Paper Girls é uma famosa e elogiada série de HQs escrita por ninguém menos que o lendário Brian K. Vaughan – cujo nome, caso não soe familiar, é responsável por trazer à vida histórias como ‘Runaways’, ‘Ex Machina’ e ‘Y: The Last Man’. A história acompanha um grupo de quatro meninas que entregam jornais em um pequeno bairro e, no Hallowen de 1988, são arrastadas para uma aventura no tempo que muda suas vidas para sempre e que as faz enfrentar seus medos mais profundos – e aqui não me refiro a medos palpáveis, e sim ao prospecto do que o futuro lhes reserva caso não façam alguma coisa a respeito.

Anunciada em 2019, a adaptação televisiva supervisionada pela Amazon Studios prometia ser uma das grandes apostas do gênero sci-fi para o verão estadunidense, trazendo Vaughn como um dos produtores executivos e Stephany Folsom na criação da obra (cuja filmografia inclui ‘Toy Story 4’ e ‘Thor: Ragnarok’). Apesar das boas intenções, é notável como a primeira temporada do show parece deixar de lado um dos elementos mais importantes de qualquer narrativa audiovisual: a emoção. Ao longo de oito curtos episódios, é possível perceber uma frenética necessidade de aglutinar reviravoltas constantes que não permitem que os espectadores se conectem com as protagonistas e naveguem em um excessivo universo através de cronologias infindáveis que parecem não ter um destino conciso. Entretanto, é preciso comentar sobre como alguns dos elementos contribuem para que fiquemos indagados com o que vai acontecer.


Folsom tem uma visão bastante clara do que quer fazer: arquitetar um enredo que tenha começo, meio e fim e que tenta não deixar pontas soltas – talvez um gancho aqui e ali para ser explorado em possíveis temporadas futuras. Logo, é apenas óbvio que o roteiro do episódio piloto, assinado por ela, se inicie com a apresentação das personagens de forma quase solene, como se premeditasse os eventos consecutivos.


Temos Erin Tieng (Riley Lai Nelet), uma jovem asiática que acabou de se mudar para o bairro e resolveu entregar jornais para ajudar a debilitada mãe em casa – até perceber que as coisas não seriam tão fáceis quanto imaginava. Em sua primeira madrugada, ela enfrenta problemas e é auxiliada por Mac Coyle (Sofia Rosinsky), uma garota sem papas na língua e que não leva desaforos para casa; Tiffany Quilkin (Camryn Jones), que utiliza sua sensatez e seu senso de segurança para proteger a si e às outras; e KJ Brandman (Fina Strazza), que posa como uma amigável e calma menina – mas que também enfrenta inúmeras desavenças com o decorrer da trama.

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Quando pensamos em episódios pilotos, é necessário que as mentes criativas por trás do capítulo foquem em construir laços com o público, levando-o a comprar a ideia vendida e se deixar guiar pela química e pelo relacionamento dos personagens. O problema é que isso não acontece: o quarteto supracitado é arrastado para uma espécie de dobra temporal que as arremessa para longe da realidade a que pertencem, transportando-as para um futuro desconhecido. Mais do que isso, elas estão sendo caçadas por facções de viajantes no tempo, uma delas liderada pela Prioresa (Adina Porter) – e as múltiplas ideias jogadas na tela se aglutinam em um frenesi inexplicável e cansativo.

Leva um tempo até que Folsom e seus colegas consigam arrumar o ritmo – mais ou menos uns dois episódios. A partir daí, é notável como a exuberância de cores e de montagens fragmentadas se reconcilia com as mensagens promovidas pela série, que são de importância essencial para compreendermos os desejos e os objetivos das personas. Erin, inclusive, se encontra com sua versão mais velha (interpretada pela sempre ótima Ali Wong), em uma mixórdia de ressentimento, frustração e sonhos perdidos, ainda mais quando percebe que o futuro que imaginou é muito diferente. Mac Coyle, por sua vez, enfrenta o trágico prospecto de uma morte prematura e não sabe como lidar com a informação ou como se esquivar de um destino que parece estar talhado pelo universo.


Certas escolhas estéticas seguem as fórmulas do gênero de que se vale, mas partem de um princípio prático e funcional, que não pretende reinventar a roda, e sim utilizar o que já existe para compor esse cosmos. Porém, o que mais serve como força-motriz para acompanharmos as aventuras das protagonistas é o próprio elenco, que vende os complexos laços determinados entre si em uma celebração do que significa crescer e de que forma o amadurecimento compulsório pode trazer dificuldades para o entendimento da vida.

Paper Girls tem seus erros, mas isso não quer dizer que não seja uma série divertida. Há muitos excessos a serem aparados aqui, mas a adaptação do Prime Video consegue entregar o que promete e resgatar a essência dos quadrinhos originais – preparando o público para um futuro recheado de reviravoltas.


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