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Crítica | Shih-Ching Tsou faz uma fabulosa estreia diretorial com a dramédia ‘Garota Canhota’ [Mostra SP]


Filme exibido na 49ª Mostra de São Paulo.

Selecionado como o representante de Taiwan para o Oscar 2026, Garota Canhota é uma preciosidade fílmica que encontra sucesso justamente em sua sutileza. O drama dirigido por Shih-Ching Tsou acompanha uma família disfuncional que se muda para um apartamento no centro de Taipei para recomeçar após uma série de desventuras e de atritos entre a matriarca Shu-Fen (Janel Tsai) e suas filhas, a impetuosa I-Ann (Shih-Yuan Ma) e a doce I-Jing (Nina Ye).

Abrindo uma barraquinha de mercado noturno na vibrante e iluminada cidade, Shu-Fen tenta encontrar motivação em meio a um ciclo de melancolia e de tédio que a força a enfrentar as incontáveis decisões erradas que tomou para ajudar o ex-marido e o fato de sua filha mais velha não ter colocado a própria vida nos eixos – tendo abandonado a escola e sem prospecto de voltar para entrar em uma faculdade. Esporadicamente ajudando a mãe no pequeno negócio, I-Ann faz o que pode para ajudar em casa e cuidar de I-Jing, cuja divertida honestidade a deixa sem papas na língua para falar o que pensa e para, de alguma maneira, tornar-se visível aos olhos da mãe e da irmã mais velha.



Tsou nos convida para uma íntima jornada cujo foco é a família – e faz isso com maestria inegável ao não romantizar os laços entre mãe e filha, ou até mesmo em outras configurações, e garantir um realismo duro e categórico. A ideia aqui é navegar pelos conflitos intergeracionais que parecem não se diluir. Enquanto Shu-Fen e I-Ann disputam por uma hierarquia que não está em debate e que, à medida que a narrativa se desenrola, esconde um segredo que há muito foi guardado para a “preservação da honra” da família, é mediado pela presença de I-Jing. A criança, inclusive, tem seu próprio conflito quando sofre represália por parte do avô por ser canhota, ouvindo afirmações de que a mão esquerda é a “mão do demônio” – compelindo-a a desassociar da compreensão de quem realmente é.

A diretora encontra sucesso em mergulhar em incursões gerativistas para construir o arco de I-Jing, de longe a melhor personagem da trama. Guiada pela irretocável performance de Ye, a protagonista percebe o mundo ao seu redor, incluindo os obstáculos enfrentados pela mãe e pela irmã, à medida que lhe é mostrado, fazendo inferências de causalidade e consequência próprias de uma criança. Ora, se a mãe não consegue dinheiro para deixar as contas em dia e sustentar a barraquinha de comida, e se a loja de penhores dá dinheiro em troca de coisas valiosas, por que ela não pode fazer o mesmo? E se a mão que usou a vida inteira para escrever e desenhar é maligna, então por que não culpá-la por escolhas equivocadas?

Os profundos arcos são cortesia do trabalho entre Tsou e Sean Baker, que saiu vitorioso do Oscar com quatro estatuetas, incluindo Melhor Filme, por seu trabalho em ‘Anora’. Mesmo encontrando controvérsia pela construção da protagonista em seu elogiado longa-metragem, Baker mostrou suas habilidades para construir dramédias, dosando a austeridade e as quebras de expectativa com comprometimento ímpar. E, dessa maneira, a dupla consegue esquadrinhar a complexidade de cada uma das personagens principais de modo a torná-las universais para o público, mesmo inseridas em um contexto específico pautado na cultura asiática. Ato a ato, a dinâmica entre elas se torna mais intrincada, aumentando as tensões até um potente clímax que é envolvido em uma inesperada reviravolta.

Baker também fica responsável pela montagem, apostando em uma composição que se torna mais frenética conforme adentramos o cotidiano de Shu-Fen, I-Ann e I-Jing. E, ao fornecer a dinâmica necessária para impedir o público de desviar o olhar das telonas sequer um minuto, ele permite que a sóbria realidade a que o núcleo familiar está inserido se torna mais palpável do que já é pela fotografia assinada por Ko-Chin Chen e Tzu-Hao Kao, investindo em uma estética quase documental e hiper-realista. A cereja do bolo vem com excelentes rendições performáticas que partem de artistas que abraçaram com carinho e respeito suas personagens – e faz-se necessário comentar a fabulosa presença de Tsai e Ma, confinadas a um jogo psicológico que precisa ser resolvido o mais rápido possível.

Garota Canhota é um grande acerto da Netflix e da parceria firmada entre Tsou e Baker – explorando os meandros de uma família cuja salvação vem com um empoderamento necessário e mandatório, emancipando seus membros de um passado que não vale mais a pena ser remexido. Selecionado como a indicação taiwanesa ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o longa encontra beleza em uma cândida e cautelosa simplicidade.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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