Em 2021, Mason Thames e Ethan Hawke protagonizaram um dos terrores mais elogiados do ano – ‘O Telefone Preto’. Baseado no conto de mesmo nome de Joe Hill, o longa-metragem no apresentou a Finney Blake, um jovem menino que é raptado pelo serial killer conhecido como O Sequestrador. Preso no porão da casa do psicopata, Finney começa a receber ligações de um antigo telefone preto preso à parede, conversando com os espíritos das outras vítimas do assassino que ainda estão presas. Conseguindo arquitetar um plano que garante não apenas sua sobrevivência, mas a morte de seu algoz, Finney torna-se um herói local ao colocar um fim no reino de caos e morte do Sequestrador.
Quatro anos depois do sucesso crítico e comercial do filme, o diretor e roteirista Scott Derrickson anunciou uma aguardada sequência que chegou aos cinemas nacionais recentemente. Expandindo a mitologia criada pelo capítulo anterior e investindo mais esforços em incursões sobrenaturais, ‘O Telefone Preto 2’ encontra sucesso em não apenas remodelar a fórmula, como também em esquadrinhar a complexidade de seus personagens principais e coadjuvantes para garantir total atenção do público. Mergulhando em uma atmosfera quase sinestésica, Derrickon constrói uma sequência que vale a pena ser conferida e que nos envolve do começo ao fim.

A trama se passa em 1982, quase meia década depois da morte do Sequestrador (Hawke). Finney (Thames), lidando com um temperamento explosivo e com impulsos de raiva que o isolam de qualquer amizade, percebe que a irmã mais nova, Gwen (Madeleine McGraw), voltou a ter pesadelos constantes com estranhas mortes que aconteceram em meados dos anos 1950 no Acampamento Alpine Lake – o mesmo lugar que sua mãe trabalhou como monitora muitos anos atrás. Certa de que as visões e os sonhos têm relação com o Sequestrador, ela convence Finney e Ernesto (Miguel Mora), irmão de uma das vítimas do homicida, Robin, a viajar até o acampamento cristão para que possam investigar o que está acontecendo.
Não ajuda muito que, em alguns dos seus sonhos, Gwen conversa com uma versão mais jovem da própria mãe, indicando que o psicopata nutre de laços com a família há mais tempo do que imaginavam. E o fato de um telefone preto idêntico ao do porão do serial killer estar logo do lado de fora do acampamento não melhora o prospecto das coisas – logo revelando que o Sequestrador não apenas está de volta em uma forma espectral e vingativa, como foi responsável pelo brutal assassinato de três garotos em Alpine Lake (todos buscando alguém que possa encontrar seus corpos e livrá-los do sofrimento em um eterno purgatório).

O capítulo predecessor trouxe uma dosagem bem equilibrada entre terror e suspense, prestando homenagens a projetos similares e focados em cárceres privados e a iminência da tortura e da morte, e navegando por jogos psicológicos que causaram marcas profundas em Finney. Aqui, Derrickson, unindo-se ao corroteirista C. Robert Cargill, promove uma mudança de escopo ao abrir as portas para um cenário grandioso, mas igualmente solitário e opressivo. O cineasta nos leva à inospitabilidade de uma armadilha a céu aberto, um cemitério que ainda sangra com uma trágica história e cujas terras foram maculadas pelo pior lado do ser humano – e que ganha força com a arbitrária e elusiva fotografia de Pär M. Ekberg.
Enquanto Finney se vê novamente numa corrida contra o tempo e numa desesperada tentativa de salvar a irmã do ataque do Sequestrador, Gwen torna-se protagonista de seu próprio pesadelo ao ser arremessada em uma mistura de ‘True Detective: Terra Noturna’ e ‘A Hora do Pesadelo’, emergindo como uma reformulação das icônicas final girls que é atormentada a ponto de se render à insanidade. E, à medida que o enredo trilha seu caminho para um apoteótico clímax, Thames e McGraw se entregam a ótimas performances que auxiliam na expansão desse sangrento microcosmos – e é claro que o retorno de Hawke como o mortal vilão é preciso em cada uma das cenas em que aparece, transformando o astro em um demoníaco antagonista que não será impedido novamente de conseguir o que quer.

Ainda que os pontuais deslizes não tenham presença marcante para nos privar de uma aprazível experiência cinematográfica, o longa por vezes se vale de previsibilidades convencionais e um demasiado apreço por jumpscares – encontrando sucesso maior quando foca no suspense em vez do terror, como vemos em incríveis sequências envolvendo os espíritos das crianças mortas. Todavia, o resultado e ‘O Telefone Preto 2’ é mais positivo do que poderíamos esperar e justifica sua existência ao se equiparar à qualidade do capítulo inicial.

