Cuidado: spoilers à frente.
Após cinco temporadas que se estenderam por quase uma década, a popular e elogiada série de ficção científica ‘Stranger Things’ chegou ao fim – e encontrou encerramento de maneira frustrante e agridoce.
Criada pelos Irmãos Duffer, a original Netflix transformou-se em um sucesso sem precedentes que angariou fãs ao redor do mundo, sagrando-se um zeitgeist do cenário do entretenimento atual ao reunir tropos do sci-fi, do terror e até mesmo da comédia dos anos 1980 em um universo novo, expansivo e muito vibrante. Acompanhando as aventuras de Eleven (Millie Bobby Brown), uma jovem com poderes psíquicos que consegue fugir de seu cárcere ao se ver na pequena cidade de Hawkins, Indiana, o projeto caiu no gosto da crítica e do público, revolucionando a si próprio à medida que nos preparava para um antecipado finale.
Entretanto, ainda que tenha encontrado uma forma de abraçar os convencionalismos para uma atmosfera reconfortante e emulativa, o último episódio da série é uma sucessão de covardias e escolhas preguiçosas que não apenas não faz jus à mitologia arquitetada durante esta última década, mas a renega a ponto de transformá-la em uma convergência de ocasionalidades que desperdiça seus melhores aspectos. Por mais que os Duffer, responsáveis tanto pela direção quanto pelo roteiro, embelezem as telinhas com uma carismática condução e com efeitos especiais que encantam os espectadores, é impossível não pontuar os furos de roteiro que acompanham os personagens e a falta de cautela para garantir que cada uma das incontáveis tramas tenha um encerramento aprazível e coeso.
Após os eventos do episódio anterior, nosso grupo de heróis adentra o Mundo Invertido uma última vez para derrotar Vecna (Jamie Campbell Bower), visto que agora eles possuem um trunfo: ao descobrirem que o grande vilão da série habita uma espécie de ermo planetário que está em rota de colisão com a Terra, a ideia é destruir a ponte que une esses dois cosmos assim que as doze crianças raptadas pelo antagonista – que incluem Holly (Nell Fisher) e Derek (Jake Connelly) – forem resgatadas. Para tanto, eles arquitetam um complexo plano que se divide em algumas partes: Eleven, Kali (Linnea Berthelsen) e Max (Sadie Sink) unem suas forças para navegar pelas memórias de Vecna, enquanto Hopper (David Harbour) e Brett (Murray Bauman) preparam os detonadores para destruir a ponte de uma vez por todas.
Enquanto isso, Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo), Nancy (Natalie Dyer), Jonathan (Charlie Heaton), Steve (Joe Keery), Will (Noah Schnapp), Joyce (Winona Ryder), Robin (Maya Hawke) e Lucas (Caleb McLaughlin) conseguem encontrar um ponto de encontro entre o Mundo Invertido e a dimensão habitada por Vecna, enfrentando o Devorador de Mentes, resgatando as crianças e pondo um fim na mente coletiva que se firmou entre ambas as criaturas – e, como poderíamos imaginas, as coisas dão certo. Isto é, até todos voltarem para o Mundo Real e Eleven se sacrificar para impedir que a maligna Dra. Kay (Linda Hamilton) dê continuidade ao plano de reunir jovens mentes psíquicas como arma de guerra. Mas não se preocupem: o tom tristonho logo dá espaço para uma esperançosa conclusão que não só funciona como o fechamento de um ciclo, mas como uma carta de amor aos fãs que acompanharam essa aventura desde o princípio – ou, pelo menos, era o que os criadores acreditavam estar fazendo.
Como já mencionado, o principal problema do series finale (e da 5ª temporada como um todo) é o fato de toda a complexa mitologia ter sido varrida para debaixo do tapete, transformando Vecna, que se beneficiou de uma estreia arrepiante na quarta iteração pela presença irretocável de Bower, em um vilão esquecível, cujos emblemáticos poderes e cujo caos causado em Hawkins não serviram de nada, nem mesmo para aprofundar os arcos dos heróis. A batalha final entre ele e Eleven é tão momentânea e efêmera que se transforma em uma faca de dois gumes, acertando nos aspectos técnicos e se esquecendo de tudo o que eternizou Vecna como uma espécie de divindade maligna.
O roteiro, apoiado em mais repetições e em frenéticas resoluções, não arrisca como deveria e sequer pensa em sacrificar, de fato, personagens – renegando uma catarse merecida para uma das maiores séries da atualidade a fim de promover um final feliz tão previsível que chega a nos arrancar algumas risadas de frustração. Ademais, Hamilton, Connelly e Vickie (Amybeth McNulty) são apenas alguns dos nomes esquecidos pela narrativa e jogados na obscuridade, tendo sido preparados como partes importantes do enredo apenas para desvanecerem no esquecimento. Em contrapartida, é notável como Sink e McLaughlin encontram uma conclusão em bonança, reiterando a ótima química que fomentaram desde que seus arcos se cruzaram, enquanto Hawke, Keery, Dyer e Heaton desfrutam de um singelo e emocionante reencontro em uma das cenas mais belas da temporada.
A duração do último capítulo é injustificável, visto que toda a ação principal ganha palanque na primeira hora, deixando tempo em demasia para que o melodrama novelesco tome conta da segunda metade e escorregue várias vezes no ritmo. E, como se não bastasse, as pontas soltas e as ambiguidades são ignoradas em prol de escolhas “de última hora” que desnivelam dinamismo e até mesmo originalidade.
‘Stranger Things’ trilhava um ótimo caminho criativo desde sua estreia, nos mantendo ansiosos temporada a temporada; porém, acompanhando uma espécie de “maldição” de tantas outras produções originais da Netflix, a quinta temporada se rendeu a uma tristonha fadiga criativa que se resume a todos os erros cometidos pelo series finale – e que nos leva a ficar pensando que o episódio mais aguardado de todos poderia ter sido muito melhor do que o que nos foi mostrado.



