Se você ainda não conhece o realizador Wes Anderson, deveria conhecê-lo. Responsável por aclamadas produções como ‘Os Excêntricos Tenenbaums’, ‘Moonrise Kingdom’ e O Grande Hotel Budapeste, Anderson resgatou um elegante estilo da Era de Ouro do cinema hollywoodiano e imprimiu uma estética única que é explorada ao extremo em cada um dos seus títulos. Tendo influenciado inúmeras produções artistas, como a recente adaptação de ‘Desventuras em Série’ e a cantora e compositora Melanie Martinez para o filme musical ‘K-12’, o diretor é um dos nomes que melhor representa o cenário mainstream – e é claro que isso não seria diferente com o recente ‘A Crônica Francesa’.

Depois de ter mergulhado no gênero da animação em stop-motion com o denso e crítico ‘Ilha de Cachorros’, Anderson resolveu retornar para o live-action com seu primeiro título original em três anos. A trama é centrada no pequeno jornal titular que enfrenta uma profunda mudança depois da morte inesperada do editor-chefe Arthur Howitzer Jr. (Bill Murray). Em seu testamento, Arthur anuncia que o consórcio de imprensa deve fechar, com seus funcionários sendo bem remunerados pelo tempo que trabalharam e com a publicação de um último número – em que três artigos de edições anteriores serão republicadas ao lado de um obituário.

O enredo principal, dessa forma, se divide em uma tripartição que, para o bem ou para o mal, parte de um exagero estético e narrativo que transforma o longa em uma adição formidável ao catálogo de Anderson. De certa forma, ‘A Crônica Francesa’ pode ser mais apelativo a certos públicos específicos, visto que a obra é uma carta de amor aos jornalistas e uma realização que com certeza irá encantar os fãs mais assíduos do cineasta. Quando em comparação a incursões predecessoras, as repetições artísticas e temáticas podem causar uma certa abstinência por originalidade – mas a condução do roteiro e as performances de um elenco estelar são o suficiente para nos manter vidrados nas histórias que emergem nas telonas.



A genialidade do diretor e roteirista reside nas minúcias e na detalhada arquitetura que constrói tanto nos momentos artísticos quanto nos técnicos; é notável como as declarações que faz não são gritantes e partem de um controverso movimento de frenesi e de monotonia que arranca risadas inesperadas dos espectadores e que culminam em desfechos inesperados e que fogem das fórmulas de quaisquer dramas cômicos que peguemos das últimas três décadas. Afinal, para aqueles familiarizados com a filmografia de Anderson, nada é construído sem segundas intenções – e isso não seria diferente com os excertos “The Concrete Masterpiece”, “Revisions to a Manifesto” e “The Private Dining Room of the Police Commissioner”.

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Se há algo que a iteração nos prova é que o realizador tem uma capacidade invejável de criar microcosmos atemporais e fabulescos: ‘A Crônica Francesa’ é, essencialmente, ambientado na primeira metade do século XX, mas toda a delineação dos cenários nos convida a um universo que foge das especulações tradicionais da cronologia e que, por esse motivo, cultiva um interesse crescente. Seja falando sobre um artista encarcerado que produz obras-primas (Benicio del Toro), uma jornalista solitária (Frances McDormand), um estudante revolucionário (Timothée Chalamet) ou um chefe de cozinha e oficial de justiça (Stephen Park), os inusitados contos se correlacionam com verossimilhança assustadora aos editoriais e aos artigos de opinião de respeitados jornais como o The New York Times ou o The Guardian – e até mesmo a leitura dos diálogos e as narrações carregam um fraseamento próprio das rádios da época.

A verdade é que as honrarias prestadas a Arthur e o resgate de histórias populares da Crônica Francesa insurgem como análises sociológicas acerca de como o ser humano se enxerga dentro da pequenez que simboliza no universo e como as histórias mais simples podem ser destrinchadas em epopeias e épicas – em arcos que nos levam para uma direção e logo fazem uma brusca virada em um caminho totalmente diferente. O embate entre Moses (Del Toro) e Julien (Adrien Brody), um negociante de arte, demonstra como a inspiração e a criação podem ser facilmente comercializadas e destituídas de seu valor identitário; os sonhos de Zeffirelli (Chalamet) e seu envolvimento com Lucinda (McDormand) revelam a busca interminável do ato jornalístico em encontrar imparcialidade, além de destilar um conflito geracional que, desde sempre, está presente no planeta; e Lt. Nescaffier (Park), que amalgama todas as facetas de um herói, se envolve em uma missão perigosa digna de primeira página para resgatar o filho do Comissário (Mathieu Almaric).



Através de uma imagética pouco ortodoxa – mas familiar quando pensamos na carreira de Anderson -, as tramas apresentadas adotam um teor mais fantástico, contadas com afeição e determinação incríveis. Além das já mencionadas atuações de um time irretocável, temos a exaltação teatral das miniaturas e da supersimetria das sequências, aliadas a uma limitada paleta de cores que, inclusive quando infundida no monocromático, é utilizada com sagacidade. Dentro do espectro pastel, o público percebe o contraste entre o amarelo e o azul, por exemplo, cuja simbologia antagonista auxilia na cultivação de personalidades complexas e que dialoguem com falhas humanas como a ambição desmedida ou a fragilidade das emoções. A cereja do bolo vem com o nome da cidade fictícia, Ennui-sur-Blasé (Chatice-na-Apatia), que prenuncia a ironia da produção e a proposital monotonicidade das expressões das personagens.

‘A Crônica Francesa’ pode não ter o mesmo frescor de outras investidas de Wes Anderson – mas a química dos atores e das atrizes e a total despreocupação formulaica de seus visuais são fatores fortes o suficiente para nos guiar em uma divertida e sarcástica narrativa.

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