Filme Assistido durante o Festival de Toronto 2019

Entrar no território de célebres obras literárias é como tentar se desviar habilmente em um campo minado. Com seus fãs mais calorosos, um livro é sempre visto como um pequeno espetáculo sagrado e imaculado. Um detalhe alterado, uma versão mal dita e uma percepção pouco apurada na adaptação cinematográfica são capazes de transformar o que era uma grande expectativa em um enorme fiasco. A linha que separa o grandioso do tortuoso é tênue e O Pintassilgo parece ter sapateado entre ambos os territórios, com chances ainda de acumular um prejuízo de US$ 50 milhões nas telonas, em virtude de sua baixa procura por parte da audiência.

E não é que a versão adaptada seja tão ruim assim. Com um pequeno charme, que reside no apego emocional de um garoto a um quadro sobrevivente de um ataque terrorista, o longa tenta encontrar no público olhos marejados, uma tenra identificação com seus protagonistas e até mesmo afagos e suspiros em certas cenas. Mas um tanto frio, até mesmo pela própria atuação de Ansel Elgort e de sua versão mirim, a produção falha em se conectar com os cinéfilos e nem ao menos uma tragédia já tão habitual ao povo norte-americano promove a conexão necessária para vidrar a nossa atenção. Impessoal demais, a produção passeia por quase três horas nas telonas entre hiatos do passado e do presente, a fim de promover uma narrativa não linear fora do tradicional – o que tecnicamente tornaria o filme mais ritmado, ainda que fosse longo.

Ainda assim, sua escolha narrativa, estampada pelos rostos de um elenco de peso que ainda conta com Nicole Kidman, Sarah Paulson, Finn Wolfhard e Luke Wilson, falha na maior parte do tempo, sendo arrastada e evasiva, centrando sua trama mais nas descobertas juvenis de um garoto que – sem referência familiar e sob uma completa alienação parental – faz as escolhas mais evitáveis, apenas a fim de tentar navegar pela vida que nunca escolheu para si. Pouco interessante, o roteiro aparenta se distanciar do fascínio de seu material fonte original e entrega um drama que desperdiça seus protagonistas, não cativa na direção de John Crowley e tem um design de produção quase genérico, de tão esquecível.

Sem um elo condutor que nos leve pelos extensos atos da trama, O Pintassilgo ganha força ao trabalhar com cuidado a culpa de um garoto pela morte de sua mãe. Vinculado a ela por meio do quadro homônimo, ele baseia o restante de sua vida nessa pequena memória que parece manter viva a grandeza que a matriarca um dia foi. Sua necessidade absoluta em viver em negação, como uma técnica de sobrevivência em meio à solidão, tornam o drama mais adorável, configurando como o único argumento palpável que nos leva pelas emoções do protagonista. Não fosse essa delicadeza bem apresentada nas telonas, a versão adaptada se tornaria uma experiência bem insossa.

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Com a narrativa crescendo apenas no terceiro e último ato, a produção peca por perder o afinco do público logo no final da primeira parte. Se estendendo de maneira exagerada nas telas, o longa é uma adaptação que não soube explorar com presteza os elementos fundamentais da obra e acaba trazendo paras as telonas um ritmo narrativo que beira o literário, mas que não funciona na mídia áudio visual. Se tornando mais eletrizante em seus momentos finais, O Pintassilgo tinha tudo para ser uma grande versão do gênero adaptativo, chegou a gerar algumas expectativas para a temporada de premiações de 2020, mas padece como um filme esquecível que se afogou em si mesmo.

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