Viagens no espaço-tempo, fluxos temporais e cruzamentos complexos de narrativas que impactam o futuro e o presente. Não há nada tão simples quando se trata de problemáticas dessa natureza e essa profundidade expansiva é exatamente o que faz deste tema um delírio inesgotável para a indústria cinematográfica. Assunto quase batido, mas ironicamente também revigorante, viajar no tempo por meio da arte tem dessas coisas: Pode ser um deleite alucinante ou uma experiência rasa demais para reter sua atenção. Em se tratando da série The Umbrella Academy, essa complexidade é um universo à parte extasiante, onde a estranheza de uma família disfuncional colide com as irreverências de um mundo que quanto mais se tenta consertar, mais desajustado e torto fica.

Steve Blackman transformou os premiados quadrinhos de Gabriel Bá e Gerard Way em uma experiência televisiva completa. Muito mais do que uma série que diverte e cumpre o seu papel, estar diante de The Umbrella Academy é como desfrutar de um banquete completo, onde todos os elementos presentes te oferecem uma jornada imersiva e sinestésica de sabores diversos. Renovando sua trilha sonora para a segunda temporada, logo de cara somos presenteados por releituras de hits musicais contemporâneos, em meio à clássicas canções que marcaram as décadas de 50, 60, 70, 80 e 90, com pitadas do POP dos anos 2000 – que ainda se incorpora à trama, oferecendo uma genialidade autoral admirável e invejável para uma “simples” (que de simples não tem nada) adaptação de HQ.

Ampliando a plenos pulmões todos os aspectos fundamentais que fizeram do primeiro ano da série o sucesso que se tornou, o original Netflix surpreende os fãs dos quadrinhos, unindo uma trama intrigante e progressiva à uma qualidade fílmica insuperável. Aqui, a edição e a direção de fotografia exploram o design de produção da década de 60 com maestria, entregando uma experiência visual que traz o equilíbrio perfeito entre o ar sombrio das cenas mais pesadas e a leveza das tomadas mais delicadas e suaves. Se comunicando com todos os seus próprios fundamentos técnicos, a nova temporada se diverte com uma cartela de cores abrangente, que se expressa em figurinos que marcam a época e que ajudam a pautar também a readequação de cada personagem nessa nova fase de suas jornadas.

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Mais madura e com um timing impecável, The Umbrella Academy retorna voraz e com um novo vigor, trabalha o arco de seus personagens de forma coerente com o background de cada um deles, se atentando ainda ao cenários sociopolíticos culturais da época, como as Leis de Jim Crow e a luta pelos direitos civis dos negros. Reinventando a história mundial a partir da premissa da viagem no tempo, a produção toma esse subgênero narrativo e o chama de seu, criando uma trama extremamente autêntica e ainda mais autoral, mostrando ao público o leque infindável de possibilidades que ainda possui em suas mãos e que não pretende parar de explorar tão cedo assim.

Recriando a década de 60 também de forma mais subversiva, ao adiantar a eclosão das bizarras seitas religiosas que pautaram os anos 70 e ao explorar a identidade de gênero e a sexualidade feminina, a série se transforma em uma tela branca onde tudo pode ganhar vida – quando se tem um bom roteirista (neste caso Jeremy Slater) no comando. Trazendo novos personagens que projetam os rumos da trama a longo prazo, The Umbrella Academy é regada de cenas de ação bem coreografadas e capricha em seus planos sequência. Com uma narrativa cada vez mais intrigante e ajustada com precisão, ela desenha um futuro garantido na Netflix, ainda que o presente nunca esteve tão incerto para os Irmãos Hargreeves, como o próprio e misterioso final nos mostrou.

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