Crítica | Thalita Carauta DOMINA os holofotes no instigante drama ‘Os Sapos’

Thalita Carauta ganhou fama e notoriedade no cenário do entretenimento brasileiro por seus inúmeros papéis cômicos em programas de esquete ou em longas-metragens de comédia. Porém, nos últimos anos, a atriz começou a investir mais esforços em produções voltadas para o drama – sagrando-se como uma grande performer de versatilidade invejável e que merecia mais atenção. E é isso que acontece em Os Sapos, produção que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 06 de fevereiro e que, em sua passagem pelos festivais mundo afora, conquistou aclame e diversos prêmios por focar em uma narrativa introspectiva e angustiante (no melhor sentido do termo).

Na trama, Carauta interpreta Paula, uma mulher beirando os quarenta anos que viaja para o interior para um suposto churrasco organizado por um antigo colega de escola, Marcelo (Pierre Santos). Porém, ao chegar lá, Paula percebe que ele havia desmarcado o encontro, mas esqueceu de avisá-la – e pior: Marcelo estava em uma espécie de escape romântico com sua namorada, Luciana (Karina Ramil), que não tinha ideia de que Paula apareceria. A partir daí, as tensões entre o grupo vão crescendo de forma exponencial, a princípio mascaradas por uma sutil inveja de Luciana para com o modo como Marcelo trata a amiga de anos, apenas para se transformarem em um vórtice de discussões e problemas que nos arrebatam e nos envolvem.

Clara Linhart comanda o projeto e sabe exatamente o que está fazendo, por mais que ceda aos convencionalismos de gênero. A realizadora mostra que domina os aspectos do drama quando somos transportados para o íntimo universo desse complexo grupo, que ainda conta com o casal formado por Fabiana (Verônica Reis) e Cláudio (Paulo Hamilton), erguendo um monumento simbólico que explora as intrincadas relações humanas e de que forma a nossa natureza individualista e dependente cria situações inescapáveis e claustrofóbicas. Paula, por exemplo, insurge como a faísca no barril de pólvora para as fervorosas discussões que acontecem entre Marcelo e Luciana e entre Fabiana e Cláudio – sendo taxada de culpada quando, na verdade, é a vítima.

O filme não está livre de erros – e Linhart parece se perder ao colocar takes numerosos e cansativos de paisagens que não fornecem qualquer ritmo ou continuidade à história, funcionando como “tapa-buracos” panfletários que poderiam ter sido retirados de um documentário. É claro que, considerando a breve duração do longa, essas sequências ajudam a torná-lo mais longo – mas de uma maneira desnecessária e que quebra, pontualmente, nossa conexão com o que está acontecendo. Todavia, tais deslizes são, em sua maioria, ofuscados pelo trabalho primoroso do elenco.

A trama é baseada na peça homônima de Renata Mizrahi, que fica responsável pelo roteiro – algo muito interessante e bem-vindo para que não se perca a essência da obra original. É notável como Mizrahi puxa inspirações de títulos como ‘Deus da Carnificina’ para delinear o drama, afastando-se ao máximo de diálogos novelescos e formulaicos (ainda que, vez outra, deixe os clichês falarem mais alto). O núcleo formado pelos cinco personagens também pode ser entendido como uma espécie de homenagem a ‘Entre Quatro Paredes’, em que a máxima “o inferno são os outros” se aplica a cada uma das personas – mas principalmente quando focamos na perspectiva de Paula. E, em uma conclusão cíclica, tudo volta ao “normal”, mesmo quando os sapos entalados na garganta são expelidos.

Enquanto o elenco se entrega de corpo e alma às personalidades que lhe são dadas, é impossível tirar os olhos de Carauta, que domina qualquer cena que apareça – mesmo que não abra a boca. A presença magnética da atriz conduz o fio narrativo de maneira fluida e derradeira, permitindo que observemos seu arco de forma clara, mas sem entregar tudo de bandeja aos espectadores. De fato, cada personagem tem sua própria trajetória e seu momento de brilhar; entretanto, a permissividade de seus arquétipos os tornam propositalmente coadjuvantes para que Paula perceba que ela não pertence àquele lugar e que, no final das contas, seus comentários e seus conselhos não servem de nada a pessoas que não estão dispostas a ouvi-los.

Os Sapos é uma grata surpresa cinematográfica que, apesar dos equívocos, entrega mais do que promete e vale muito a pena pelo comprometimento dos atores e das atrizes. É provável que o filme passe longe de seu radar, ainda mais com inúmeros blockbusters dominando as salas de cinema – mas, se tiver a oportunidade, não deixe de apreciar sua beleza única e satisfatória.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.