A Apple TV+ não costuma errar com suas produções originais – e, desde seu surgimento, nos agraciou com inúmeros clássicos contemporâneos da televisão, como o drama jornalístico ‘The Morning Show’, a ovacionada comédia esportiva ‘Ted Lasso’ e o suspense sci-fi ‘Ruptura’ (todas aclamadas pela crítica e angariando uma legião de fãs ao redor do mundo). Todavia, mesmo em meio a tanto sucesso e a tanta originalidade, volta e meia a plataforma de streaming escorrega aqui e ali com narrativas um tanto convencionais ou ambiciosas demais para serem levadas a sério.
Esse é o caso do mais recente suspense dramático da plataforma: ‘Cortina de Fumaça’ é um arrojado drama criminal que parte de uma premissa interessante, mas que não alcança seu pleno potencial (ao menos nos episódios lançados até então). Contando com Taron Egerton recém-saído de seu ótimo trabalho em ‘Bagagem de Risco’, e Jurnee Smollett em uma bem-vinda rendição, a trama acompanha dois investigadores criminais que investigam uma série de incendiários criminosos que vêm aterrorizando a cidade de Umberland. Navegando entre as atribulações de um mundo que esconde mais do que deveria e lidando com dramas pessoais, os dois percebem que podem estar lidando com um perigoso psicopata com intenções mais cruéis do que imaginavam.

A trama é inspirada no podcast Firebug, que conta os crimes do incendiário John Leonard Orr, e parte de um escopo bastante conhecido e que, mesmo assim, traz ares de novidade por trazer à luz um outro ângulo da psicopatia extrema. Em vez de apostar em serial killers, a série criada por Dennis Lehane traz um outro tipo de distúrbio homicida que explora as camadas mais obscuras da mente humana – e de um indivíduo marcado por um desespero silencioso e mortal. Todavia, Lehane carrega essa narrativa com uma espécie de sarcástica ironia que traz certa leveza à narrativa, entrando em contraste maior com as cenas de maior tensão.
Aqui, Egerton interpreta Dave Gudsen, um dos investigadores responsáveis pelo caso que já se espalha para dezenas de crimes – e que, utilizando sua experiência prévia como bombeiro, torna-se um elemento de importância significativa para a investigação. Como se não bastasse, ele utiliza seu tempo livre para trabalhar em um romance de mistério que parte de sua própria vivência e que, de maneira inesperada, o auxilia no caso que está em suas mãos. Divertindo-se no papel, Egerton reitera seu espaço em meio a produções do gênero e mostra que sempre pode se transmutar dependendo do escopo em que se encontra. E, em medida muito parecida, Smorlett faz um trabalho igualmente sólido como a Detetive Michelle Calderon, que nutre de uma determinação irrefreável para encontrar o culpado – por mais que seu ávido desejo às vezes a deixe cega pelo sucesso.

A dupla rende-se a performances incríveis e que, no final das contas, funcionam como o melhor aspecto da atração, abrindo espaço para que eles se divirtam através de uma química bastante presente – e ambos são acompanhados de nomes como Rafe Spall, Ntare Guma Mdbaho Mwine, Hannah Emily Anderson, Greg Kinnear e outros, cada qual tendo seu momento de brilhar. E, enquanto o corpo de atores nos guia através do enredo, é notável um desbalanço no tocante aos aspectos técnicos, que apostam fichas em tropos bastante conhecidos e não fazem nada além do óbvio, pincelando aqui e ali diálogos previsíveis com metáforas bem-intencionadas. Para tanto, Lehane escala a ajuda de Kari Skogland e Joe Chappelle para comandarem os dois capítulos de abertura, que se apoiam na claustrofobia de um crescente mistério através de planos que tanto refletem a os laços entre os protagonistas quanto o abismo que os separa da verdade – e com o término do segundo episódio, essa ambiguidade torna-se mais palpável.
Certas escolham têm objetivo claro, mas que não se concretiza como deveria, deixando espaço para que fórmulas despontem em várias ocasiões – e a duração das iterações também não auxilia na melhora do ritmo e dos excessos. Entretanto, se formos capazes de olhar para além dos equívocos, é bem provável que possamos nos divertir com um produto cujo maior valor é o do entretenimento e em virtude de atuações que funcionam na maior parte do tempo.

Um dos elementos de interessante potencial foi o cliffhanger vindo com o segundo episódio, virando o tabuleiro de cabeça para baixo e mostrando que, de fato, ninguém está a salvo – e mostrando que o time criativo não tem medo de se arriscar com investidas inesperadas. Agora, é só esperarmos para ver o que ‘Cortina de Fumaça’ ainda tem a oferecer aos espectadores – e torcer que valha a pena.
