A carreira de Taylor Swift se assemelha a um arco narrativo de um dos personagens mais complexos da indústria do entretenimento. Começando a se apaixonar pela música ainda quando criança e tornando-se um dos expoentes principais da música country com apenas dezessete anos – e levando diversos prêmios para casa com seus primeiros álbuns de estúdio, Swift costumeiramente falava sobre relacionamentos e traumas cotidianos, analisando o mesmo tema com uma diversidade lírica invejável, colocando-a também como uma das melhores compositoras do século. Iniciando sua maturidade com o country-pop Red e fechando esse ciclo com 1989, a artista deixou bem claro para todo mundo que não tinha mais nada para provar para ninguém – nem mesmo com a bizarra produção de Reputation e com o consideravelmente esquecível Lover.

Poucos meses depois de sua última estreia na esfera fonográfica, Swift entendeu que estava pronta para mostrar sua versatilidade mais uma vez. Anunciando de surpresa Folklore, sua oitava iteração, ninguém conseguiria prever a quais estilos e subgêneros a cantora se envolveria – talvez um retorno para o impactante pop de 2014, ou então um resgate às raízes de seus primeiros dias no conturbado panorama artístico. Mas a verdade é que, assim como qualquer outra de suas incursões, sua oitava obra seria atiçada com gêneros que entraram em desuso na década passada e vêm sido resgatados com força desde o início de 2020 – incluindo Fiona Apple e Bob Dylan, que, sem dúvida alguma, lançaram os melhores álbuns do ano. O resultado final de Folklore é maior do que qualquer um poderia imaginar: além de uma coesão sonora quase blasfema, Swift cria uma melancólica e sensorialista mitologia que endossa sua aplaudível e original identidade.

Ao longo de dezesseis faixas, Taylor é inteligente o suficiente para não deixar se render aos amadores erros de sua investida anterior, não nos cansando ao escolher a dedo down tempos místicos que refletem com ambiguidade explosiva o título do CD. As inclinações para o folk, que remetem em partes a Florence Welch e a Aurora, não deixam de fora as inflexões eletrônicas típicas de Jack Antonoff, que volta pela terceira vez para trabalhar com Swift – e pouquíssimo tempo depois de ter entregue outra produção impecável, Gaslighter(2020). Mais do que isso, a dupla, que também se une às competentes mãos de Aaron Dessner (guitarrista da banda The National), sujeita-se não exatamente a uma tristeza, mas a uma taciturnidade extensiva que diz para si mesmo que os tempos de outrora não vão voltar. O evocativo lirismo, digno das melhores canções da performer, é transformado numa narrativa poética que foge do comedido cotidiano e abre asas para uma externalização necessária.

Swift foge do escapismo e, ao mesmo tempo, retorna a ele: as impalpáveis texturas que delineia se distanciam de um teatralismo exacerbado, acompanhando de perto uma “humanização” que, mais que nunca, faz-se necessária. “Cardigan”, o carro-chefe do álbum, é uma crítica quase sociológica e hierárquica, guiada pelas notas lo-fi do piano que, numa rápida busca pela discografia da artista, quase nunca foi usado. De fato, Taylor sempre teve em mente construções mercadológicas, essencialmente voltadas para a compra em massa. Folklore renega tudo o que ela já foi e o que é, mas não a deixa de lado por completo, escolhendo mostrar um lado visto com brevidade em incursões menos conhecidas. “The Last Great American Dynasty”, por exemplo, permanece dentro da mesma imagética instrumental, mas volta-se para uma trama um pouco mais dinâmica; “Exile” é um dueto inesperado que une as vozes de Swift com a grave epopeia Bon Iver, criando um cenário belamente conflitante e emocionante.

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Ainda que a obra não seja a representação clássica do bubblegum pop a que estamos acostumados, algumas progressões misturam com perfeição estilos secundários, como em “Seven”: indiscutivelmente um dos muitos ápices, os violinos à la FEVER DREAM (2019), a dissonância do piano e a momentânea voz da bateria arquitetam um dégradé instrumental que entra em contradição com os crescendos da lead singer, cujos versos saudosistas pintam um retrato idílico, puro e ingênuo. “This Is Me Trying” já abre espaço para o ecoante chamber pop, mas sem deixar de lado o indie folk do qual se valeu até aqui; “Invisible String” traz o retorno sólido do violão em uma descontruída balada romântica, uma história de amor que permitiu que o eu lírico (no caso a própria Taylor) pudesse se livrar das amarras de seu passado e encontrar paz interior, dialogando com basicamente tudo o que qualquer pessoa já quis.

“Mad Woman”, por sua vez, marca o retorno da cantora para um ressonante solilóquio daquilo que está preso em sua garganta, flertando com a dramatização de um tóxico enlace que precisa chegar ao fim. Logo no último quarto da obra, Swift resolve mudar a construção, fazendo isso sem cair nas armadilhas da fragmentação coesiva: nesse empolgante trajeto, surge “Epiphany”, uma mítica e narcótica faixa que sagazmente não sai da linearidade instrumental, mas impede que essa una composição seja cansativa – aliás, é difícil encontrar qualquer mínima sequência de notas que não seja bem pensada e bem estruturada.

Talvez o maior sucesso de Folklore seja sua capacidade natural e orgânica de não ser convencional. Ousadias borbulham em cada uma das tracks, com elegância e requinte que merecem atenção – e que com certeza terão. Mais do que isso, o álbum é, quando em comparação com o restante da carreira de Taylor Swift, o auge de uma donaire artística que ainda tem muito para nos mostrar.

Nota por faixa:

  • The 1 – 4,5/5
  • Cardigan – 5/5
  • The Last Great American Dinasty – 4,5/5
  • Exile (feat. Bon Iver) – 5/5
  • My Tears Ricochet – 5/5
  • Mirrorball – 4,5/5
  • Seven – 5/5
  • August – 5/5
  • This Is Me Trying – 5/5
  • Illicit Affairs – 4,5/5
  • Invisible String – 4,5/5
  • Mad Woman – 5/5
  • Epiphany – 5/5
  • Betty – 5/5
  • Peace – 4,5/5
  • Hoax – 5/5
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