Crítica | Rose: Sandra Hüller é monumental em drama sombrio sobre o peso do patriarcado e dos estereótipos de gênero (Berlinale 2026)


Filme da mostra Competitiva do Festival de Berlim 2026

Depois da impactante interpretação em Anatomia de uma Queda, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, e da intensidade silenciosa de Zona de Interesse, Sandra Hüller retorna às telas com Rose, do austriaco Markus Schleinzer. Baseada em fatos reais, a obra reafirma o que já sabíamos: estamos diante de uma atriz monumental. Após um intervalo sem novos lançamentos, a expectativa cresceu; e Rose não apenas a justifica, como a amplia.

Ambientado no século XVII e filmado em um rigoroso preto e branco, o longa constrói uma atmosfera austera, quase documental, mergulhando o espectador em uma comunidade rural onde sobreviver já é um ato de resistência — entre o ataque de animais selvagens e a fúria do frio e das chuvas. A narrativa é linear, metódica, conduzida pela própria protagonista como narradora. Em voz off, Rose (Sandra Hüller) revela suas ambições, seus cálculos e seus riscos. Desde o início, sabemos que sua trajetória é movida por um desejo simples e radical: possuir um pedaço de terra, conquistar um lugar no mundo.

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Órfã, criada à margem das convenções sociais impostas às mulheres de sua época, a protagonista nunca internalizou completamente o “manual” da feminilidade. Para sobreviver e prosperar, assume a identidade masculina. Não se trata apenas de um disfarce, é estratégia de ascensão social. Como homem, ela trabalha a terra com a promessa de um dia comprá-la. Como homem, pode negociar, comandar, caçar, e inclusive matar um urso, gesto simbólico que  desmonta a crença na suposta incapacidade feminina para a força física, coragem ou liderança.

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A transformação física de Hüller é impressionante. A dureza do rosto, a cicatriz que a vida lhe impôs, a postura corporal contida, tudo contribui para essa ambiguidade que convence a comunidade. O que sustenta o filme, entretanto, é sua inteligência emocional. Rose não performa masculinidade como caricatura; ela a incorpora como ferramenta de sobrevivência. Sua “deformação”, que poderia condená-la à exclusão enquanto mulher, torna-se justamente o que viabiliza o engano social.

O pacto com o patriarcado, porém, cobra seu preço. Um fazendeiro se recusa a vender-lhe as terras, mas propõe uma barganha: trabalhar naquele pedaço de chão em troca da mão de uma de suas filhas. Rose aceita. O casamento com Suzanna (Caro Braun) é consumado por meio de artifícios, e ela engravida — porque, no fim, todos guardam algum segredo.. A esposa, inicialmente alheia à verdade, torna-se cúmplice quando descobre seu verdadeiro marido. Nasce entre elas uma solidariedade silenciosa: duas mulheres sustentando uma mentira para escapar de destinos ainda mais brutais.

O inevitável acontece quando, após um acidente — uma picada de abelhas que exige socorro imediato —, o corpo de Rose é revelado. A comunidade reage como se tivesse sido traída por uma blasfêmia. O julgamento constitui o clímax moral do filme. O discurso do juiz ecoa falas que ainda hoje ressoam em parlamentos e púlpitos: gênero é imutável, desafiar a ordem divina é pecado, a mulher tem um papel determinado por Deus. O texto remete à retórica contemporânea de setores religiosos conservadores, lembrando que o controle sobre o corpo feminino sempre foi sustentado por interpretações rígidas das escrituras bíblicas, corânicas ou outras tradições monoteístas.

Sandra Hüller no Festival de Berlim 2026

Rose dialoga com narrativas como Elisa & Marcela (2019), de Isabel Coixet, e A Fita Branca, de Michael Haneke, ambos em preto e branco e com evocação de um segredo maldito. Neste último, Markus Schleinzer trabalhou como diretor de elenco e incorporou bastante a atmosfera do renomado cineasta conterrâneo. O impacto dessas narrativas está na inevitabilidade da tragédia. Não há surpresa no desfecho. Sabemos que a vila não aceitará uma mulher ocupando o espaço de poder reservado aos homens. O que está em jogo não é apenas uma identidade secreta, é a ameaça estrutural ao patriarcado.

O filme explicita a inexistência de saídas reais para as mulheres daquele contexto: prostituição ou casamento, ambas submissões ao patriarcado, não uma escolha. Rose tenta uma terceira via através da ambição, o trabalho, a propriedade ao vestir calças e trabalhar melhor que muitos homens no campo, mas é punida. Sua escolha revela algo profundamente perturbador: para mulheres que ousam desejar autonomia, não há absolvição possível dentro da lógica patriarcal.

Formalmente austero, politicamente incisivo e sustentado por uma performance extraordinária de Sandra Hüller, Rose é um drama sobre identidade, poder e sobrevivência. Mais do que um filme de época, é um espelho desconfortável do presente. Ao narrar a história de uma mulher que precisou tornar-se homem para existir socialmente, o longa nos lembra que, em muitos aspectos, a estrutura que a condenou permanece assustadoramente intacta.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.