Depois da impactante interpretação em Anatomia de uma Queda, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, e da intensidade silenciosa de Zona de Interesse, Sandra Hüller retorna às telas com Rose, do austriaco Markus Schleinzer. Baseada em fatos reais, a obra reafirma o que já sabíamos: estamos diante de uma atriz monumental. Após um intervalo sem novos lançamentos, a expectativa cresceu; e Rose não apenas a justifica, como a amplia.
Ambientado no século XVII e filmado em um rigoroso preto e branco, o longa constrói uma atmosfera austera, quase documental, mergulhando o espectador em uma comunidade rural onde sobreviver já é um ato de resistência — entre o ataque de animais selvagens e a fúria do frio e das chuvas. A narrativa é linear, metódica, conduzida pela própria protagonista como narradora. Em voz off, Rose (Sandra Hüller) revela suas ambições, seus cálculos e seus riscos. Desde o início, sabemos que sua trajetória é movida por um desejo simples e radical: possuir um pedaço de terra, conquistar um lugar no mundo.
Órfã, criada à margem das convenções sociais impostas às mulheres de sua época, a protagonista nunca internalizou completamente o “manual” da feminilidade. Para sobreviver e prosperar, assume a identidade masculina. Não se trata apenas de um disfarce, é estratégia de ascensão social. Como homem, ela trabalha a terra com a promessa de um dia comprá-la. Como homem, pode negociar, comandar, caçar, e inclusive matar um urso, gesto simbólico que desmonta a crença na suposta incapacidade feminina para a força física, coragem ou liderança.

A transformação física de Hüller é impressionante. A dureza do rosto, a cicatriz que a vida lhe impôs, a postura corporal contida, tudo contribui para essa ambiguidade que convence a comunidade. O que sustenta o filme, entretanto, é sua inteligência emocional. Rose não performa masculinidade como caricatura; ela a incorpora como ferramenta de sobrevivência. Sua “deformação”, que poderia condená-la à exclusão enquanto mulher, torna-se justamente o que viabiliza o engano social.
O pacto com o patriarcado, porém, cobra seu preço. Um fazendeiro se recusa a vender-lhe as terras, mas propõe uma barganha: trabalhar naquele pedaço de chão em troca da mão de uma de suas filhas. Rose aceita. O casamento com Suzanna (Caro Braun) é consumado por meio de artifícios, e ela engravida — porque, no fim, todos guardam algum segredo.. A esposa, inicialmente alheia à verdade, torna-se cúmplice quando descobre seu verdadeiro marido. Nasce entre elas uma solidariedade silenciosa: duas mulheres sustentando uma mentira para escapar de destinos ainda mais brutais.
O inevitável acontece quando, após um acidente — uma picada de abelhas que exige socorro imediato —, o corpo de Rose é revelado. A comunidade reage como se tivesse sido traída por uma blasfêmia. O julgamento constitui o clímax moral do filme. O discurso do juiz ecoa falas que ainda hoje ressoam em parlamentos e púlpitos: gênero é imutável, desafiar a ordem divina é pecado, a mulher tem um papel determinado por Deus. O texto remete à retórica contemporânea de setores religiosos conservadores, lembrando que o controle sobre o corpo feminino sempre foi sustentado por interpretações rígidas das escrituras bíblicas, corânicas ou outras tradições monoteístas.

Rose dialoga com narrativas como Elisa & Marcela (2019), de Isabel Coixet, e A Fita Branca, de Michael Haneke, ambos em preto e branco e com evocação de um segredo maldito. Neste último, Markus Schleinzer trabalhou como diretor de elenco e incorporou bastante a atmosfera do renomado cineasta conterrâneo. O impacto dessas narrativas está na inevitabilidade da tragédia. Não há surpresa no desfecho. Sabemos que a vila não aceitará uma mulher ocupando o espaço de poder reservado aos homens. O que está em jogo não é apenas uma identidade secreta, é a ameaça estrutural ao patriarcado.
O filme explicita a inexistência de saídas reais para as mulheres daquele contexto: prostituição ou casamento, ambas submissões ao patriarcado, não uma escolha. Rose tenta uma terceira via através da ambição, o trabalho, a propriedade ao vestir calças e trabalhar melhor que muitos homens no campo, mas é punida. Sua escolha revela algo profundamente perturbador: para mulheres que ousam desejar autonomia, não há absolvição possível dentro da lógica patriarcal.
Formalmente austero, politicamente incisivo e sustentado por uma performance extraordinária de Sandra Hüller, Rose é um drama sobre identidade, poder e sobrevivência. Mais do que um filme de época, é um espelho desconfortável do presente. Ao narrar a história de uma mulher que precisou tornar-se homem para existir socialmente, o longa nos lembra que, em muitos aspectos, a estrutura que a condenou permanece assustadoramente intacta.



