Crítica TIFF | The Personal History of David Copperfield: Dramédia atualiza clássico livro de Charles Dickens

Crítica TIFF | The Personal History of David Copperfield: Dramédia atualiza clássico livro de Charles Dickens

Nota:

Filme visto durante o Festival de Toronto 2019

Como uma quase relato real dos dissabores da vida humana, David Copperfield é um personagem peculiarmente identificável. Mais do que uma ficção, ele traz em si as durezas de alguém que tentou fugir dos sofrimentos a vida inteira, à medida que tentava se encontrar em meio ao abandono de um padrasto violento e o acalento de uma excêntrica e divertida tia. Entre muitas perdas e poucos ganhos, ele escreveu sua própria história, alcançando um inerente final feliz – como se almeja na vida real e na fictícia. E sua centenária história, mais sofrida do que divertida, ganhou novos e revigorantes ares em The Personal History of David Copperfield. Sensível e emocionalmente agridoce, a adaptação do livro quase biográfico de Charles Dickens assume cores mais vibrantes, repagina suas personagens femininas e nos embala em uma trama sobre a alegria e a dor de ser quem se é.

Armando Iannucci não tira os seus pés da comédia. Território totalmente seu, o gênero lhe faz bem tanto quanto nos faz, todas vezes que ele assume a caneta de um roteiro. E aqui, assinando a trama ao lado de Simon Blackwell, ele traz algumas pitadas irônicas de Veep, acrescentadas a uma doçura sensível e pueril de uma trama que se passa em meados dos anos 1800. Em meio à Inglaterra Vitoriana, figurinos bem demarcados por espartilhos e coletes de tecidos finos traçam o tempo histórico da narrativa, garantindo tonalidades vivas e intensas à uma trama que caminha exatamente igual. E sob a direção de Iannucci, o drama tão carregado escrito por Dickens se transforma em uma epopeia tragicômica – graças a Deus mais cômica que trágica. Entre erros e acertos, ganhos e perdas, David Copperfield é como particularmente creio que Dickens gostaria de ser lembrado: um otimista que extraiu da tristeza algumas das maiores alegrias.

Embora a obra original – dita como uma espécie de biografia não anunciada da vida do autor – trace sua maior extensão narrativa em meio à dramas e traumas dolorosos, The Personal History of David Copperfield joga um pouco mais de brilho, retirando parte das nuvens negras que cercam a história, acrescentando um humor inocente apaixonante e cativante. Rendendo boas risadas, a adaptação é o tipo de filme de época atípico, para aqueles que não são tão apaixonados pelo gênero. Profundo, porém simples em seu ato de contar a história, a produção faz um equilíbrio genuíno entre o amargor e a doçura da vida humana, trazendo Copperfield – vivido graciosamente por Dev Patel – como um homem que soube superar a si mesmo e aos seus medos, recomeçou quando necessário e não se permitiu deixar que as mazelas definissem o tipo de futuro que ele teria. Inspirador, o longa é uma jornada divertida e graciosa sobre as adversidades da vida e sobre as pessoas que ajudam a compor cada um desses belos (ou não) momentos que vivemos.

Aproveite para assistir:


Com um figurino espetacular, a comédia dramática é impecável do começo ao fim em seu design de produção, fazendo com que a moda e o estilo arquitetônico e decorativo da época se entrelaçam, completando-se de maneira inigualável. Desde papéis de parede que casam com os suntuosos vestidos da personagem de Tilda Swinton, às cores da mobília, tudo é perfeitamente caracterizado também para remeter ao mood do protagonista principal. Cada fragmento de seu crescimento é narrado pelos trajes bem ou mal acabados, pelos calçados lustrosos ou gastos, pelos vestidos coloridos e armados ou por peças mais acinzentadas e escuras. Contando sua própria história, ambos os designs de figurino e de produção são uma extensão do roteiro, garantindo um enredo completo que se expressa para além dos diálogos.

Com um elenco de peso, que ainda conta com Hugh Laurie, Peter Capaldi e Ben Whishaw, The Personal History of David Copperfield conta com personagens completamente caricatos e racialmente representativos, que ajudam a trazer um pequeno toque de fábula à trama, fazendo com que a produção se torne divertida e agradável tanto para jovens e adultos, bem como para crianças. Com piadas que – em suma – regem em torno da própria caracterização dos protagonistas, a dramédia consegue ser delicada e robusta simultaneamente, traz uma mensagem inspiradora sobre as diversas fases da vida e a maturidade que cada qual carrega em si e é capaz de fazer chorar com um final que expressa o desejo irrevogável de toda e qualquer pessoa.