Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

O fim da segregação e das Leis de Jim Crow podem até ter “eliminado” a separação legalizada que distinguia negros de brancos nos Estados Unidos. A emblemática assinatura do presidente Lyndon Johnson, que determinava a Lei dos Direitos Civis de 1964 inspirava um novo tempo, onde a apropriação cultural e uma hegemonia caucasiana abririam espaço para um país mais plural e diversificado. Só que não. E em um contexto contemporâneo onde negros ainda lutam para ter suas raízes e tradições celebradas e devidamente respeitadas, Bad Hair é um thriller racial oitentista com humor negro que explora, de maneira hiperbólica, os perigos de sufocar a identidade de um povo.

De maneira bem categórica, o terror de Justin Simien, o mesmo responsável pelo aclamado Cara Gente Branca, traz um grupo de mulheres negras que trabalham em uma espécie de MTV voltada para o público negro. Com a iminente chegada dos anos 90, uma reinvenção na grade de programação e em seus Vjs se faz necessária, a fim de tornar os conteúdos produzidos mais atraentes para as comunidades caucasianas. A mudança de direção implica em uma profunda troca de identidade, onde a recente tendência de apliques costurados transformam belos cabelos afros em longas madeixas lisas ao melhor estilo indiano.

Essa apropriação cultural tratada em Bad Hair ganha ainda um elemento fantástico, que à primeira instância promove um levantar de sobrancelhas por parte da audiência. Fazendo uma mescla com antigos contos folclóricos africanos, a produção toma a premissa de uma de suas histórias e projeta holofotes grandiosos, fazendo desses belos e – aparentemente – inofensivos apliques, uma espécie de feitiçaria assassina. Trocando em miúdos: Os belos apliques lisos se alimentam de suas próprias donas, possuindo-nas de forma bem demoníaca. 

Mas o que poderia ser, logo de cara, uma bizarra história sobre cabelos assassinos, na verdade representa um peculiar e genoíno relato sobre os perigos da apropriação cultural e sobre o roubo de identidade. Compreendendo a profunda culturalidade enraizada nos fios crespos e cacheados, Simien explora uma dialética semelhante a de Cara Gente Branca, levando a audiência a dimensionar o impacto psicológico que a eliminação das raízes de um povo pode acarretar na sua perpetuidade. 

Aproveite para assistir:



Brincando ainda com o gênero, o cineasta explora o humor de maneira ácida e pontual, trazendo Lena Waithe (Master of None) ao seu melhor estilo, caricata e autêntica, roubando as atenções a cada aparição nas telonas. Ao seu lado, Laverne Cox simboliza a representatividade em Bad Hair, que ainda resgata o nosso Dawson – James Van Der Beek – os catores Usher e Kelly Rowland a ex Miss América e atriz Vanessa Williams. Com um elenco que em si já representa a mesma pluralidade que a própria narrativa explora com grandeza, o longa é uma inusitada experiência que se apropria de metáforas e figuras de linguagem para abordar uma temática tão atual.

Com figurinos nostálgicos que exploram a diversidade de tons e padronagens que a moda dos anos 80 traz com tanto vigor, o filme ainda é uma deliciosa viagem no tempo, nos levando a um passeio onde a MTV ditava as tendências e a música black trazia em si um R n’ B bem característico, que instantaneamente nos remete ao excepcional trabalho do polêmico Bobby Brown. Com efeito visuais bem executados que ajudam a dar vida às cenas de terror mais intensas, Bad Hair é tudo o que você jamais esperaria ver nos cinemas, mas nunca precisou tanto como agora. 

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