Quando os fãs batem à porta e a produtora pede mais, é dificílimo dizer não, por mais que a fonte inspiradora já tenha secado. Aconteceu com Álex Pina na terceira e quarta temporada de ‘La Casa de Papel’ e aconteceu novamente com esse ‘Vis a Vis: El Oasis’, que é a continuação direta em formato de série derivada após o final da quarta temporada de ‘Vis a Vis’, só que é uma continuação escrita e gravada após o estrondoso sucesso do assalto dos Dalís. Ou seja, é um capítulo extra escrito e gravado depois de Álex Pina ir de apenas um roteirista e diretor para o principal nome por trás do último hype nerd dos últimos anos. Aí é que a coisa toda desanda.

Depois do final épico de ‘Vis a Vis’, Macarena (Maggie Civantos) decide procurar Zulema (Najwa Nimri) para roubarem lojas de joias, atrás de lucro e adrenalina. Então, uma reviravolta faz Zulema sugerir que as duas roubem uma tiara de diamantes do casamento de Katy (Alma Itzel Méndez), filha do mais poderoso narcotraficante mexicano da Espanha. Para isso, elas vão contar com a ajuda de Goya (Itziar Castro, resgatada da série original), Triana (Claudia Riera, que funciona como um Denver aqui), Mónica (Lisi Linder) e Flaca (Isabel Naveira).


Agora, pensem num grupo de roteiristas que tiveram que inventar uma história do nada que fosse minimamente satisfatória para se auto-justificar. É isso que dá a entender o roteiro escrito por seis pessoas, incluindo o próprio criador. Os personagens novos são fraquíssimos e não se sustentam. Os personagens antigos foram literalmente resetados, com toda a jornada enfrentada por eles na série anterior sendo jogadas no lixo. Para fazer bonito com a comunidade hispanohablante, há um núcleo mexicano e outro argentino na trama, que só servem para conferir um aspecto de superprodução mundial, pois é tudo muito caricato e gratuito. Como se já não bastasse tudo isso, do nada aparece um ônibus cheio de adolescentes, e a série desvia para debater bullying (?), suicídio na juventude (?!) e abuso sexual (!!) – e você se pergunta em que momento ‘Vis a Vis: El Oasis’ deixou de ser sobre duas ladras fodonas e se transformou em ‘13 Reasons Why’.

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A série teve direção de Sandra Gallego e Miguel Ángel Vivas (sério, o Álex Pina só deve ter assinado o contrato mesmo), e esse novo frescor é bem positivo. Embora mantenha muito dos aspectos gerais característicos do criador (tem cenas beeeeem semelhantes a ‘La Casa de Papel’, como reféns correndo com mãos na cabeça, tiroteios em câmera lenta e um personagem central que explica todo o plano do roubo – que é intercalado por cenas do mesmo acontecendo, etc), há alguma novidade, como o aspecto de faroeste (o tom amarelado da produção, as inúmeras encaradas entre Zulema e Macarena, etc); a boa edição e montagem não linear, encaixadas precisamente; a elaboração de um panóptico como metáfora do conceito de prisão; e as incontáveis referências pop, como a ‘Os Goonies’, ‘Noiva em Fuga’, ‘Kill Bill’, ‘Onze Homens e Um Segredo’, ‘Scarface’, ‘Taxi Driver’ e ‘Thelma e Louise‘.

O que faz valer a pena assistir a ‘Vis a Vis: El Oasis’ é, novamente, Najwa Nimri e sua bela performance como Zulema – que, depois de enlouquecer a la ‘Coringa’ na temporada anterior, mantém o surto em ‘El Oasis’ enquanto pôde. Portanto, se você curte ‘Vis a Vis’ e pensa em assistir a esta nova temporada, a sugestão é ver apenas até o episódio 5, porque depois o trem desgoverna pra valer. Ao menos temos a participação de outros personagens importantes da série anterior, o que traz algum consolo.

Sinceramente, se era para ter esse resultado, era melhor nem ter feito esse ‘Vis a Vis: El Oasis’. Embora tecnicamente bem feito, a nova temporada simplesmente descarta tudo que foi construído com tanto ódio, sororidade e sobrevivência nas quatro temporadas anteriores e apresenta uma nova proposta totalmente nada a ver. Talvez seja a hora de Álex Pina se dedicar a criar novas histórias.


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