam com a inteligência de um dos detetives mais conhecidos do planeta – e que foram arremessadas em complexas trama de vingança e ressentimento. O que nos leva a 2025: Johnson havia anunciado um terceiro longa-metragem para a saga dois anos atrás e, assim que possível, revelou que Benoit voltaria para mais um intrigante e intrincado caso com ‘Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out’, que chega ao catálogo da Netflix no dia 12 de dezembro e que, como podíamos imaginar, mantém o impecável nível dessa aplaudível franquia.

Afastando-se dos vibrantes e expansivos cenários imponentes das incursões predecessoras, o realizador se apropria do denso catálogo de Agatha Christie para construir uma derradeira e profunda atmosfera sombria e quase sinestésica que transforma o enredo em um tour-de-force religioso e político com personalidades marcadas pelo trauma, pela culpa e pelo fundamentalismo. Aqui, Benoit atende um chamado para investigar o assassinato de um carismático e controverso padre chamado Jefferson Wicks (Josh Brolin). Líder da paróquia de uma pequena cidade, Jefferson era conhecido e adorado pelos membros da igreja, incluindo a devota Martha Delacroix (Glenn Close), o doutor Nat Sharp (Jeremy Renner), a advogada Vera Draven (Kerry Washington), a ex-violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny), o autor Lee Ross (Andrew Scott), o jardineiro Samson Holt (Thomas Haden Church) e o aspirante a político Cy Draven (Daryl McCormack).
Porém, o império do Monsenhor Wicks é colocado em xeque quando um jovem padre chamado Jud Duplenticy (Josh O’Connor) é enviado para a paróquia e percebe que o trabalho de seu superior é excludente, precário e problemático, deixando-o embriagado de poder ao acreditar ser a representação máxima de Deus na Terra e utilizando de seu status para controlar seu rebanho com falsas promessas e uma visão bastante retrógrada do mundo – impedindo que mudanças necessárias sejam feitas. Quando Wicks é alvo de um homicida, os olhos se voltam para o temperamento curto e explosivo de Jud, que se torna alvo de investigação por parte de Benoit e da chefe da polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) – desdobrando-se em uma teia de mentiras que esconde o verdadeiro culpado.

Johnson, retornando tanto para a cadeira de direção quanto para o roteiro, descreve um introspectivo épico que é reafirmado pelas engrenagens que compõe esse turbulento mistério – colocando altas expectativas para o mais novo caso de Benoit. E, mais do que nunca, o detetive se vê diante de becos sem saída e labirintos inescapáveis que colocam sua mente em xeque, principalmente para destituir o caráter espiritual que se apodera dos suspeitos (ainda mais quando uma câmera de segurança flagra o suposto corpo do Monsenhor saindo de uma cripta selada) e encontrar o aspecto que falta para encaixar as peças do quebra-cabeça.
É notável como o cineasta parece seguir os passos de Kenneth Branagh com sua saga centrada em Hercule Poirot, unindo razão e misticismo em um único lugar – mas aproveitando o espaço que tem para conduzir as cenas com um humor ácido e diálogos sardônicos que envolvem os personagens em uma loucura inexplicável que singra entre os “mistérios da fé” e uma artimanha muito bem pensada que envolve uma joia de família escondida há décadas. Dessa forma, ele escala Steve Yedlin para firmar uma fotografia opressiva e eliminatória que isola os protagonistas em meio a uma fé cega e autodestrutiva – e a necessidade humana de se apoiar no impalpável e no invisível para seguir em frente.

Craig reprisa mais uma vez seu papel como Benoit em mais uma incrível performance, dessa vez deixando que a humanidade por trás do detetive ganhe palanque significativo à medida que ele desembaraça um sangrento novelo de lã – e, como é de se esperar, o fabuloso elenco o acompanha com um trabalho admirável. O’Connor se despede da construção despojada em ‘Rivais’ para encarnar um padre cheio de arrependimentos e movido pela vontade de fazer do mundo um lugar melhor e encontrar luz nas trevas; Close, que já havia participado do recente ‘A Casa Torta’, retorna aos filmes de mistério em uma atuação impecável como Martha; e Brolin expande sua versatilidade performática como o odiável Monsenhor Wicks em uma das grandes atuações de sua carreira.
‘Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out’ é mais um acerto de Rian Johnson para seu expansivo cosmos detetivesco – e o que podemos considerar a melhor entrada de uma trilogia que continua a celebrar o gênero em questão e a mostrar que histórias boas ainda podem ser contadas das mais diversas maneiras. Ao longo de quase duas horas e meia, o diretor constrói uma carta de amor aos filmes de mistério sem se deixar levar por uma desmedida ambição e mostrando um lado que ainda não tínhamos visto dentro dessa irretocável saga.

