Crítica | Se Eu Fosse Você 3 – Continuação da Franquia Busca Dialogar com Dilemas Atuais [Festival do Rio]

É seguro afirmar que a maioria dos brasileiros consumidores de cinema conhece a franquia ‘Se Eu Fosse Você’. Estrelada por Glória Pires e Tony Ramos, os primeiros dois filmes, lá do início dos anos 2000, abordava um panorama social em que um homem se colocar no lugar de uma mulher (e vice-versa) era uma conversa urgente e necessária em um mundo ainda bastante dual. Vinte anos depois, as relações sociais mudaram, expandiram, o mundo já não é mais tanto isto ou aquilo, há nuances e possibilidades, e há coisas muito mais urgentes para os gêneros conversarem do que a sensação de depilar os pelos. De olho nessas mudanças nos tempos que chegou ao circuito essa semana a terceira parte dessa história, a comédia brasileira ‘Se Eu Fosse Você 3’.

Helena (Glória Pires) e Cláudio (Tony Ramos) finalmente vão sair na tão sonhada nova lua de mel para a China, mas, mesmo animados, há certo receio de deixar a filha, Bia (Cleo Pires, de ‘O Velho Fusca’) por tanto tempo, mesmo ela estando em um relacionamento sólido com Aquiles (Rafael Infante, de ‘Um Pai em Apuros’) e tendo sua própria filha, Maria Clara (Valentina Daniel) para cuidar. O que eles não sabem é que Bia e Aquiles não estão na mesma página e discutem muito, sobretudo por causa de trabalho: Bia está super tensa com a chegada de uns críticos de gastronomia no restaurante onde é chef, enquanto Aquiles, bem menos preocupado com a vida, trabalha como guia de turismo em um parque de dinossauros e leva os dias com mais suavidade. Dessa rusga entre os dois, um raio cai, tal qual ocorrera com Helena e Cláudio, e agora Bia e Aquiles trocaram de corpos, e precisarão aprender os desafios de exercer a profissão do outro.

Exibido em sessão única no Festival do Rio 2026, ‘Se Eu Fosse Você 3’ acerta em não fazer dessa terceira parte uma mera passagem de bastão; ao contrário, os protagonistas originais estão ali, participam da história em um segundo plano, têm mais de uma cena e, a depender da cena pós-créditos, pode ser que uma nova aventura venha aí no horizonte.

O roteiro de Leandro Soares (da série ‘Nada Suspeitos’) parte de uma ideia boa – fazer a troca de gêneros na questão trabalhista, para sentir na pele como é ter as responsabilidades do outro. Entretanto, fica evidente o abismo que há entre os personagens: por um lado temos Bia, mãe solo jovem, chef do mais importante restaurante da cidade, que comanda uma equipe inteira e ainda tem que manter a qualidade do serviço, e, consequentemente, é colocada como a estressada na situação; por outro temos Aquiles, o típico homem livre leve solto, que trabalha como guia de turismo mas mais parece brincar o dia todo, se divertindo com tudo e sem nenhuma responsabilidade – e, se as tem, não é demonstrado no filme. O abismo entre eles não só deixa o relacionamento dos dois pouco crível ao espectador, como também torna a troca de corpos um desafio que pende mais pra um lado do que pro outro, afinal, visualmente num filme é muito mais desafiador aprender a ser chef de cozinha da noite pro dia do que aprender a fazer uma trilha.

Assim como sua personagem, Cleo Pires mantem o ritmo e o interesse na trama, mas é maior do que a história em si; por mais divertido que o filme possa ser num todo, a diretora Anita Barbosa poderia ter trabalhado melhor os conflitos e, principalmente, a resolução destes, equilibrando mais ambos os lados para que o espectador sentisse profundidade em ambos os núcleos.

‘Se Eu Fosse Você 3’ entretém, mas só.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.