Crítica | Vis a Vis – Segunda Temporada Amadurece Sem Perder a Ternura

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CríticasCrítica | Vis a Vis – Segunda Temporada Amadurece Sem Perder a Ternura

Quid pro quo. Tomar uma coisa por outra. Entender uma coisa quando, na verdade, é outra. Esta expressão de raiz latina resume não só a segunda temporada de ‘Vis a Vis’, como também resume o argumento da série como um todo.

Assim como na temporada anterior, o primeiro capítulo começa com uma cena absurda, porém, dessa vez, é pra chocar mesmo. E essa cena dá o tom da reviravolta que acontece nesta temporada: dessa vez, os homens mostram sua faceta demoníaca e tomam o poder. Isso significa que os personagens masculinos – todos eles – ganham espaço no universo feminino do cárcere, mentindo, enganando, tomando à força, manipulando, passando por cima. Claro que essas características não são exclusivas dos homens – afinal, as mulheres também são perigosas, do contrário, não estariam presas – porém, em um ambiente de confinamento, qualquer posição de autoridade se expande ante os mais fracos.

Outro ponto importante é que novos personagens surgem e os antigos se aprofundam – e muito. Dentre os novos, conhecemos Bambi (Olivia Delcán), uma jovenzinha que chega ao cárcere assustada, com uma atitude bastante similar à antiga Macarena (Maggie Civantos), e esse espelhamento é bastante significativo para a memória do espectador e da própria protagonista. Aliás, a própria Macarena evolui bastante nessa transição de temporadas, ganhando corpo, tirando o sorriso do rosto e decidindo não mais ser passada para trás (o que, bom, nem sempre dá certo, mas isso faz parte do crescimento de qualquer um).

A própria prisão também se modificou. Por causa do excesso de liberdade anterior, dessa vez a diretora Miranda (Christina Plazas) decide cortar as regalias e aumentar a vigilância e a segurança da Cruz del Sur, especialmente nas visitas e encomendas que chegam. O aumento de controle ocasiona resultados bem mais trágicos, deixando claro que a atmosfera de colônia de férias da temporada anterior não vai mais voltar.

O quadro se agrava ainda mais com o aprofundamento das vilãs. A treta de Anabel (Imma Cuevas) com Macarena não tinha sido exatamente solucionada na temporada anterior, e agora ela volta com bem mais sangue nos olhos atrás de sua vingança. De igual forma, a terrível Zulema (a maravilhosa Najwa Nimri) busca a todo custo fazer jus à fuga iniciada no episódio anterior, porém seu caminho continua se cruzando com o de Macarena, o que faz com que as duas se estranhem, se biquem e se abracem ora sim ora também ao longo dos 13 episódios. Também Saray (nossa queridinha Alba Flores) entra para jogar, afinal, Cachinhos (Berta Vázquez) é seu grande amor e, por ela, Saray está disposta a comprar briga com quem for.

Com a intensificação dramática da série e o aumento não só do número de episódios (dois a mais que a temporada anterior) como da duração média (aumento de 10 minutos por episódio em comparação com a temporada 1), era de se esperar que a qualidade técnica também evoluísse, porém, certos equívocos de transição e de continuidade por vezes confundem o espectador. Algumas cenas dramáticas também acabam se estendendo por uns poucos segundos a mais desnecessariamente, e, considerando a duração de cada episódio, esse prolongamento acaba por impacientar o espectador – mas nada que tire o brilho geral da série.

Em um momento de reflexão, Macarena parece dar um recado ao espectador: no cárcere, elas vão se afundando pouco a pouco, por isso, a primeira coisa a se fazer ali é perder o amor próprio, pois é ele quem te faz sofrer, afinal, você tenta seguir o caminho da virtude e a realidade te derruba. Por isso, o mais importante no cárcere é ser a 2ª mais lenta, para que os leões não te devorem.

Destacam-se os episódios 2, 5, 6 (este com cenas mais calientes), e 11, 12 e 13, que, novamente, aceleram o ritmo dos acontecimentos para a grande conclusão, encerrando com um gancho que deixa a gente com a respiração presa e o coração batendo rápido, aguardando novos episódios.

No geral, a segunda temporada de ‘Vis a Vis’ consegue manter o ritmo e a proposta assegurada no seu título: vis a vis, em espanhol, significa visita (aquelas visitas que os familiares dos presidiários fazem), e que, de maneira metafórica, é o que a série propõe ao espectador: uma visita mais íntima a esse mundo cruel e sensível do cárcere da Cruz del Sur, que endureceu muito nessa segunda temporada, mas não perdeu a ternura jamais.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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