007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, já está em exibição exclusivamente nos cinemas – após ser adiado do ano passado devido à pandemia. Como forma de irmos aquecendo os motores para esta nova superprodução que, como dito, faz parte de uma das maiores, mais tradicionais e queridas franquias cinematográficas da história da sétima arte, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo para você inúmeras curiosidades e muita informação.

Curiosamente, a era Craig da franquia 007 ficaria marcada (até o momento) como a antítese da franquia Star Trek no cinema. É um fato conhecido entre os fãs que os filmes da antiga Jornada nas Estrelas eram melhores em seus exemplares pares. Ou seja, o segundo, quarto, sexto filmes, e por assim vai. Com os filmes da era Daniel Craig de James Bond, os melhores exemplares são justamente os filmes ímpares. Ou seja, Cassino Royale tinha sido uma estreia mais que eficiente, porém, rendeu uma continuação que era muita forma e pouca substância. Tudo melhoraria substancialmente no terceiro filme, Operação Skyfall. E bem, chegaríamos até o 24º exemplar com SPECTRE, sobre o qual iremos falar neste último Dossiê 007. Confira abaixo.

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Produção



Com o vigésimo quarto filme da franquia, a EON Pictures dava outro grande passo em sua cronologia finalmente. Cassino Royale havia trazido os diretos revertidos de sua adaptação – afinal este era o único livro de Ian Fleming que havia rendido um longa fora da franquia oficial: uma paródia produzida por outro estúdio (a Sony). Com os direitos revertidos para a EON, Cassino Royale pôde ganhar um tratamento sério e serviu de estreia para Daniel Craig. Por sinal, a era do ator na franquia foi repleta de referências aos clássicos primórdios de 007. Quantum of Solace era um conto de Fleming contido numa coletânea, e SPECTRE, o quarto filme de Craig, trazia para a EON os direitos de utilizar novamente a organização criminosa e seu líder, o maquiavélico Ernst Stavro Blofeld, que não apareciam desde a era de Sean Connery – devido a uma briga entre produtores.

Para comemorar tal feito, a EON tratou de recriar a parceria com o diretor Sam Mendes, que havia entregue simplesmente o filme mais lucrativo, bem sucedido e elogiado da franquia: Operação Skyfall. Os fãs e os críticos adoraram o vigésimo terceiro filme, que não por menos comemorou os 50 anos da franquia. Skyfall se tornou extremamente popular e elevou os filmes de James Bond a um nível nunca alcançado anteriormente. Assim, com Mendes confirmado na direção, era hora de replicar a mesma mágica. E aí se encontrava o perigo, capturar novamente o relâmpago na garrafa se mostraria um desafio grande demais para ser atingido.

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James Bond

Como dito no Dossiê anterior, quando Operação Skyfall demorou quatro anos para sair do papel, Daniel Craig não sabia se voltaria ao personagem principal. E o mesmo ocorria aqui, em sua quarta encarnação como James Bond. Após o bem sucedido Skyfall, Craig anunciava sua aposentadoria. Esses anúncios sem dúvida se davam pela exaustão física e mental que tais filmes causavam ao astro. Craig, sempre tentando realizar suas próprias façanhas de ação, terminava sempre machucado durante as filmagens. Assim, com a idade avançando (aqui aos 47 anos), Craig ficava cada vez mais desmotivado a continuar, mas era coagido a cada novo exemplar – com um polpudo cheque sem dúvidas. Uma coisa deve ser dita, Craig dava tudo de si e não apenas nas cenas de ação, mas igualmente em sua performance dramática na pele do herói.



Missão Secreta

A trama gira em dois âmbitos aqui. Primeiro, com Bond no campo, rastreando um velho amigo: o Sr. White. O sujeito o pede para que proteja sua filha, Madeleine Swann, uma médica. Antes disso, porém, o filme abre com o que é talvez seu melhor momento, um plano sequência de ação, que começa com Bond fantasiado de caveira em plena celebração da festa mexicana do dia dos mortos – que resulta numa intensa briga dentro de um helicóptero em movimento. Pulando mais à frente na trama, a investigação de Bond o leva em rota de colisão com a organização criminosa do título e seu líder Blofeld, anunciado anteriormente como Franz Oberhauser. Em contrapartida, o novo M enfrenta seus próprios problemas de dentro da agência MI6, quando o burocrata conhecido como C resolve implementar um novo sistema que tira o poder dos agentes de campo e torna a agência extremamente engessada e vigiada.

Bondgirls e Aliados

A musa italiana Monica Bellucci é outra cujo destino com a franquia 007 deveria ter se entrelaçado anteriormente. Porém, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. E Bellucci só teve a lucrar com o fato. Embora sua personagem tenha participação pequena, como Lucia (a esposa de um mafioso), Bellucci pôde participar de uma das melhores fases da franquia, a era de Daniel Craig. Fora isso, ainda tirou onda na pele de uma Bondgirl um pouco mais velha e madura, aos 51 anos de idade, derrubando tabus e falando muito pelas mulheres sem espaço ao atingirem determinadas idades na indústria de Hollywood.

Mas a Bondgirl principal em SPECTRE é a francesa Léa Seydoux, na pele da médica Madeleine Swann, a filha do criminoso Sr. White. Seydoux é uma grande atriz, como comprovou no drama erótico Azul é a Cor Mais Quente, um dos filmes cult mais celebrados da década passada. No entanto, seu papel como Madeleine rende uma personagem apagada, a típica donzela em perigo, sem qualquer graça ou diferencial. Ela é “vendida” como o novo grande amor de James Bond, porém, devido à falta de química entre Seydoux e Daniel Craig (além de uma relação rápida demais, sem construção na trama), nunca acreditamos no casal. Ainda mais tendo em mente Vesper Lynd em Cassino Royale. Por essas e outras, Madeleine Swann vai para o fundo da pilha como a pior Bondgirl da era Craig – isto é, ao menos aqui em SPECTRE (veremos como ela irá se comportar em Sem Tempo Para Morrer, já que a personagem retorna).



O armeiro (agora hacker) Q e a ex-agente de campo transformada em secretária Moneypenny também estão de volta, nas formas de Ben Whisahw e Naomie Harris. Além do novo M, mais uma vez nas formas de Ralph Fiennes. Ah sim, ao lado da francesa Seydoux e da italiana Bellucci, temos brevemente uma Bondgirl mexicana. A bela Stephanie Sigman (Miss Bala) é quem abre o filme na melhor sequência de ação, durante o citado dia dos mortos, e vive um breve romance com Bond, com direito a fantasia e tudo.

Vilões

Bem, e se no quesito das Bondgirls SPECTRE deixa a desejar, a coisa não melhora muito quando falamos dos vilões. Em especial, a volta do arqui-inimigo de James Bond, Ernst Stavro Blofeld. No passado, o personagem já foi interpretado por atores como Donald Pleasence, Telly Savalas, Charles Gray e Max von Sydow. Era esperado que com o título do vigésimo quarto 007, SPECTRE, Blofeld fosse igualmente fazer uma aparição. E quando foi noticiado que o duplamente Oscarizado Christoph Waltz (Bastardos Inglórios e Django Livre) havia sido contratado para o elenco, todas as especulações para o papel se voltaram para ele. Prontamente o ator desandou a negar os “boatos”, afirmando que seu papel era o de Franz Oberhauser. Bem, e ele não estava de todo errado, com este sendo o nome de batismo do personagem.

No fim das contas, sim, Christoph Waltz era Blofeld, e isto era mais óbvio do que os dois Oscar que o ator coleciona em sua casa. O mistério no fim das contas não foi mistério para ninguém. Isso porque desde que surgiu em cena em 2009 no filme de Tarantino, Waltz se especializou em viver vilões no cinema. Da maioria dos filmes que fez desde então, Waltz foi o personagem mau. O Besouro Verde (2011), Água para Elefantes (2011), Os Três Mosqueteiros (2011), Reino Escondido (2013), Quero Matar Meu Chefe 2 (2014), Grandes Olhos (2014), A Lenda de Tarzan (2016) e Amor & Tulipas (2017) foram alguns dos filmes que trouxeram o ator no papel do bandido. Ou seja, algo muito batido. O diferente é vê-lo em papeis de heróis.

A escolha de Waltz como Blofeld é tão óbvia que se torna quase um clichê, perdendo grande parte da graça e efeito. Fora isso, o roteiro trata de acrescentar um dos elementos que foram tendência na década passada, porém, algo extremamente desnecessário. Neste período, tudo precisava estar interligado, em especial as histórias de vida de heróis e vilões – como se tudo só funcionasse de forma mais dramática se existisse uma conexão. Assim, em O Espetacular Homem-Aranha (2012), os pais de Peter Parker trabalhavam na Oscorp e desenvolveram a experiência que transformou seu filho num herói; o pai da repórter April O’Neill (Megan Fox) foi o responsável pela substância que transformaria as tartaruguinhas da filha em mutantes combatentes do crime no reboot de As Tartarugas Ninja (2014); e finalmente, Blofeld se revelaria como o irmão de James Bond em SPECTRE. Irrrg.


No lado positivo, o gigante Dave Bautista (Guardiões da Galáxia) foi uma das inovações mais bem-vindas de SPECTRE. Na pele do assassino de poucas palavras Hinx, Bautista cria uma ameaça digna dos grandes capangas da série, vide Jaws e Odjob, e a cena de luta dentro do trem contra Bond e Madeleine é uma das melhores da franquia, e definitivamente um dos pontos altos do filme. Uma guinada interessante seria fazer de Bautista o Blofeld para os novos tempos, além de uma ameaça intelectual, também uma ameaça física para 007 – algo como o vilão Bane, de Batman.

Relatório

Fazendo valer a teoria dos números pares para os filmes de 007 da era de Daniel Craig, SPECTRE se junta a Quantum of Solace como os dois episódios mais fracos. Em partes, SPECTRE é o anti-Quantum of Solace. Enquanto o último foi muito acusado de ser um grande comercial de cenas de ação, não existindo muito mais entre elas, em SPECTRE elas são mais escassas, porém, o que sobra igualmente não ajuda. O vigésimo quarto filme poderia ter resultado numa produção mais interessante caso o roteiro não tivesse focado na irritante ferramenta de precisar ligar tudo, além deste parentesco totalmente deslocado, ainda querendo tirar o coelho da cartola com a afirmação de que Blofeld era o responsável pelas maquinações de todos os outros vilões – algo totalmente despropositado e difícil de acreditar.

Muitos acreditam que Sam Mendes não deveria ter retornado para seu segundo 007 consecutivo. Isso porque ao que tudo indica, ele havia dado tudo de si em Operação Skyfall, e quando retornou para SPECTRE decidiu fazer somente mais um filme de James Bond. Caso outro cineasta tivesse ocupado seu espaço, talvez sua motivação para superar o anterior fosse maior. Foi o que ocorreu com o diretor de fotografia Roger Deakins, que se negou a retornar para este. Apesar das críticas mistas, inclusive para a canção tema Writing’s On The Wall, de Sam Smith, SPECTRE se mostrou um sucesso de bilheteria. Só não era Operação Skyfall. Os fãs, por outro lado, também não compraram muito as ideias do filme, garantindo a ele uma posição baixa na lista dos preferidos da franquia.

Com SPECTRE chegamos ao fim de nossas matérias Dossiê 007. Sem Tempo Para Morrer estreou hoje nos cinemas de todo o Brasil e grande parte do mundo. Em Breve lançaremos algumas matérias de ranking das melhores Bondgirls, melhores vilões, melhores capangas, melhores atores que viveram James Bond e os melhores filmes da franquia. Aguardem.

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