Quando Sex Education estreou ainda em 2019, jamais poderíamos imaginar o sucesso descomunal que faria tanto entre a crítica especializada quanto entre o público. Criada por Laurie Nunn, a produção, assim como títulos como ‘A Mentira’ e ‘Meninas Malvadas’ haviam feito em suas respectivas décadas, revitalizou o gênero da comédia adolescente de uma forma bastante interessante, divertida e crua, analisando a vida sexual e as descobertas da adolescência dos alunos de um colégio inglês chamado Moordale – quebrando tabus sobre orientação sexual, identidade de gênero e etarismo.

Em seu terceiro ano, a série transformou-se em um dos melhores títulos da Netflix e do cenário do entretenimento contemporâneo, incluindo performances estelares de um elenco de ponta e incursões técnicas e artísticas de tirar o fôlego. Desde o episódio piloto, Nunn demonstrou uma completa despreocupação temática em prol da importância de se discutir sobre sexo em um período marcado pelo obscurantismo fanático do retrógrado conservadorismo social, motivo pelo qual ascendeu a uma singela perfeição que não merece passar longe dos nossos radares. E agora, à medida que os protagonistas amadurecem em um turbilhão de emoções, problemas pessoas e conflitos geracionais, o show trilha o mesmo caminho e, sem sombra de dúvidas, cairá, mais uma vez, no gosto dos espectadores.

Depois de uma conturbada segunda temporada que revirou o cotidiano dos nossos protagonistas, as coisas voltam a esquentar em Moordale: Otis (Asa Butterfield) envolve-se em um secreto e controverso enlace casual com Ruby (Mimi Keene), a garota mais popular do colégio, enquanto Eric (Ncuti Gatwa) e Adam (Connor Swindells) navegam na turbulenta maré de um recente relacionamento que oscila entre as alegrias do novo amor com o enfrentamento de estigmas que acompanham seus arcos de descoberta e aceitação; de outro lado, Maeve (Emma Mackey) permanece isolada em sua bolha introspectiva à medida que se afasta de Otis e se envolve com o misterioso Isaac (George Robinson), desenvolvendo laços que explodem em um vórtice de mentiras e desconfianças.



É claro que, a princípio, o número exponencial de tramas e subtramas pode parecer denso demais para ser tratado com o respeito e a cautela que merecem – mas Nunn sabe como trabalhar com cada uma delas com paixão irretocável. Aliando-se às linhas principais, temos a forte presença de outros personagens que lidam com seus próprios problemas e incrementam o potente microcosmos da série – como Jean (interpretada pela sempre incrível Gillian Anderson), que engravidou de seu breve envolvimento com Jakob (Mikael Persbrandt) e decidiu manter o bebê, abalando as estruturas de uma casa já marcada por certos traumas e inconstâncias familiares; ou também com a chegada da nova diretora da escola, Hope Haddon (Jemima Kirke), que se revela como uma tirana passiva-agressiva que defende um rígido controle do corpo discente.

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Episódio a episódio, é notável como o roteiro atinge um potencial esplêndido e que faz algo muito difícil no escopo audiovisual: manter sua qualidade sem se valer do pedantismo. Por um lado, os tópicos apresentados e explorados já foram vistos em construções similares; por outro, nunca foram tratados com tamanha franqueza quanto aqui. Percebe-se a preocupação em cultivar um terreno que celebra a infinita diversidade do elenco, trazendo causas LGBTQIA+ ao mainstream – incluindo duas pessoas não-binárias -, debates pungentes sobre depressão e ansiedade, discussões sobre mecanismos de enfrentamento de traumas e a livre expressão da entidade mental humana e até críticas à burocracia tradicionalista do sistema de ensino atual (que se aplica a diversos países, não só ao representado na série).

Cada uma das engrenagens encaixa perfeitamente a outra, sendo guiadas por escolhas estéticas originais e ousadas que prestam homenagens a dramédias dos anos 1980 e 1990, por exemplo. Aliás, é preciso dizer que, apesar do tempo presente ser marcado por objetos do dia a dia, como os celulares, a narrativa que se desenrola quebra as barreiras do espaço-tempo – posicionada em uma espécie de dimensão alternativa que atravessa épocas e demonstra uma duradoura importância em meio a produtos descartáveis e esquecíveis. O enquadramento e a fotografia da terceira temporada se mantém firme numa elegância apaixonante, que preza pelo proposital excesso de simetria, em oposição às atribulações que cercam a vida dos personagens. A paleta de cores migra, numa fluidez surpreendente, a leveza dos momentos cômicos à sobriedade das revelações epifânicas e cruéis, como o embate entre Maeve e Aimee (Aimee Lou Wood), ou a briga entre Otis e Jean.



Sex Education retorna do melhor jeito possível com episódios tocantes, avassaladores e hilários – tudo ao mesmo tempo. Para além de entregar o ciclo mais sólido de sua breve existência, o show continua tão excêntrico quanto sua estreia há alguns anos e prova que é admirável por tratar com naturalidade aspectos da vida que são vistos com maus olhos por aqueles que não aceitam a si mesmos.

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