Filme assistido durante o Festival de Toronto 2019

Em um país onde a segregação pulsa com voracidade, o sonho de Martin Luther King parece – gradativamente – ter se distanciado da realidade norte-americana atual. Em uma América onde os negros continuam sendo condenados até que se prove o contrário, os 12,3% da população afro-americana (segundo os dados do Departamento de Censo dos Estados Unidos) pelejam para encontrar o seu lugar fora das prisões, mas ainda se veem, naturalmente, sentenciados por uma justiça caucasiana parcial, que trabalha no esquema dois pesos e duas medidas. E nessa mesma América, onde 2.3 milhões de pessoas formam a população carcerária (dados de 2016), sua própria nação se vê encurralada e destinada a uma vida onde quanto mais negra a pele, mais perigoso o seu futuro.

Luta por Justiça tenta exatamente projetar os holofotes para essa história real de homens que – em virtude de sua raça – se viram sentenciados social e culturalmente, marcados com a Letra Escarlate, escrita com seu próprio sangue. Aqui, a inspiradora história do jovem advogado Bryan Stevenson ganha destaque, a fim de chamar a atenção para uma narrativa que continua se repetindo na América de Donald Trump. Em tempos de cólera, a produção visa se tornar um alerta emocional e impactante, a fim de lembrar a todos, americanos ou não, do injusto sistema judicial e carcerário que já condenou homens inocentes e puniu exageradamente culpados, os extirpando de uma segunda chance. Com o termo misericórdia em seu título original, o longa do cineasta Destin Daniel Cretton é uma carta aberta de repúdio e redenção que veio em uma precisa hora.

Construindo a história a partir de uma fórmula pronta comum no gênero de cinebiografias, o drama baseado em fatos reais não inova em seu roteiro, se sentindo completamente confortável em apenas retratar as circunstâncias verdadeiras vividas por Stevenson e seu pequeno escritório de advocacia que prestava assistência a negros sentenciados e suas famílias. Na pele de Michael B. Jordan, o protagonista conquista a audiência com facilidade, que naturalmente se encanta pela trama, em virtude do fator “real”. No entanto, ainda que entregue uma atuação emocionante, o ator tem dificuldades de cruzar a linha de seu próprio estereótipo, carregado de feições mais rígidas e um ar que beira o marrento. Tentando se despir diante do público, ele sofre para trazer uma suavidade e leveza para o papel, não consegue totalmente, o que é quase frustrante – uma vez que aqui ele tinha em mãos a chance de virar a chave em sua performance artística.

Mesmo assim, B. Jordan está longe de ser um desapontamento, com sua caracterização sendo aperfeiçoada graças à bela dinâmica relacional construída com o personagem Walter McMillian, de Jamie Foxx – que por sinal está fascinante, da personificação física aos maneirismos. Juntos, eles conseguem extrair aquelas temidas e inevitáveis lágrimas que a história já carrega em si, nos proporcionando uma imersão hipnotizante em seu relacionamento. Dentro desse contexto, Brie Larson tenta orbitar ao redor da narrativa principal, mas é tão apática quanto a cor de sua peruca. Suas breves aparições são desnecessárias e apenas visam construir uma sensação maior de identificação entre Jordan e a audiência, o que de fato não é necessário, tamanho o carisma do ator. Tecnicamente, ela está ali para uma pura validação alheia, desqualificando até mesmo o papel real de Eva Ansley, que foi peça chave para a excepcionalidade do trabalho de Stevenson.

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Mas de maneira geral, Luta por Justiça ainda consegue nutrir um brilho encantador, principalmente por usar a sofrida história de superação de um homem inocente como um manifesto para a discussão sobre o sistema carcerário norte-americano. Falhando em chocar brutalmente sua audiência, a produção faz pequenos confrontos quanto aos perigos de tirar o direito de justiça de um ser humano, à medida que tenta promover um debate sobre as adversidades de ser negro nos Estados Unidos. Emocionante por sua essência pura e realista, o drama promove sentimentos dúbios em seu público propositalmente, nos levando a uma pequena montanha russa emocional que visa dilacerar a alma. Efêmero em sua abordagem, mas intenso nos momentos cruciais da vida de Stevenson e McMillian, a cinebiografia é imperfeita, mas nunca foi tão fundamental e necessária para os tempos sombrios em que vivemos.

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